Hoje acordei cinza e mais tarde tornei-me amarelo

Sexta-feira deveria ser de regozijo. Acontece que nem todas as segundas se assegundam.

A maior parte dos amigos, conhecidos, ou até mesmo aqueles nos quais jamais passarinhei os olhos, sonham com a chegada amistosa do derradeiro dia de semana útil, embora, grande parte da população brasileira faça dos finais de semana outra enxada para carpir mais uma grana para fornir a despensa, nestes tempos de escassez de quase tudo, menos de inspiração que me cavouca tanto.

Problemas nos fazem parte do cotidiano. Para aquele mendigo que dormita debaixo da marquise, aqui nos arrabaldes, ao vê-lo dormir a sono desfraldado, ao revés do que acontece a mim, durmo menos que os passarinhos, ignoro quantas horas dormem aqueles seres avoantes, sei que eles têm vida curta, creio que os problemas não se amiúdam tanto quanto os que trabalham tanto, sem descanso, com um turbilhão de desencantos a nos fazerem perder o sono, sonho então, não tenho tido o direito a tê-los.

Hoje, sexta-feira, último dia do mês de junho, julho lhe segue a passos rápidos, acordei com uma estranha e inexplicável apatia. Eram tantas as tantas coisas que me esperavam a resolver, simples para muitos, para mim, meio poeta, embora não sabendo versejar, complexas, que acabei vendo a manhã desse dia trinta de junho com olhares cinzentos.

Nem bem as cinco da manhã me viram abrir os olhos, confesso, sem medo de estar equivocado, que bem antes já me sentira acordado, ao lavar o rosto com água fria da pia perto de minha cama, limpar os dentes que ainda me restam, vestir uma roupa apropriada ao clima frio que o início de inverno mostra, de tomar meu cafezinho expresso numa máquina fácil de manejar, de comer duas bananas madurinhas como me sinto nos dias de hoje, um enorme copo de leite frio, deixei a casa rumo ao trabalho.

O meu não se equivale ao do grupo de pedreiros amigos que adentram ao portão do condomínio onde vivo. O meu metier é confortável, seguro, dentro de quatro paredes, num calorzinho gostoso, tanto atendendo a consultas, ou operando casos singelos, não levantando paredes, rebocando as mesmas, que devem estar no prumo, deixando prontas as casas, sejam luxuosas ou menos, e, depois de elas terminadas jamais adentram ao seu interior. Não são convidados a inauguração, pois de novo o trabalho os conclama, e eles têm de sujar a roupa antes limpa, que, depois de um dia inteiro de labuta, de branca fica da cor do cimento, da cal verde imunda que reveste as paredes, ou amarronzadas dada ao serviço  que eles têm de deixar perfeitos, embora a perfeição apenas exista aos olhos de Deus e seus anjos querubins.

Uma vez de roupa trocada, pijama deixado sobre a cama, não tenho tempo de arrumá-la, ao deixar o mesmo portão, de me despedir do porteiro camarada, um dos incontáveis amigos que penso fazerem parte da enorme legião de pessoas singelas pelas quais conto com as suas sinceridades em me proclamarem amigo de verdade, ao ver o céu azul, o sol já desperto e esperto, ao contrário do que deveria, por tantos e tantos motivos, me sentir alegre, já que essa é mais uma sexta-feira,  a me ver na rua, descendo passeio abaixo, uma estranha e impura nostalgia me fez sentir cinza, ao revés de estar colorido da cor do sol, ou vestindo por dentro d’alma a amarelice do sol.

Pelo caminho andado, pensando sobre a mesma vida, lucubrando sobre as cores tantas que a despem de seus momentos infelizes, de vez em quando ela fica triste, noutros momentos a mesma estrada percorrida fica alegre, não existe felicidade perene, o que estamos acostumados são repentes de alegria, alternados com instantes de calmaria e apatia, ao ver a roupa que hoje coloquei sobre meu corpo andado em anos, hoje caminho acelerado aos setenta, ao comprovar que a cor da minha roupa é cinza, na parte de cima, e negra, na calça de moletom confortável, comprado em uma das minhas viagens ao estrangeiro, no debrum da tarde, quando a temperatura aquece o meio ambiente e minhas entranhas sensíveis, ao voltar a casa, devo trocar a roupa para uma mais leve.

Tomara, de acordo com a alegria que talvez me aperte o âmago como tenazes fortes sufocam a porca sobre o parafuso, na parte de depois do meio dia, deixe a roupa de agora cedo de volta à poltrona branca do meu quarto de dormir, procure outra de cores menos sombrias nalguma gaveta entulhada de roupas, muitas até esqueço que as tenho, vista uma calça de cor clara, exatamente como claro está o dia de hoje, uma camisa tinta com todas as cores do arco-íris, não tantas assim, para não ficar muito chamativa, um tênis colorido de vermelho, verde, e azul, pode ser também amarelo como o sol que justo agora lança seus raios luminosos sobre a terra,  e o mesmo eu, que acordei taciturno e sombrio, tomara, transmute de vez. Não apenas as cores das roupas, mas, como também o cinza que brotou dentro de mim.

Oxalá, o cinza anterior que nasceu dentro de mim, no dia de hoje, mude para amarelo, ou outra cor mais alegre, em conformidade a cor do dia que sorri para mim.

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