Tentaram tirar-lhe o mofo dos anos

Um dia, não sei quando foi, ao abrir o guarda- roupa onde descansam as minhas, entra inverno atropela-o o verão, quando do cabide retirei um velho sobretudo, comprado há anos e anos, notei algumas manchas brancas vestindo-lhe a gola escura. A princípio cheirei aquela mancha que jurava não existir na derradeira vez que utilizei o pesado e felpudo casaco de lã. Aquilo cheirava a coisa sem uso, a exemplo de um velho traste, embolorado, atapetado de teias de aranha, enrolado num tapete velho, olvidado pelo dono.

Quando, munido de uma escova de limpar roupas, com ela fiz movimentos frenéticos na intenção de retirar do velho casaco a tal mancha que nada mais era que uma colônia de fungos, bolores, notei que a mesma sujeira, que não era feita de poeira, não desapareceu por inteiro da gola do casaco apenas e tão somente usado quando em viagem a um país muito frio, para ser mais explícito tratava-se da Holanda, quando meu filho e nora moraram lá. Ficou, em seu lugar, apenas uma lembrança tardia do quanto a Europa é linda, mesmo no inverno, notadamente ao ver a neve espessa cobrindo os carros como um cobertor branquinho, o qual, paulatinamente, se desfaz ao ver a cara risonha e amarela do sol.

Já hoje, junho se despedindo, quase, dando lugar ao seu irmão mais longevo, julho, dia frio ao seu começo, embora de céu azul, ao sair de um banco, que tem o nome do meu desgovernado mas amado país, deparei-me com uma cena inusitada.

Noutro banco, não aquele de onde saquei dinheiro, em espécie, para pagar os pedreiros que constroem meu castelo de sonhos num lugar com cheiro de paraíso, uma casa quase terminada fincada à beira da represa do Funil, um senhor, amigo velho, não vou declinar-lhe o nome, nem ao menos o apelido, assas conhecido na cidade de Lavras, para evitar causar, involuntariamente, constrangimento a sua pessoa, um tanto obesa, ele já foi mais, estava sendo espanado por uma linda gari da limpeza urbana.

Já com a soma importante reconditamente escondida na carteira, nestes tempos de falta de recursos, lojas fazendo promoções bombásticas, carros de som anunciando preços imperdíveis, pipoca quentinha saindo das pipoqueiras a frente de lojas, aproximei-me dos dois.

Esse meu amigo, que antes amava tanto as vacas e suas crias, hoje passa o dia inteiro, desde madrugada aberta aos olhos, até quando as galinhas se empoleiram, assim que me viu sorriu num cumprimento esbaforido, bem ao seu estilo.

A tal gari, vestida com o uniforme laranja, cobrindo-lhe a vasta cabeleira uma toca de lã grossa, ao me ver aproximar, parou, de chofre, de espanar o mofo, seria isso mesmo?, da perna da calça do meu amigo antes dono de vacas e seus bezerros.

O mesmo senhor, que um dia irá criar raízes na praça principal da cidade, sempre de bom humor, ele não aprecia que o chamem no aumentativo, sacou do bolso cheio uma nota de cinco reais, e a passou adiante, a mesma moça simpática descrita dantes.

No meu celular nota-se, na data de hoje, uma selfie meu e dela, ambos sorridentes. Embora o Google-sabe-tudo diz, na consulta feira agorinha mesmo, que selfie tanto pode ser no masculino ou feminino, só o tempo vai consolidar o tratamento.

Despedi-me do amigo do eterno banco da praça com um pensamento, que não lhe foi passado adiante, para não melindrá-lo ainda mais.

O que a tal gari estava retirando da perna da calça escura do velho ancião? Com um pano usado na faxina de mesas limpas, como lhe estava a peça de roupa?

Seria o mofo dos anos? Ou, pensando sobre outro prisma, algum caruncho, teia de aranha, coisas e loisas que não são usadas, ficam tempos e tempos dependurados em algum armário do esquecimento?

Seria possível, conjecturas minhas, retardar, de alguma forma, o envelhecimento? Ou retirar de dentro ou de fora da gente o mofo, ou o bolor, ou aquele cheirinho desagradável de coisa velha?

Deixei o amigo velho entregue ao doce passarinhar dos anos. Talvez ele consiga, depois que a moça linda da limpeza urbana retirou-lhe um cadinho as teias de aranha do tempo, o velho amigo, aquele que não gosta que o chamem no aumentativo, logre sucesso em ser menos velho, que seus anos ditam.

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