Por mais que tente, retente, comece tudo de novo, nos dias que amanheceram cinzentos, hoje a tarde o sol mostrou os dentes amarelos, por mais que me esforce, com as exíguas forças que inda me restam, quando tento afastar a tristeza, também chamada melancolia, ela vem, com mais força que as minhas, apossa-se do meu âmago, como uma nuvem, ou um tufão, apodera-se do meu interior, e não tenho como me livrar dela.
A tal tristeza hoje passou a ser a bola da vez de uma mesa de sinuca deslocada do seu eixo. Ela, a tal bola, de todas as cores que escorrem pelo feltro verde da mesa de sinuca, idem chamada de depressão, se mostra em suas distintas faces: cinzas, negras, amarronzadas ou de cores não alegres, como a amarela e a vermelha, dentre todas prefiro o verde da pastaria que se colore em tons sobre tons, hodiernamente em dezembro, janeiro, cai fevereiro e o verde ainda sorri, com o mesmo sorriso brejeiro da garota trigueira, de cor jambo amarelado, que dança a festa junina num forro alegre e de saltinho um tanto alto para a sua altura não tão alta, e acaba a festa, e o rapaz assaz animado, o qual pensava sair com ela para um motel no meio do mato, logra-se de repente, ao ver que a tal moçoila, de sorriso farto, nunca foi moça, de fato.
Em verdade ela é uma garota de programa, com a agenda lotada, desde janeiro ao mês de meio de ano. E para ele, que passou a noite inteira saracoteando as cadeiras, nada sobrou senão chupar o dedo, e quase ver as unhas puídas no sabugo.
Há exatos mais de sessenta anos tenho um amigo chegado.
Ele foi meu coleguinha, imiscuído numa turminha boa, grande parte deles já não fazem parte desse mundo, no Jardim de Infância de nome Narizinho Arrebitado.
O tal era fincado bem pertinho da casa onde cresci. Não muito, diga-se de passagem. Na mesma rua onde passo todas as tardes, entro por uns minutinhos parcos na casa de número 152, vejo a Rosinha querida, converso animadamente com suas cuidadoras, e dali saio em direção a um clube intrinsecamente unido ao meu cordão umbilical.
Como de costume passo horas baldias cuidando do corpo, não tanto jovem como naqueles verdes anos. Corro desvairadamente na esteira, até ver e sentir o suor escorrer-me de cima abaixo. Musculo-me menos do que deveria. Coisa não recomendável.
O tal jovem, considero-me assim aos sessenta e sete anos, da minha exata idade, notável fidalgo, extremamente educado, formado em administração de empresa, parece que nunca exerceu tal habilidade, quase sempre me encontrava com a sua pessoa amistosa à porta de uma casa lotérica, já bem cedo em horas.
Algumas vezes tantas ele estava postado, como um poste esguio, à porta do edifício onde passo horas atendendo na minha especialidade, ou escrevendo loucamente.
Sei que a principal atividade que o marcou nos seus mais de sessenta e sete foi dar brilho aos carros, deixando-os de seminovos em novinhos em folha.
Foi com isso que bem criou uma família maior que a minha, filhos crescidos, que pouco lhe deram trabalho.
Bem conheço dois deles: o Quim, personal ilustre no querido clube LTC, sem precisar tecer comentários elogiosos a ele. Todos ali o conhecem e o respeitam demasiado. O segundo, bem sei que um terceiro homem resta, embora não me recorde das suas feições, bastante conhecido nos meios médicos, entende de plano de saúde como poucos, leia-se Unimed. André sabe que é dele de quem escrevo.
Bem que o colega Dinho tentava se exercitar no mesmo clube fronteiriço ao nosso estimado LTC. Mas, como sabedor que eu era, por um problema que foi sanado a tempo, Valdemar foi submetido a uma prótese coxo- femoral com retumbante sucesso, ele, quando ali comparecia, menos pedalava que eu corria ferozmente na esteira ao seu lado. O que meu amigo de infância mais gostava era da hidroginástica. Enquanto eu nadava de fato na piscina maior.
Hoje, 28 de junho, depois das quatro da tarde, lá chegava eu ao LTC, como de hábito, fim de tarde, noite ainda bocejante, quando, ao apertar a mão do seu filho personal, senti no peito um bater descompassado do seu coração. As notícias sobre o estado de saúde do Dinho não eram das melhores. Depois comprovada pela esposa do filho atleta do amigo Valdemar. Por ela soubemos que ele teve morte cerebral, depois de agonizar tempos longe de sua cidade natal.
Foi quando corri a pernas desfraldadas na esteira rolante. Corri como nunca dantes. Ao correr tempos enormes, à velocidade conflitante a minha idade, veio-me à cabeça pensante a figura querida do Dinho. A sua morte anunciada, naquele exato instante, foi como se mais um dedo da minha mão fosse cortado rente.
Corri mais algum tempo. Na intenção de tentar afastar a tristeza. Mas, dada a certeza da morte do meu colega amigo, confesso, debaldes foram as tentativas.