Aquele homem vesgo, nascido e criado com uma grande deformidade visual, num lugar ermo e solitário, nascido e crescido na roça, não se adaptou a cidade quando um dia se mudou para lá, e logo retornou com os sonhos destroçados, por causa de um empreendimento ruído, graças à própria inexperiência com os negócios, apenas entendia a razão de o leite ser branco e a vaca preta, logo de volta ao seu palmo de chão, com sempre algo a fazer, daí do nome que a roça, quando maior, recebe o nome apropriado de fazenda, para levar o mesmo produto das tetas das vacas teve de comprar, de um vizinho perto, uma charrete seminova e um cavalo eunuco para puxá-la.
Com que dificuldade Giba, em menino era conhecido por Gibinha, atrelava o cavalo baio, depois de ir buscá-lo no pasto sujo, num matinho assaz conhecido pelas crianças do lugar por ser ideal para namorar: novilhas mochas, éguas cupinzeiras, até mesmo galinhas velhuscas, eram para aquele matinho ensombrado encaminhadas para fazer amor apesar de ser um amor arredio, muitas vezes não correspondido, respondido por coices, ou beliscadas, no local usado para quem sabe fazer bom uso daquilo, de que o médico urologista sabe tratar como nenhures, conhecido por pênis e bolsa escrotal, conteúdo e continente do testículo e seus anexos.
O cavalo baio, comprado pelo já homem Giba, usava, para não contrariar o dono, um par de antolhos, idem chamado de tampolhos, anteolhos, antrólio, antojo, viseira, para que olhasse apenas em direção a frente e não se assustasse com as cenas laterais, assim que aterrissou as quatro patas na roça do novo dono o nome de Marreta.
Depois rebatizado por Marreta Tampolhos.
E que força de tração tinha o jovem, ainda potro, cavalo eunuco Marreta! Não havia morro agudo, ou na planura de um descampado, ou até mesmo descida descaída, que metesse medo na mula, que não era, pois era um aparentado dela, equídeo, quase da mesma espécie, embora recebessem epítetos díspares.
Se lhe retirassem os antolhos, ou tampolhos, o cavalo castrado se desgovernaria, saía da estradinha curta, atapetada de cascalho retirado de ali mesmo, e terminava por cair na ribanceira de muitos metros de fundura, pondo em risco não apenas e tão somente a saúde e integridade do animal, bem como a única renda da propriedade, o leite branquinho, sem água adicional, ou nenhum lambarizinho de rabinho amarelo nadando naquele latão limpinho como a língua não ferina da comadre Pipoca.
Gibinha se acostumou tanto ao tampolhos colocados como acessórios do freio pesado usado por seu novo amigo, o Marreta Tampolhos, que terminou seus dias usando um igualzinho.
Um dia feio, frio, cinzento, como na manhã cedinho do dia de hoje, vinte e oito de junho, inverno ao seu começo, Giba teve de voltar a mesma cidade de onde não trouxe boas lembranças, de quando ali passou dois meses, dando murro em ponta de faca, enterrou todas as economias de anos e anos, numa pequena mercearia que vendia na caderneta, e o cano era fatal. De dez compradores fiados apenas dois deles voltavam com a grana na mão de vaca fechada, como quase todos os ricos são. Os pobres pagam em dia, via de regra, não comprovada. Os endinheirados, metidos a nouveaux riche, passam anos levianos prometendo comparecer, um dia, longe, na mesma lojinha simplesinha do pobre Gibinha, e nunca mais dão o ar da sua desgraça.
Sabem qual foi o meio de transporte usado pelo dono do Marreta Tampolhos? Ele mesmo, arreado num arreamento novo, tendo a carroça toda enfeitada, trazendo na lateral a imagem pintura de Nossa Senhora de Aparecida, a santa padroeira do Brasil.
Giba, assim que chegou a cidade, assentado desconfortavelmente na carroça tinta em pintura fresca, com as cores amarela e azul, com os olhos assustados, percebeu, pelas ruas e passeios estreitos e lotados de buracos sujos, sacos de lixo ainda pretos, todos cavoucados por cães vadios, lixo, muito lixo, poças de água barrenta resultados de uma chuva que despencou longe, ela apenas retornaria meses depois, pessoas apressadas cuspindo no chão do asfalto cheio de furos, dado a má qualidade do produto, papéis soltos ao vento, quando deveriam ter sido jogados donde deveriam, isso se assina lixo; cães vadios defecando sob nossos pés desavisados, quanta podriqueira enxovalhando a consciência dos cidadãos dotados de real cidadania, que, para fechar os olhos a tudo aquilo, teve uma ideia genial.
Passou numa loja onde se encontrava acessórios de montaria. Ali procurou, em todas as prateleiras lotadas de quinquilharias, um tampolhos viseira igualzinho ao usado pelo cavalo amigo Marreta. Pagou uma exorbitância por aquele trambolho, mais do que ele valia. Não importa a quantia.
O fato retrato da visita do bom homem, batizado por Gibinha, mais tarde ficou Giba neles, é que, uma vez deixada atrás a loja de artefatos de montaria, onde arreios, selas, freios e cabrestos eram vendidos a peso de capim banhado a ouro em pó, o dono do cavalo Marreta saiu igualzinho ao seu amigo cavalo eunuco de tração. Usando um tampolhos novinho, na intenção de não enxergar as coisas ruins que a cidade mostrava, sem nenhum orgulho.
Ao ver o Giba usando aquilo, o seu tampolhos antolhos, novo, passei a usá-lo também, nas minhas caminhanças pelas ruas da cidade. Pena que, como escritor atento ao cotidiano, seja ele sujo ou desumano, vil ou honesto, assim ou assado, de papel passado ou não, talvez perca um cadinho a inspiração e passe a escrever por ver de menos.
Caso me perguntarem se por acaso, gostaria de ser como o Marreta ou como ficou-lhe o dono, afirmo, sem pestanejar, ou piscar, um retumbante SIM.