Já por incontáveis vezes fiquei com a boca cheia, e ao mesmo tempo vazia, ao pensar em perguntar, tanto nos verdes anos da minha infância, quanto depois que a idade provecta pensa ter montado em mim, e acabei abortando a questão, por falta de: ou sobre o que indagar, ou sem pergunta nenhuma a martelar-me os pensamentos, já que a maior parte delas são questões sem substrato ou substantivo, algo que a sustente, as tais perguntas são meros devaneios, nada mais que nada menos, coisinhas sem importância, que não deveriam ser indagadas nem aos professores, muito menos aos interlocutores, que por certo irão perder tempo com a gente, melhor será se eles derem um passo adiante, e irem embora sem perder tempo, já que o tal tempo ruge a exemplo tomo como empréstimo um leão faminto depois que abateu sua presa na savana africana.
Ainda me lembro dos verdes anos da minha mocidade perdida. Assentava a primeira fila da sala de aula. E como era bonita a professora de aritmética, pernas morenas, sem celulite nenhuma, embora naqueles anos de antanho a gente não frequentasse academia, nem tinha o costume de correr tanto, da mesma forma da vida, que era mais tranquila, da mesma maneira distâncias enormes, maratonas e quilômetros mais largos, recordes e mais deles eram vencidos a cada minuto.
Antes que a aula que versava sobre números fosse ao último alento, antes que a sirene tocasse estridente, numa fração de segundos o aluninho que morava em mim levantava o braço direito, para aproveitar ao máximo a presença da mestra entre nós, e desferia em direção a ela a derradeira questão, nem me recordo se procedente ou não. O fato é que a minha turminha de colegas, muitos já se despediram da vida, não mais têm a satisfação de ver o sol derramando-se em azul, ou se ele fica cinzento de repente, do alto desprende-se a chuva, com seus pingos saracoteantes, loucos doidivanas para aproveitar a exaustão os parcos minutos da hora do recreio, me cutucavam ou assobiavam, para que eu deixasse a pergunta inventada para a próxima vez, o próximo mês, o próximo ano, ou nunca mais.
Aliás, ao falar de vida, tenho falado muito sobre a morte nas últimas crônicas, foi exatamente a vida que perguntei a ela a sua opinião, o seu testemunho sábio sobre o que ela, a vida, pensa de mim, desde que nasci até a data de hoje, vinte e sete de junho, inverno frio, dia cinzento, lá fora o relógio da temperatura oscila de dez a vinte graus ao tardar das tardes quase noites baixas.
Não vou perguntar a vocês o que pensam de mim. Muitos podem responder, ou se absterem, de emitir respostas que por certo me desagradariam. Já outros, em atitudes polidas, como um dia ficou a baixela de prata da minha mãe depois de esfregar um líquido que faz milagres com as peças lisas e de pouco brilho, que infelizmente não faz parte dessa vida de aqui, com certeza os encômios a minha pessoa seriam dados sob a batuta do coração de mãe, meus defeitos, muitos que são, seriam sonegados, as qualidades, se as tenho, seriam evidenciadas do começo ao fim.
Mas, como escrito antes, a opinião que desejo escutar, não por escrito, e sim pela própria boca da vida, se é que ela tem, o que, em verdade, ela pensa de mim?
“Vida. Acabei de levantar a mão, por favor me oiça”.
“Sei que por vezes não tenho agido com correção, a exemplo tomo meu pai. O que você pensa, na balança de sua propriedade, para que lado pende o pêndulo? Para o lado do bom, do menos ruim, ou do mais pior”?
Do lado da vida não partiu a resposta. Ela, a vida, me olhou com olhares de incredulidade e desconfiança, e continuou muda, como um pássaro pisoteado por um carro numa autoestrada.
Mas, como quando na primeira infância, na aula de aritmética, hoje a tal ciência dos números mudou de nome para matemática, não sei se existe diferença entre ambas, antes que a sirene do recreio tilintasse, voltei a perguntar, juntinho à orelha da vida, falando alto, com outra pergunta mais bem feita, pelo menos julgava eu.
“Vida, não se faça de surda! Escute-me, me responda, creio que você nem surda é, muito menos de menor inteligência e clarividência você é. Embora pareça”.
“ Você acha, como me achavam os coleguinhas de dantes, chato, enxerido, perguntão? A senhora, para não parecer deseducado ou desrespeitoso, por acaso pensa que eu não deveria ter nascido, ou que, ao ser despejado no mundo, sem o apgar alto de que fui dotado, deveria ter nascido todo torto, autista, ou, na outra demão de tinta, passar logo ao outro mundo, para não dar tanto trabalho aos meus pais, e continuo dando a minha família a qual prezo tanto”?
Pasmem vocês! A vida continuou sem dizer nada. Muda, estática, ensimesmada, talvez sem saber se valeria a pena responder a tantas indagações idiotas, nascidas de um jovem menino velho sonhador, que tem a mania de ficcionar o cotidiano, tomar as cores do arco íris, metê-las numa latinha de tinta, e tintar a mesma vida com cores mais lindas que as do arco- da- velha.
Não satisfeito com a mudez da vida, já que sou um menino que ignora ter sessenta e sete anos, nato em sete de dezembro de 1949, insisti no meu diálogo, até então um monólogo, com a tal vida da qual poucos desfrutam, por passarem grande parte da vida complicando-a demasiado.
“ Por favor, querida vida. Já que até o presente momento não me quis dar uma resposta, uniquinha que seja, caso responder a essa, prometo, vai ser a última: você gosta de mim? de qual dos Paulos Rodartes você aprecia mais”?
Desta vez a vida me respondeu, emburrada, monossilábica: “De nenhum. Não me enche o saco, criança levada, adulto gagá. Estou cansada de tantas perguntas sem pé nem tutano. Fecha a matraca”!
Não satisfeito com a resposta da vida, ainda sem a resposta que gostaria de ouvir, deixo a vocês, leitores, o que pensam de mim?