Ontem, no debrum da tarde, quase ela morta, embora ainda respirando verde pelas folhas das árvores, algumas delas caídas mortas ao chão, salvo alguns cães brincando pelos gramados descuidados, ao ver tantos deles espalhados por toda cidade, penso ser tempo de cio, durante o qual cadelas se permitem a corte, galanteio diferente do que fazíamos antigamente às moçoilas casadoiras, agora os rapazes vão ao encalço das moças longe da intenção de se casarem, ao revés, muitos apenas por uma noite inteira, metade dela, fornicam velozes como a monta do cão que por vezes fica atado pelo sexo à cadelinha nela expelindo miríades de espermatozoides, apenas um deles vai matrimoniar-se ao óvulo, mais uma vez opostamente ao acontecido à espécie humana, no caso canídeo outros varões orelhudos deixam na vagina receptiva da cadela seus genes, daí a ninhada nascida meses depois apresentar filhos de pais díspares, cada um dos filhotes o focinho do outro, difícil comprovar-lhes a paternidade.
Na mesma praça, do mesmo jardim, para onde acorria apressado depois da missa das dez, que para mim terminava ao ouvir do padre o “vão em paz que o Senhor os acompanhe”, depois de uma oração breve, confesso que engolia a última frase. Já hoje, anos longe da infância, apenas passo por aquela igreja principal quando eu, ela, seus santos e suas imagens ficamos a sós, desacostumei-me assistir a missas por inteiro, pois consigo ver Deus em todos os meus atos de caridade e compaixão os quais pratico no meu cotidiano rico de humildade, idem ao me sensibilizar ao ver pobres mendigos dormindo ao relento neste inverno frio, não sei como eles conseguem dormir, conquanto eu quase não durmo, na minha confortável cama, tendo ainda o entrecruzar de pernas com uma linda e querida mulher, que desde longos anos vivemos juntos, tudo teve seu começo na mesma praça, não sei em qual banco do jardim principal.
Ontem, como escrito nos parágrafos precedentes, ao passar uma vista d’olhos rápida pelas entranhas daquela mesma praça, ainda bastante semelhante a que era, uma vez dentro de um banco, não o que empresta dinheiro a justos altos, do qual foi gerente meu pai (as coisas mudaram), ausente agora, mas sempre presente quando dele precisava, ao sentir a praça arfar de cansaço, ela não dorme, talvez um cadinho, como acontece a mim, de tanta gente usar aqueles poucos metros quadrados, um tanto descuidados, percebe-se lixo, restos das sobras que pessoas, dotadas de poucos impulsos de cidadania despejam fora dos sacos pretos, a maior parte transborda pelos bordos de tantas e tantas podriqueiras. Umas se tornam alimentos dos cães vadios, que, por única desdita são abandonados tão logo de filhotes lindos e fofinhos passam a canzarrões grandões, de suaves ganidos seus latidos agudos passam a incomodar os vizinhos, que começam a intimar os donos dos cães que vivem confinados em canis desconfortáveis que acabam por despejar seus pets pelas ruas, aumentando ainda mais as suas cacas que não apenas sujam o solado de nossos sapatos, como também ocorre um escorregão, sendo os mais idosos as maiores vítimas dessa contravenção, não implícita no código penal, mas deveria ser considerado como tal.
Voltando a mulher que amo, mesmo entre tapas, insultos, e depois, na calada silenciosa da noite tudo volta ao que era dantes, naquela mesma praça, num banco esquecido daquele mesmo jardim.
Nos tempos idos de antão os tais bancos não mais são eles. Os de cimento duros viraram lembranças, quimeras, perenizadas em minhas lucubrações pueris.
Hoje os novos bancos são feitos em madeira dura, com espaço entre as suas réguas desgastadas pelo tempo, por onde pode escorrer um dedinho de uma criança novinha, causando acidentes de formas múltiplas. Ou, quando a madeira, feita de não sei qual árvore, tomara não de uma delas, da mesma praça, do mesmo jardim, e sim aquela oriunda de uma serraria amazônica, de uma reserva permitida ao corte, pulmão do país, talvez responsável pelo resto de oxigênio que ainda permite ao mundo inteiro respirar em paz.
Foi num daqueles bancos, no rela do mesmo jardim, um pra lá, dois para o revés, que eu e minha Rosa nos demos as mãos, depois nossos lábios se uniram, num doce beijinho doce, diuturnamente não tão doce quanto naqueles idos anos primaveris. Hoje me sinto no outono inverno da minha perdida juventude, que encontrei uma das minhas primeiras namoradas, oxalá seja a derradeira, com quem irei compartilhar os bons e maus momentos, eles se alternam em qualquer lar, de qualquer casal. Soberbamente nos de maior idade.
Na quase noite de ontem, ao passar pelo banco, agência que meu pai foi um dos responsáveis por ela existir, ao olhar pela janela da mesma casa bancária, de onde sou depositante fiel, como meu coração pertence a apenas uma mulher, e como é grande minha pequena grande esposa!, vi, do alto da vidraça, na penumbra cinzenta da noite, a mesma praça, não o mesmo banco, do mesmo jardim principal, penso ter visto a mesma mocinha, de pernas grossas e olhar cativante, negro como a jabuticaba madura, não daquela candura dos tempos de antão. A idade nos torna mais rudes, não pelo definhar do amor, a não mais menina moça, com a aparência da metade da idade que ela tem, entregue a tal máquina caça níqueis, que permite, a quem entende de beliscar seu teclado, com a mesma proficiência que teclo o do meu computador escrevinhador, de lá sacar, depositar, pagar contas, com que voracidade a minha Rosa se entrega àquele aparelho que tanto devolve as nossas próprias economias, como paga contas, de novo olhei pra fora, e vi, com olhos rasos de saudade profunda : a mesma praça, não o banco onde nos assentávamos a namorar, mas, revendo e revistando o passado, que não se desgruda de mim, como um todo, mais maduro, talvez menos seguro, e ciente do que não sou, ao deixar a Praça Augusto Silva, do jeito que o hoje a tornou, e eu acabei me tornando um velho chorão, tentei ver o mesmo banco daquela mesma praça, e não fui feliz nos meus devaneios carregados de nostalgia morena…