Enfim encontraram-lhe a alma

Tião Açude Seco, apelido herdado na escola, na época sofria de bullying por ter sido, um dia, de franco calor, visto nadando peladinho numa pocinha d’água rasinha, que mostrava, no fundo, barro rachado, resultado da seca brava por que passava há anos fecundos, em todo o arrabalde onde morava, nos cafundós de um Judas que foi malhado indevidamente sem ter sido ele quem afanou a batina do pároco local, um sujeito moderno, que apenas não saiu do seminário por absurda falta convicção religiosa, por nada mais ter o que fazer em sua vidinha desprovida de atrativos.

Desde aí o jovenzinho sem muita instrução, apenas conquistou o diploma de curso primário, hoje é nomeado de primeiro grau, por pura e simples imposição de um tio torto, único aparentado perto que foi ao degrau mais alto da pirâmide social, pois os restantes nada mais eram do que restos da canalhice que não foram à cadeia por não terem sido pegos com as bocas nos botijões de gás, já que naqueles tempos idos ainda se acostumava esquentar o rabo na trempe do velho fogão a lenha, que saudade da roça das minhas tias avós!

Não que o já crescidinho, não muito, como exemplo cito do pobre pacuzinho, que depois de espichado, já erado, virou nome feio, dado a isso prefiro chamar de pacu, o peixe, quando grande evito insinuar que seu nome é terminado em ão.

Tiãozinho, mesmo pequetito, era em verdade caridoso. Não se podia atribuir àquela alminha ingênua, pura, qualquer pecha de desalmado. Embora muita gente grande, candidato a qualquer cargo político, ao ver aproximarem-se as eleições, de mão- de- vaca, unha-de-fome, sorrelfa, fuinha, cainho, pelintra, muxiba, mofino, ingeneroso,  são tantas as sinonímias que, caso ficasse aqui, a mencioná-las todas, o espaço que me foi reservado para escrever a história triste do meu personagem viraria um romance enorme o que não é a minha intenção, logo que o pleito se avizinha transformam-se radicalmente de rapadura azeda em doce como o abraço que um dia me fez presente uma rameira que de pura só tinha a safadeza.

Como a vida na roça não lhe apetecia, queria enricar depressa, só tirando o leite branco da vaca preta não conseguiria jamais encher o porquinho cofrinho, Tião, já criado nunca foi malcriado, este defeito nunca lhe foi apresentado, num dia de inverno frio, céu azul, ventoso, acabou se mudando de mochila e cuia à cidadezinha mais perto que o velho caminhão leiteiro podia levá-lo de carona na velha carroceria, em meio aos velhos latões de leite, a maior parte enferrujados, da mesma forma que as juntas do velho pai, que acabara de deixar a vida linda que a gente leva, apesar de existirem aqueles que tentam transformar a beleza do canto da cotovia em algaravia de pardais.

Uma vez na cidade a tal vida boa a ele não foi apresentada. A crise era generalizada. O desemprego grassava como erva daninha num jardim onde se jogou esterco de curral, sem o devido cuidado de peneirá-lo, deixando-o  livre  das praguinhas miúdas invisíveis à vista desalmada.

Passados um ano, dois, incontáveis tantos, o meu personagem, fictício, poderia ser real, depois de esmurrar pontas e pontas de facas rombudas, caiu na realidade, não virtual, e sim onde o capeta descobre ser em verdade ser o inferno, não  o céu azul onde moramos, e não o percebemos.

Infeliz com o insucesso, depois de investir carretas cheias de sonhos e não vislumbrar a luz a fim do túnel, infestado de vagalumes, em tempo, pelo menos pensou, se mudar de vez, com a mesma mochila furada, com as mesmas roupas carecendo novas, ao mesmo palmo de chão de onde veio, cheio de esperança em dias melhores, que se mostraram ainda piores que os de dantes.

Na sua rocinha querida, onde os canarinhos da terra ciscam o esterco de curral e as crianças correm soltas, ao revés das outras que ficam confinadas em creches que cheiram a fraldas usadas, onde maritacas fazem ninhos no achego dos telhados, onde ratões enormes, não os safados dos pegos com a mão na massa nas tais malas de dinheiro sujo, não naquelas usadas para fazer pizza, certo o dito que tudo no Brasil acaba na pizzaria, talvez reencontrasse não apenas a felicidade, mas conseguisse, depois de passados os anos, angariar recursos que o tirassem de vez a barriga da miséria enorme em que se metera ao se ver na cidade.

Lá, nas bandas de onde ninguém conhece, fim de linha onde não corre o trem, bom que se diga bão, existia um açudinho de águas barrentas onde lambarizinhos de rabos amarelos mordiscavam a isca e não eram retirados do seu habitat, espertinhos que eram, que, para livrá-lo das taboas parasitas gente que conhece o assunto instalou um mangote na intenção de tornar o pocinho barrento mais ancho e limpinho.

Quando do seu retorno ao seu torrão natal Tiãozinho já estava velhinho, doente, juntas e coração pouco azeitados, prestes a levá-lo à sepultura escura, de um cemiteriozinho perdido nas colinas pedregosas onde viveu num passado ainda não sepulto, em breve, muito breve, o seria.

A sua alma boa já era assaz conhecida. Em todos os rincões por onde passou deixou rastos de generosidade e boa índole. Apenas não teve sucesso na questão de dinheiro.

Diz a lenda, não sei se verdadeira ou fruto das minhas ideias fecundas, no dia quando Tião Açude Seco morreu, o velho açude encheu-se de novo, em pouco mais de um mês. Se tanto.

De repente, assim que o caixãozinho cinzento do defunto do morto se abriu para as derradeiras despedidas do que fora em vida, nada estava lá. Apenas flores do campo, compostas de azaleias azuis.

Não precisa dizer que o susto foi geral.

Acontece que uma infantil criança, que, por acaso estava no velório, criança não mente, jura ter visto uma coisa muito semelhante a uma nuvem de fumaça branca, como véu de noiva virgem, esvair-se do pequeno caixão. Mas o corpo morto do Tiãozinho Açude Seco não foi encontrado em parte alguma.

Voltando um cadinho atrás, em nosso conto, para não alongá-lo mais, quando os tais que esvaziaram o açude fundo, além de peixes mortos, alguns ainda abanavam as caudas, foram fritos em pouco tempo, deram com o fundo do açude seco, em meio àquela lama fedorenta, diz a verdade, acreditem se quiserem e puderem, um deles, o mais esperto e experiente, quase não acreditou no que suas duas orelhas avistaram.

Num canto, na parte mais funda do açude, há mais de dez metros de profundidade, a enxada bateu num baú escuro, ainda bem conservado, já que ali estava sepulto a uma infinidade de incontidos e incontáveis anos.

Uma vez aberto o baú, não o da felicidade, ao revés, o da infe, ( faltam dez letras para completar a palavra), um vulto estranho levitou ao alto.

Era de fato, há quem desacredite?, a alma pura e generosa do Tiãozinho Açude Sequinho, que rumou ao paraíso.

Se alguém pensar que minto desafio os incrédulos: visitem a minha rocinha, no município de Ijaci, e perguntem ao Jaci Defunto Morto? Não a mim que estou vivinho da silva…

 

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