Um dia destes, aliás, foi ontem, ao descer a rua, como sempre faço, andando rápido dado ao frio reinante, foi a undécima vez que recorro a ele quando tenho problemas, sempre os tenho com meu celular novo, e outros acessórios mais novos ainda, acabei de comprar um fone de ouvido sem fio, um Bluetooth, original da Aple, plugado ao Spotify, a escutar músicas melosas durante as caminhadas quanto as corridas longas, o amigo Leandro, ex-dono de um hotel simpático, pertinho de onde moro, agora feito gerente pelos novos donos, depois de resolver a questão da falta de conexão do novo aparelhinho, o qual muitos olham com olhares de assombro, até mesmo perguntam se o fio foi cortado, confidenciou-me, à despedida, que, depois de tantos dissabores passados em nosso amado e desnorteado país, após ser testemunha de tantos e tamanhas falcatruas, do desgoverno que paira no ar, da baixa qualidade de grande parte dos nossos irmãos, principalmente aqueles pensantes que levar vantagem em tudo é certo, da crise sem perspectiva de achar o caminho de volta, ou vislumbrar a luz ao fim do túnel escuro, acabara de ter uma ideia, que me fez pensar em escrever este texto de agora cedo, dia claro, céu azul, sol a lamber a terra com sua luz que nos ofusca os olhos, caso eles estejam à vista desarmada. Leandro, recém-casado com uma linda jovem, ainda sem plantar no âmago da amada um fiapinho de si mesmo, melhor, deles dois, depois de viver no Brasil a totalidade da sua idade, não sei afirmar por certo quantos anos são, decidiu, em dias poucos antes da nossa prosa amistosa, se mudar de vez para sempre do nosso amado, embora infelizmente semi- afundado em águas rasas, precisamente a um país ao norte, na agradável vizinhança dos Estados Unidos da América, o Canadá.
De olhos abertos, no frio que se manifesta soltando baforadas de fumaça pelas ventas, andando ou correndo lentamente pelas ruas da cidade, adoro a minha, percebo, sem muito esforço, filas imensas nas portas de casas bancárias, sobejamente uma de nome Caixa Econômica Federal, pessoas, a maior parte jovens desempregados, à cata de benesses do governo federal, como buscar os seus FGTS, quantias irrisórias, migalhas, mensalidades que lhes permitem sobreviver com certa decência, sustentar tantas bocas quantas colocou no mundo, pobres dos nossos descendentes, o tal seguro desemprego, pedintes vários dormindo ao relento, saltimbancos não trapalhões exibindo-se nos semáforos, quais artistas circenses sem palco ou picadeiro, uma vez que o sinal se fecha, para lá vão eles, chapéus nas mãos vazias, certos e incertos se receberão a paga pelo espetáculo fugaz, talvez a única fonte de renda que lhes resta, a não ser a miséria enorme que se vê por aí afora.
Nunca se viu tanta gente usando drogas, assaltando creches, unidades de saúde desprotegidas, para levar de ali coisas para serem revendidas a fim de ou comprar ou pagar o objeto de consumo que mais e mais faz chafurdar na lama os tais infelizes usuários de drogas. Em nossa praça principal a prefeitura teve a coragem e decência de reformar, por não sei quantas vezes a fonte luminosa que lança esguicho de águas bailarinas ao alto, num espetáculo não tão bonito quanto ver um bando de canarinhos da terra cavoucando o esterco de curral, nas tardes ensolaradas, na roça que tanto amo.
A mídia só nos faz pensar. Notícias péssimas são encaçapadas na caçapa de uma mesa de sinuca sem prumo, descaída para que lado, ignoro. As boas novidades, como aprendi na mesma roça onde os sábados me enxergam babando, ao montar a cavalo, ou navegando lentamente em meu bote inflável, pelas águas serenas da represa do Funil, caminham tartarugueantes. As ruins avoam.
Brasília, nossa bela capital, idealizada por um mineiro, colega de especialidade, de lá só vomitam coisas feias. Em fragrante contraste com a bela arquitetura da qual Niemayer e Lúcio Costa participaram, junto a uma multidão de construtores oriundos dos quatro cantos do nosso país continente.
O motivo de tantas aulas de história do Brasil, o Grito do Ipiranga, dizem ter sido dado por Dom Pedro, o de número um, às margens do Riacho do Ipiranga, quando voltava de Santos, a cavalo, com sua comitiva errante, na data de sete de setembro de 1822, na intenção de dar o grito de independência de Portugal, que apenas nos surrupiava, como hoje voltou a acontecer com os maus políticos, senti o mesmo grito no peito do amigo Leandro, na sua intenção de se mudar de aqui de vez. Sem nenhuma perspectiva de retorno, em direção ao Canadá.
O mesmo uivo ululante notei na boca e no sorriso em falta das pessoas naquelas enormes filas na porta dos bancos. Como também nos mendigos, sem- tetos, viciados, desabrigados, presos em cadeias lotadas, em celas onde deveriam estar confinados apenas quatro se espremem dez, naqueles pais de família que não deveriam botar filhos no mundo, mais bocas famintas e crianças de rua, são eles que mais procriam, quando deveria partir do desgovernos inciativas de fazerem vasectomias, ou ligaduras pelo sistema único de saúde, mutirões como aquele que um dia participei na Santa Casa local, até hoje trombo nas ruas com pessoas felizes que me agradecem, mal me lembro de quais foram, foram tantas, que meus dedos todos não dão conta de anotar o número nem aproximado da quantidade certa de quantos testículos ainda produzem espermatozoides, no entando os mesmos são impedidos de fazer amor com a minúscula célula ejetada pelo ovário da parceira.
Observo, olhos incrédulos, o grito de revolta, não à beira do riacho em São Paulo, em todos os ambientes os quais frequento. Nas portas das creches, em falta. Nas escolas públicas, sejam elas estaduais ou municipais, onde alunos pobres aguardam vagas, onde os bancos das salas de aula podem rasgar os uniformes, que deveriam ter sido trocados, onde o material escolar do ano em curso é o mesmo do ano passado, por absoluta falta de recursos, assim atesta o governo, em seus memorandos, iletrados, nos presídios, melhor seria chamá-los de campos de extermínios, que, ao invés de ressocializar condenados, os atira definitivamente no mundo do crime, num bate-e-volta ao qual a sociedade é testemunha ocular. Com seu par de óculos de grossas lentes, numa miopia estrábica.
Sinto o grito do Ipiranga na face lívida dos descontentes. Dos que se manifestam em passeatas pacíficas país afora, gritando palavras de ordem, não nos baderneiros provocadores de atos de vandalismo, com quebradeiras que mais e mais afetam o já falido cofre que dizem estar à bancarrota, da previdência social.
Como sinto ainda o mesmo grito nos baixos salários que percebem os mestres, professores da rede particular, pasmem!, eles ganham menos do que os da rede pública, quando deveria ser a mesma soma, mixa, que mal da para um professor ir à primeira semana, quem dera ao fim do mês?
São tantos gritos, não iguais aos escutados à beira daquele riacho, em São Paulo, que tenho ouvido, que, caso fosse enumerá-los todos, gastaria o dia inteiro, talvez o mês, o ano, a vida que me resta, falando ou escrevendo sobre a mesma coisa.