Culpas divididas

“Quem viu a minha sorte não conhece a minha dor. A cada gota de ódio duas gotas de amor”.

Bonito dito, mas, quase impossível colocá-lo em prática. Pagar ódio com amor deve ser prerrogativa de pessoas de bom coração, que sabem retribuir o mal praticado com uma ação de bom alvitre. Dar cara a tapa, depois de uma ofensa ou bofetada, não faz o meu gênero. Aos sessenta e sete anos, sabendo que burro velho não muda a marcha, caso levar um tapa na face por certo tentarei me esquivar, e se não der, com certeza irei revidar. No caso de quem me deu o tal tabefe for mais forte as pernas serão minhas princesas consortes. E aqui coloco as minhas dúvidas se o tal fortão consegue me alcançar.

Como se tem falado no desgovernos, nos homens que do planalto de Brasília nos dirigem com mãos não tão sóbrias quanto dos soberanos de países onde os regimes monárquicos imperam. Com clarividência de atitude, com lhaneza de trato e conduta, certo, podem dizer que rei apenas é figura decorativa, quem reina de fato é o primeiro ministro, ou um qualquer, da mesma forma incorruptível e de ilibada competência no trato não apenas com as pessoas bem como com os impostos que a gente paga, e aqui nada se recebe em troca. Na área da saúde, a mais conturbada, quando se precisa de um exame mais sofisticado, exemplifico, a tomografia, ou a ressonância magnética, quando elas são essenciais ao diagnóstico, não exames custosos pedidos por um médico que não tem o costume de examinar o paciente, e logo passa exigir exames, quando o infeliz reclamante, usuário do SUS, consegue fazer tal, seu esqueleto, ou restos mortais já descansam sem paz num campo santo qualquer. Ou suas cinzas já foram jogadas ao pasto, onde vacas pastejam, onde canarinhos da terra fazem seus ninhos, onde maritacas grasnam gritadeiras pelos ares campestres.

Ontem, em atendimento num ambulatório, onde exercito minha especialidade, a Urologia, de nome pomposo, para não dizer jocoso, AME, o primeiro paciente do dia, alegre presidiário, mas, pelo visto ele, ela, não saberia, ao primeiro passar de olhos se macho ou femea, veio da cadeia local algemada, conduzida sob algemas por dois guardas penitenciários, mais parrudos que dois armários embutidos.

De pronto, como ele, ela, tinha prioridade no atendimento, os demais que esperassem a sua vez, há os que questionam tal deferência, pedi que os dois guardas armados retirassem dos punhos da presa, ou preso, o par de pulseiras de prata, como as algemas são conhecidas ali. Só não lhes ordenei que esperassem do lado de fora do consultório, pois desconfiava que isso fosse contra as normas. O exame foi sucinto. Para a conclusão do diagnóstico foi desnecessário, nem tomografia, nem ultrassom, ou outro mais complexo. O simples examinar o doente, que em verdade nada tinha de importante, salvo um desconforto no órgão genital, que era de macho, me levou a receitar-lhe um antiinflamatoriozinho para aliviar a dorzinha que ele, ela, sentia, nas partes baixas que ainda mantinha como ao nascer.

Na pré-consulta, como me sentia entendedor do sistema prisional caduco do nosso país, depois de ter passado seis meses nas celas da cadeia antiga aqui da cidade, não como preso, ainda, e sim para escrever mais um livro, o de capa amarela, com um globo da morte na capa, de muito bom gosto escolhido pela editora, de nome O Mundo das Sombras, já esgotado, fui conversando com o consultante, que se apresentou como Jesuíno, ou com a no final, para descobrir qual o número do seu ato infracional, o que consta no tal código penal. Ele, ou no feminino, já que Jesuíno era bem mulher, ou quase, faltavam apenas alguns detalhezinhos banais (como cortar aquilo que de nada serve, apenas fica dependurado entre as perninhas finas), o consultante preso, com passagens pela contravenção desde quando mais jovenzinho (a), já morou longos anos na Argentina, de família da vizinha Perdões, me disse, entre sorriso simpáticos e piscadelas de olhos, que estava incluso no artigo 155 : furto, subtrair para si ou para outrem coisa móvel, pena de reclusão de um a quatro anos, que pode ser acrescida de mais um terço se praticada em momento de descanso ou sono insone.

Deixei a Jesuína evadir-se da minha salinha modesta com um receitinha singela, sabedor que ele, ou ela, vai amargar cadeia por muito tempo ainda. Conquanto que outros presos móveis, os de colarinhos brancos e não tanto engomados, logo um advogado, porta-de-cadeia, quando agem com a destreza de uma gaivota pegando o peixe no ar, libertam-nos prontamente, não sendo necessária delação premiada.

Noutro dia perto, noutra unidade de saúde, no posto conhecido em Lavras como posto de saúde da Chacrinha, mais aqui no centro, para onde me desloco a pé, creio que na segunda-feira passada, ao ali botar os pernas e o corpo todo junto, fui alvo de uma visão assustadora. Todas as diligentes e prestativas companheiras de infortúnio, para não dizer trabalho, estavam em sobressalto após descobrirem que aquele postinho miúdo, desapetrechado de recursos, fora aliviado, por larapiozinos pés de chinelos descalços, por certo viciados, em dois ou mais monitores de computadores, outras inutilidades mais, que seriam vendidos a preços vis para comprarem mais drogas, ou pagarem as já consumidas.

Já hoje cedo, na minha caminhada curta, como rotina, de casa a onde estou, no sétimo andar deste prédio lindo, Edifício das Clínicas, meu consultório privado, onde exerço minha dupla militância, de escritor e médico, observei, pelo caminho, sacos de lixo, a maioria composta das tais sacolinhas oriundas de supermercados, não vou identificar-lhes o nome para fazer propaganda, sem receber os dividendos, furados, deixando vazar o conteúdo diverso, do qual se locupletam cães, até mesmo pessoas em busca de latinhas vazias, são para mim catadores profissionais, que prestam um relevante serviço à comunidade tão carente de cidadãos dotados de cidadania verdadeira.

Tanto na saúde pública onde milito, há tantos e tantos janeiros, quanto nas ruas da minha querida, amada e idolatrada Lavras, com pesar vejo o descaso não apenas dos cidadãos, o poder constituído pouco pode fazer.

Agora tem-se a mania de comentar, pelos cotovelos, as podriqueiras da política nacional. Os “Fora Temer” que me perdoem.

Mas, conforme noticiei na crônica de hoje cedo, vinte e dois de junho, comecinho do inverno, dias nascem frios, e depois o ambiente esquenta, ao ver tanta sujeira junta, não apenas nas ruas da cidade, bem como em Brasília e por aí vão, que tal dividir a culpa?

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