Acabei por me tornar arauto da própria morte

A primeira crônica que penso ter saído, tanto dos meus dedos apressados no teclado do meu computador, quanto do meu cérebro hiperativo, foi “Réquiem a um pai sem limites”.

De aí em diante não parei mais. Foram tantos textos, tantos, que se pudesse editar livros com todos eles não sei em quanto iria ficar a ousadia, e qual o prejuízo calculado, já que não aprecio números, sou amante das palavras, com elas formei família profícua, pois, ao nascer um livro, na maternidade a qual chamo editora, ou gráfica, o prazer que sinto por dentro equipara-se a quando nasce um filho, da mesma forma um netinho pequenino, nascido do ventre fecundo da minha filha, de nome Theo, que no mês posterior a esse, junho, dia vinte perto, completa um aninho de vida, feliz, passando um cadinho pra mim a sua própria felicidade, um tiquinho da mocidade, pena que a minha foi ficando na distância de um passado ao qual reverencio sempre, cada vez mais.

Já hoje tomei a incumbência, como escritor, médico, sonhador, atleta que não dispensa o uso das pernas, um dia sequer, de escrever romances tomando como personagens centrais figuras retiradas do mesmo cotidiano lindo, basta que a gente fique de olhos abertos não apenas para o sol que hoje brilha, assim como a chuva que um dia volta a manchar a terra desnuda dos campos com suas lágrimas enriquecedoras, grandes e verdadeiras responsáveis pelo nascer das safras de grãos, de fazer os pezinhos de milhos pequenos tornarem-se grandes, desse milagre verdadeiro da natureza advirem os produtos tão necessários para o que o ser humano viva, produza descendentes, por vezes eles me passam sintomas de desumanidade, ao aniquilarem a mesma natureza linda, desdenharem dos desafortunados, dos pedintes que estendem a mão espalmada, esmolando as sobras que não faltam nos lares de pessoas de posse, desfazendo um pouco da beleza tão linda de nosso país que tudo tinha para dar certo, ser equiparado aos ditos desenvolvidos, não fosse o cada vez mais gigante fosso social que nos observa da base da pirâmide, ao ver filas enormes nas portas dos bancos, a espera do tal seguro desemprego e outras benesses de um governo que mais parece uma nau a deriva, cheio de personagens tirados, metade da ficção, a outra dela da mais pura e cruel realidade.

Nas últimas crônicas acabei falando muito em morte. Da mesma forma outro grande cronista, que por nossa cidade passou, depois foi exilado ao estrangeiro, dizem por denúncia de um conterrâneo nosso de que o grande escritor era comunista, considerado motivo de expulsão do país naqueles tempos da ditadura dura, falecido há não sei exatos quantos anos. Rubem Azevedo Alves, ex-pastor presbiteriano, depois ateou-se, desculpem-me o neologismo rodarteano, antes de passar a outro mundo, em seus livros, em seus textos fecundos, não deixava de falar na morte. Foi quando ela, vinda, não sei se esperada, no caso do Rubem talvez ele a desejasse, por estar em pertinaz enfermidade, apareceu das trevas, ou do clarume de um dia como o de hoje, depois de um bote certeiro, como de uma serpente peçonhenta, acabou com a vida do grande Bom Esperancense, se é que assim deve ser chamado quem nasce em Boa Esperança, aqui pertinho, cidade linda, onde também nasci, e aqui cresci, onde meu saudoso pai fez escala, na grande carreira de funcionário do Banco do Brasil.

Na derradeira semana comentei, em linhas retas e chorosas, do passamento à eternidade do grande causídico, a quem chamei de Ícaro, em honra e glória daquele personagem da mitologia grega, que caiu no mar depois de tentar voar com asas feitas de pena de gaivota e cera de abelha. Mais antes em anos, no mesmo jornal da cidade, ainda me lembro de outro grande cidadão, um fidalgo no trato, restaurador de carros antigos, pianista de rara competência, que não apenas tocava piano como também o afinava. Paulo do Piano se foi, talvez ainda toque o mesmo instrumento onde estiver, não mais precisando de afinação, numa linda orquestra cujos anjos são outros partícipes, tendo nosso pai celestial como maestro.

Nos tempos atuais outras mortes precoces têm acontecido. Sobre uns comentei, sobre outros testemunhei, em seus velórios, o quanto as suas mortes me doeram. Foram, grande parte, amigos perto. Outros, nem tanto, apenas conhecidos.

Ainda me lembro do falecimento, à mesma idade de quando minha mãe, sua irmã, veio a se despedir de nós. Tio Chico Rodarte, meu primeiro revisor, outro personagem que um dia aqui esteve, foram vários, para, ou tirar ou recolocar uma sonda na bexiga para aliviar-lhe o enchume (outro neologismo rodarteano, como costuma falar o grande amigo, o professor Russi), e, olhando pela mesma janela cuja vista me encanta, pois ela me permite ver quase todo o meu passado: a Rua Costa Pereira, o Tiro de Guerra, a casa onde viveram meus pais, a do tio Chico, hoje entregue as ruínas das suas lembranças, o antigo hospital onde dei o melhor de mim assim que aqui cheguei vindo da Espanha, e, por fim, para não me chafurdar em tantas recordações nostálgicas, o clube para onde sempre me desloco, no debrum das tardes mortas, não apenas para me exercitar na academia, usar a sauna toda remodelada, ou nadar em suas aguas tépidas e cristalinas, mesmo nesses tempos de outono inverno de minha vida.

Alguns colegas de infância, da mesma idade da minha, estão enfermos, vítimas de cruéis e sofridas enfermidades. Sempre, ou lhes faço uma visita, ou peço notícias de como eles vão, aos seus aparentados. Embora as notícias não sejam de bom alvitre, durante a conversa com um dos filhos, a esposa, tento confortar-lhes a dor, dizendo, com rico e genuíno sentimento, que logo eles irão melhorar. Apesar de sabedor, como médico, que meus votos são meros vaticínios que não dizem respeito a cruel realidade mórbida.

Não vou declinar-lhes os nomes. Creio estaria sendo por demais enxerido, estaria invadindo-lhes a privacidade, melhor ainda das suas famílias que sofrem com a ausência dos seus entes queridos.

De tanto falar, ou dar o meu testemunho amargurado, por escrito, sobre morte, tomara estes amigos de infância, alguns, outros não foram tanto ligados, neste dia lindo, sol a sorrir do alto, dia vinte e um de junho, tomara o próximo réquiem não fale de mim.

No dia quando vier a morrer, contra a minha vontade, caso tenha de escolher uma data, presumível, que ela caia num trinta de fevereiro, ou noutra qualquer, que não exista no calendário. Fica, ao fim do texto, quase ao seu final, uma inquisição: “quando eu morrer, quem vai escrever sobre mim”?

Não desejo, muito menos quero, ser o arauto da minha morte.

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