Acabei com saudade de mim mesmo

Não sei a partir de quando comecei a sentir saudade. Uma palavra sem sinonímia em outra língua, embora em todo mundo as pessoas sintam aquele aperto por dentro, uma angústia sem explicação, algo inexplicavelmente doído, que, caso não bem dosada pode fazer parar, num átimo, a bomba propulsora que manda o sangue ao corpo inteiro. Provocando, sem menos esperar, uma reviravolta na antes chamada vida, que passa ser a sua antítese, a morte, coisa para a qual todos deveriam estar preparados. Mas quem diz que um pai, ao enterrar um filho, parte indivisível de si mesmo, não vai sentir saudade do ente querido, por ele irá derramar lágrimas em gotas salinas pela vida inteira, até que se junte a ele, confesso, sem ter experimentado esse sentimento, dou graças ao bom Deus por ainda não ter acontecido, para o pai que perdeu o filho, num acidente, ou coisa de menos valia, não vai se sentir feliz quando a mesma morte o levar nos braços, em sua carruagem puxada por corcéis negros, ao encontro do filho perdido?

Sentir saudade é coisa não apenas nossa: latinos. Mesmo os cidadãos ditos frios do hemisfério norte, chamados de países mais desenvolvidos, tenho certeza de que lhes cavouca o peito, faz-lhes o coração pulsar mais veloz, quando olham a fotografia em preto e branco de um filho, um pai, de uma senhora intimamente ligada ao seu passado, que se foram de vez dessa vida para onde não se conhece a volta, já que sabemos como se despedir dela mesma, ao fechar os olhos pra sempre, ser enlatado um caixão enfeitado de flores de defunto, ir a uma cova rasa, ou ser feito cinzas, sendo elas postas num invólucro qualquer e atirados ao mar, ou num lugar previamente deixado em testamento pelo dono daquele corpo sem vida .

Hoje em dia, nos meus sessenta e sete anos cumpridos e tomara ainda vou encompridá-los anos mais, espero ter a ventura de ver meu primeiro neto acarinhar seu próprio filho, a jabuticabeira plantada na minha roça, naquele pequeno pomar ao lado da minha casa nova, ela vai ser chamada de Solar do Paulo da Rosa, dar sua segunda safra, tudo vou fazer para que estes meus desidérios não deixem de acontecer.

Saudade rima com sensibilidade. Com vaidade, não!

Como sempre acontece, ao descer a rua no sentido de cima abaixo, caminhando sempre, não tão veloz como nas corridas domingueiras, passo defronte a um portão de um colégio tutelado pelo Estado. Lá já entrei pelo mesmo portão dos estudantes, tentei explicar a eles, numa classe não tão velhusca como a minha idade, nem tão jovenzinha como hoje meu netinho Theo se mostra, de qual dos meus eus aprecio mais. Se do médico ainda praticante, do corredor diletante, do poliglota praticante, se do escritor compulsivo, que aprendeu a admirar o porquê de o cotidiano ser tão rico, graças ao terceiro olho do qual sou possuído, do amante dos bichos, e não tanto dos animais que pensam possuí-los, da pessoa dotada de tamanha capacidade de chorar quando o chorar é preciso, podem me chamar de depressivo, mas o que sou? Nem eu mesmo consigo me definir qual dos meus eus aprecio mais. Creio que todos eles juntos.

Uma vez dado o meu recado, na aula de português, de conseguir emudecer toda a classe durante a leitura de uma das minhas incontáveis crônicas, de tentar incutir-lhes na cabecinha recheada de sonhos azuis, muito embora alguns sejam cinzentos, de ofertar meu novo livro a biblioteca da escola, de interagir com eles, perguntando a um, a outro, de que trata a Urologia, se por acaso sabem o que é fimose, quais são as doenças sexualmente transmissíveis mais em moda, faço-os perceber, tento, pelo menos, que a gente pode ser tudo que desejarmos, mesmo sendo uma só pessoa, um apenas dentro de tantos eus que cabem dentro da gente.

Deixo a classe depois de sonoros agradecimentos tanto da professora de português quanto dos alunos que atentamente me ouviram naqueles breves minutos tomados sem, no entanto, fazê-los perder o foco no conteúdo da aula propriamente dita. E me sinto feliz e gratificado por ter tantos predicados, pela saúde que me resta, pela família que me ampara, pela fertilidade de ideias que perfilam no mais recôndito e a descoberta fábrica de neurônios que sobrenadam em minha massa encefálica. Agradeço ainda pela minha hiperatividade, a qual não considero doença, e sim presente dos céus.

Ao sair daquela escola, e de outras de minha cidade, nos meus verdes anos passei horas lindas dentro de mais uma, tanto na parte alta da cidade, quanto mais bem abaixo, ao ver os estudantes amochilados, dentro delas livros, cadernos, sonhos, da minha mochila hoje apenas vestimentas próprias a malhar em academia, não de letras, pois ela já faz parte da minha rotina, confesso.

Acabei de voltar a sentir uma transbordante saudade de tanta coisa boa, que nem sei quantas foram.

Ao ver a juventude bem encaminhada, os bons estudantes, os piores existem, como nos meus verdes anos, e hoje, não sei quantos anos mais me faltam, tomara, em saúde, tantos quantos em equivalência se equiparem aos vividos, e bem, foi que acabei sentindo, não sei bem a razão, saudade de mim mesmo.

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