Preparando-me para o ocaso

Pensar na morte faz parte uníssona e afinada de viver. Pois, como sabido e ressabido, depois que a gente nasce, quando não para por aí, não se tem o direito à vida, por um motivo que só Deus sabe, cresce, há os que não muito espicham, tanto em altura como em cultura e sabedoria, fica-se adulto, o trabalho nos espera de braços abertos ou fechados, como existem os desempregados hoje em dia, de adultos passamos a aposentados, como uma pessoa que vi, hoje, segunda-feira, dezenove de junho, manhã fria, assentada à soleira da grade da agência do INSS, com certeza a espera da tão almejada aposentadoria, ou de uma licença transitória, um afastamento por doença, para que essa graça seja alcançada mister se faz que ele passe por uma perícia médica, a seguir o aposentado por idade e por tempo de trabalho passa a sênior, velho, aqueles personagens tão vistos assentados a um banco da praça, a espera do inevitável óbito, tomara ele tarde mais um tempinho, já que muitos, em idade provecta, depois de anos e anos de trabalho duro, vivem nos descontos, na prorrogação de um jogo que já deveria ter sido encerrado antes que o juiz assinale o apito final, afinal o julgador dos nossos atos, também chamado Senhor, conhecido por tantos nomes: Pai do Céu, Deus, pai de Jesus Cristo, em todos acredito, deposito a seus pés a minha fé robusta, é Ele quem decide a hora exata de lhe fazer companhia em algum lugar onde imagino ser lindo, pois a escuridão da terra funda, o desaconchego de uma cova rasa, não é lugar ideal para passar à eternidade. Pelo menos creio piamente no que acabei de deixar no parágrafo anterior, tomara a maioria creia no que digo ou deixo escrito.

Desde quando estabeleci para mim que estou a ficar idoso, não uma sola de sapato gasta, que nem meia sola permite, tenho me preparado com afinco para retardar estes inevitáveis acontecimentos. São estas algumas providências que passaram a fazer parte da minha agenda de saúde: bebo moderadamente, quase não ando de carro, corro sempre numa academia por mais de uma hora todos os dias, alongo não apenas os músculos bem como as ideias em contínua efervescência febril, nado até mesmo quando a temperatura baixa não convida, leio menos do que escrevo, deveria fazê-lo mais, confesso, tento me fazer entender em pelo menos cinco idiomas, além da língua pátria a qual trato bem, estou atento ao cotidiano lindo, mesmo sendo um dia cinzento como amanheceu na manhã de hoje, amo aos meus iguais mesmo sendo alguns deles menos aquinhoados pela sorte, a exemplo os que dormem a sono pesado debaixo de marquises ou viadutos. Trato a todos com a mesma cortesia, tanto aos ricos como os de menos poder aquisitivo, aliás, como me sinto a vontade entre gente simples, tanto na roça, como os trabalhadores assalariados que acordam cedo como eu, vão caminhando ao trabalho, levando às costas mochilas pesadas, com as suas marmitas a serem esquentadas, bem como algumas trocas de roupa a serem usadas depois de mais um dia de trabalho duro.

Todas as atitudes acima enumeradas são de fato compromissos meus. Não apenas se tratam de inconfidências as quais o papel aceita, sabe-se que muitos juram que vão mudar de vida mas, em contrapartida desconjuram logo depois.

Cheguei aos sessenta e sete anos. Muitos, ao me verem correndo longas distâncias longas, coisas que apenas os automóveis fazem, ao me assistirem nadando como um raio que corta as águas da piscina, aperfeiçoando-me em idiomas que a maioria julga desnecessários, amando e tentando ser amado, na mesma intensidade, talvez, caso um acidente não cuide de abreviar-me o tempo de vida, pelas minhas contas devo chegar aos mais de cem. Tomara.

Mas, o mais importante dos cuidados que considero vitais para alongar os anos que me restam, para me preparar para deixar o ocaso da minha vida à espera, ainda longos anos, talvez seja, pra mim o é, construir aquela casa de campo à beira da represa do Funil, nos fundos da minha roça em Ijaci, agora arrendada, sem tempo de desfazer o tal contrato de arrendamento, onde por certo retardarei o ocaso do meu por do sol, assim como o despontar da lua cheia no alto, naquele cenário pecaminoso, de tão belo que o considero.

Ela está quase pronta. Pelas contas do construtor do meu castelo de sonhos, tomara as cartas que fazem parte do seu alicerce não se molhem durante a chuva que vai de novo cair, e minha casa não rua tão precocemente.

Vai ser ali, naquele sobrado de dois andares, nada suntuoso, singelo e de bom gosto, naqueles pouco mais de duzentos metros quadrados, pretendo receber o carinho do canto de um passarinho, no raiar do dia, o mugido da vaca à espera do seu bezerrinho recém-parido ali pertinho, o tropel dos cascos dos meus dois cavalos, o latir amistoso do meu ainda cãozinho filhote, logo meu pastor alemão de nome Del Rey vai latir forte e morder mais ainda, vai ser o guardião do meu castelo de sonhos azuis, quase concretizado.

Aquela casa beira-lago vai ser tinta de todas as cores do arco-íris. Tomara o pintor que for incumbido da sua pintura não se esqueça de comprar todas as tonalidades de tinta. O mobiliário ainda não o tenho. Ele não vai ser nem ao menos macio demais, nem ao menos duro com as pessoas. A cozinha, espaçosa, ocupando quase todo o andar inferior, deve ser composta por um fogão a lenha, que não vomite fumaça no ambiente, como foi feito para aquecê-la nos dias frios, ou clareando, quando as lâmpadas não forem acesas, com as achas ainda vermelhas, brasas ainda crepitando naquela luz tênue que apenas os vagalumes sabem emitir. Os dois banheiros, de dimensões modestas, duas duchas, em dois boxes, uma pia onde lavar o rosto e deixar o ranço da noite apagado, ou desperto, um vaso sanitário, essencial para um descanso fugaz, faz parte de o corpo humano exonerar os intestinos e a bexiga. Serão quatro quartos no andar de cima. Num deles vão se alojar todos os meus livros. Hoje são quinze, em pouco tempo a estante vai ser mãe de mais tantos quantos minha inspiração ditar. Ali, no quarto à esquerda da escada empinada, no mesmo onde estarão meus livros, um computador seminovo vai estar sempre disposto a aceitar a digitação febril do seu teclado cheio de letras e números. Já os outros três serão para dormir, quando o sono vier, tanto bem, quando não, nada pior. Vou poder, quando não estiver escrevendo, olhar o céu, ver a lua refletir sua luz nas águas transparentes da represa do Funil, contar os pirilampos, quando eles aparecerem, sempre serão convidados, já que a noite os passarinhos dormem nos galhos das árvores tão abundantes por ali, mesmo os morcegos noctívagos poderão voar em voos rasantes não em busca de sangue e sim de frutinhas que fazem parte de sua dieta frutariana.

Já o jardim imenso, que rodeia a minha casa de campo, que já tem o nome sugerido de Solar do Paulo da Rosa, será mais verde que o uniforme que um dia fez parte dos meus verdes anos.

Ali serão plantados arbustos rústicos, mas também coloridos em tons sobretons, que uma inspirada pintora vai dizer quais serão.

Um pomar já foi inserido a terra fértil do lugar. Tomara eu esteja presente quando ele começar a produzir. Já que a jabuticabeira que plantei dela apenas meus netos poderão saborear suas doces frutas pretinhas, disputar o sumo doce com os marimbondos e as maritacas verdes mata, que fazem aquela balbúrdia nos céus caso as enxotemos de lá.

Logo perto da casa, do Solar Paulo da Rosa, do lado direito do pomar, meus dois cavalos, logo serão três, já que a égua Cigana logo vai ser mãe, vou mandar construir uma casinha para eles todos passarem a noite. Uma baia espaçosa onde poderão saciar a fome com ração de boa marca, ou feno quando o pasto faltar quando a seca assinalar a sua presença, estará às suas disposições.

Depois de tudo isso pronto, mesmo que eu não esteja pronto, espero, com o coração a larga, espero estar pronto ao ocaso, não apenas da minha velhice, como também esperar a morte, caso ela entrar no Solar do Paulo da Rosa, mesmo sem ser convidada.

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