Hoje falei com minha tristeza

Confabular com tristeza, irmã igual a tal melancolia, na solidão de um lago, num lugar isolado, numa noite escura e fria, pode ser tanto obscuro, taciturno e sombrio. No entanto, de quando em quando, falar com a solidão tem seus atrativos. Na cidade a azáfama incomoda. O burburinho louco nos fere os ouvidos, que podem se tornar moucos de tanta confusão estabelecida pelo roncar dos motores dos carros, do falatório nos dias de jogo de futebol, das rinhas de galo, esporte, se isso pode ser chamado assim, deve ser investigado, descoberto e punido com o rigor das leis.

Ficar em nossa própria companhia pode ser de bom alvitre em ocasiões especiais. Num dia destes, aqui, na mesma casa de Camargos, apenas eu e eu, ao perder o sono, e desfrutar apenas da companhia de meus dois cães que aqui vivem felizes, pude lucubrar o quão tem seu sabor de laranja da ilha na safra, ou de caqui madurinho, ficar entregue a própria calmaria de um lugar como o que me assiste perto da minha cidade amada.

Hoje, dezessete de junho, quase inverno e eu no outono outono do quase ocaso da minha vida, acordei acompanhado de minha esposa, pequena grande mulher, que me sucedeu na cama. Ela, recém operada de um pequeno cálculo ureteral, já quase boa, preferiu curtir mais alguns minutos de sono, apesar de já estar em vigília.

Fui, em primeiro lugar, tratar do Pirunguinha, um border collie inteligente, que, quando pernoito por aqui ele dorme na varanda que olha pro lago agora cheio, quase vazando em direção ao muro de pedra que cerca meu palmo de chão, herança do meu pai. Ele rosnou feliz, espreguiçando-se como os cães costumam fazer e me pareceu tê-lo visto abanando o rabinho preto e branco em sinal de agradecimento.

Após o café da manhã, desjejum frugal, fora de casa a temperatura em verdade era invernal, uma densa cerração tapava a boca do sol, saí a correr em direção à Itutinga. Pelo precoce da hora fui acompanhado apenas de mim. Nem a sombra que ainda não acordara se fez presente.

O Pirunguinha, ágil e veloz, desta feita não foi comigo, à frente, como de costume. Ele deve estar tirando uma soneca, pois sempre me acompanha como de vez anterior.

Talvez explicado pelo frio, quase abortei da corrida de apenas quinze quilômetros, ida e volta.

Na cidade, onde moro, de aqui há dois dias retorno ao convívio com a dura realidade de uma crise feroz, que massacra os mais pobres e faz mais ricos os endinheirados, que não têm a sensibilidade de escutar o murmúrio rouco da sensibilidade, da qual sou possuído e não resisto a sua posse. Talvez seja a razão da minha conversa durante a corrida com a tal tristeza que o cenário nevoento ensejava.

Nem sempre costumo dar um dedo de prosa com a tristeza. Mas, como não sou dono de mim, de quando em vez ela se apodera das minhas entranhas e passa a fazer parte do que me acho ser.

Foi, naquela névoa densa que não permitia ver o clarume do sol, nem a beleza da lua cheia, que perguntei à tristeza qual a razão de ela estar presente no começo da corrida. Ela mal me deu atenção. A tristeza emudeceu, fechou os olhos a mim, e nem me contou o motivo de ficar postada ao meu lado, calada e ensimesmada, o que me fez ficar ainda mais triste quando do começo da corrida curta.

De repente, no meio do caminho, o sol já dava as caras, a tristeza fazia que fosse embora. Mas novamente ela voltava, fazendo-me entristecer novamente, por causa não sabida. Ignorava o motivo de tanta tristeza, já que, nas entranhas do meu cerne desejava veementemente ficar de bem com a vida, mandar a tristeza ir passear, nalgum lugar onde não fosse encontrada.

Faltava menos de dez quilômetros curtos para o fim da jornada. Voltei por outro caminho, o qual julgava mais alegre, no entanto foi mais um logro meu.

Por cima de um morro alto, correndo à pernas desfraldadas pelo negrume do asfalto, vi a volta da tristeza de volta a me fazer companhia não desejada.

Quase olhando o lago de Camargos, sol a pino, um calorzinho gostoso me assaltou de repente. Ah!, com que felicidade julguei ter escorraçado a tristeza de vez! Ledo engano, notável equívoco. Ela retornou tal e qual da primeira vez, ainda mais raivosa.

Enfim cheguei, não tão cansado, quando da primeira vez que vim de Lavras correndo. São quase cinquenta quilômetros de ida, mais a mesma distância de volta, pensando ter deixado a tal tristeza quilômetros atrás. O sol, o calor, a neblina dispersa, eram motivos de sobra para afugentar de vez a tristeza.

Agora, perto do meio do dia, sol cálido do lado de fora da minha casa, aqui dentro ainda faz um tiquinho de frio, parece que venci a tristeza de vez para sempre.

A tarde chega finalmente. Da cozinha vem um cheiro gostoso de frango com quiabo e linquiça frita na chapa fumegante do fogão a lenha.

Agora, exatamente doze horas e dez minutos, afinal percebi, por dentro, um afável sentimento de felicidade genuína a me assoprar a pleno pulmão.

Durante a minha conversa com a tristeza, ao perceber que ela queria se apoderar do meu inteiro, assim que a névoa de minhalma se dissipou, lucubrei o quanto a tristeza faz mal a saúde. Quando ela quiser conversar com vocês, tornando-se inquilina permanente, mande-a, imediatamente, embora.

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