O que vai ser de mim de agora a alguns anos?

Hoje mais parece feriado em minha cidade. Como em outras iguais no país inteiro.

Também pudera! Com a mania que nos assalta, os brasileiros que amam as sextas-feiras, e gostariam que todas as segundas não se assegundassem e se tornassem parentes pertinho das sextas, quando o feriado desaba na quinta, como aconteceu ontem, dia da celebração do corpo de Cristo, principalmente aos que se consideram cristãos.

A tal festa religiosa, ao contrário do que parece, é ponto facultativo, não feriado nacional. Isso pelas leis que regem a constituição brasileira. Nesta data solene celebra-se o mistério da Eucaristia, o sagramento do corpo e sangue de Jesus Cristo. Ela acontece sessenta dias após o domingo da Páscoa, quase sempre às quintas-feiras. As missas são festivas e as procissões, passam por ruas enfeitadas de véspera, quando o Santíssimo Sacramento é conduzido ou pelo bispo diocesano ou pelo pároco local. A festa religiosa foi instituída pelo Papa Urbano quarto no dia oito de setembro de 1264.

Desci a rua, num frio de enregelar pinguins, a temperatura ambiente fora da sala ampla onde estou oscilava entre doze e treze graus Celsius. Sabia, pela agenda do dia antes de ontem que apenas uns gatos respingados entrariam pela porta sempre aberta, na sala onde fica a minha diligente Zaninha, que guardou feriado no dia de ontem, boa católica que sempre foi. Nenhuma consulta estava marcada para esta sexta, dia dezesseis de junho. Talvez, atrás de mim o telefone tilinte, e apareça algum consultante de hora derradeira que se anime a fazer o exame de próstata e outros pertinentes a área da Urologia, na qual sou treinado há mais de quarenta anos inexatos, já que sou graduado em medicina em 1974 e feito especialista três anos depois.

Mas, não me queixo quando não aparece nenhuma vivalma viva ou por deixar de ser, ou viver, aqui, a Rua Misseno de Pádua 352, Edifício das Clínicas, sala 701, bem perto da Santa Casa e de onde mora meu querido Theo, o primeiro neto que eu vi nascer. Em 20 de julho ele completa um aninho de vida, bem mais que os sessenta e sete que acompanharam meu primeiro choro na linda Boa Esperança que tantas esperanças boas me trouxeram até nos dias de hoje.

Falando, ou melhor, escrevendo sobre datas, anos, idades, de aqui a uns parcos meses estarei sessenta e oito. Em mais ou menos dois ficarei sessenta e nove. Aí, quando menos espero, me cavalgarão às costas os setenta, sete anos menos da idade em que meu querido pai nos deixou órfãos, a mim e a meu irmão, e minha irmã mais nova, a Rosinha, que inda mora na mesma casa da Rua Costa Pereira número 152, local que quase me viu nascer, no entando ficou de olhos abertos no meu crescimento, que fica de janelas olhando pra mim, justamente onde ficava meu quarto, hoje de posse da minha querida Rosinha.

Lucubrando sobre por onde caminha a humanidade, ou a falta dela, já que na crise onde nos chafurdamos, em cada esquina, debaixo de quase todas as marquises, nestes tempos de inverno chegando, percebe-se, olhos recheados de angústia, mendigos, pouco podemos fazer, usuários de drogas, sem teto, desassistidos pela sorte, mais e mais pessoas ao desabrigo.

O que vai ser da gente, não apenas os nascidos na pátria Brasilis, em todo o mundo continente, com o conteúdo principal que no mundo inteiro vive, ou finge viver, tem o nome de conteúdo humano, pessoas que bem poderiam ser iguais ou quase iguais a nós mesmos, já que somos portadores da mesma carga genética, cromossomos muito semelhantes. Só que o desnível social a que estamos submersos não apenas nos sufoca assim como nos torna mais e mais melancólicos e inermes.

Como estarei no ano vindouro não quero nem desejo vaticinar. Como vou ficar quando o hoje tornar-se amanhã bem mais simples de predizer. Espero com a mesma fecundidade literária, com a mesma capacidade de digitar, de amar, não apenas a mulher que amo e sim, imbuído de um amor diferente, tendo como ingredientes o carinho, a compaixão, o destemor, menos dissabor, que a dor seja em verdade inevitável e o sofrimento advindo dela opcional. Por todos os meus quase iguais não perca nunca a amizade, o desejo genuíno de ajudar, embora sabendo que a vida que levamos nos leva a leitos macios e camas confortáveis, conquanto outras pessoas sofrem sem poder dizer não ao sofrer.

Como estarei de aqui a alguns anos não saberei prognosticar. Como ainda sei diagnosticar a maioria das patologias afeitas à Urologia, que são tantas, tantas, e de tão difícil tratamento, não comento sobre as doenças sexualmente transmissíveis, as pequenas malformações congênitas: a exemplo a fimose, e coisiquinhas fáceis de tratar, basta o paciente desejar e suportar uma dor pequena, mas, no entanto, quando as malformações são enormes, a exemplo a extrofia da bexiga, os tumores de grande tamanho, os cálculos renais enormes que já causaram danos maiores aos rins, quando bilaterais apenas resta ao especialista o transplante renal, e demais enfermidades de tratamento cirúrgico, quando o tempo se alongou em demasia, e a doença se transformou em coisa de fácil cura a uma capítulo que pode levar à sepultura, quando o portador do câncer se descuidou e deixou o da próstata se estender ao corpo inteiro, nada mais nos restando a fazer a não ser orar.

Meu saudoso pai veio a nos deixar aos setenta e sete anos. Depois de pertinaz enfermidade que teve início precocemente, e, uma vez levado ao leito em pouco mais de um ano rezávamos para que ele partisse, da vida terrena a outra, que não se percebe como vai ser, nem como será. Minha mãe foi amparada por mim ao mesmo hospital que inda hoje frequento. Lá, na sala de cirurgia, não tão bem equipada como no ano em curso, ela veio a falecer aos oitenta e três anos de idade, ainda lúcida e bondosa, mais uma vez sem nada poder fazer. Foi extremamente difícil, como médico experiente, assistir a partida de ambos, melancólico, inerme, e, depois que eles se foram, ter de assistir-lhes ao velório, naquela sala fria, ao lado de amigos, desconhecidos, que tentaram confortar-me a dor, mas era por demais pungente dentro do meu eu.

Um dia vou ter de morrer. Quando vai ser? Em dois, três, dez, ou mais anos e dias?

O que me está guardado, num cofre dotado de um segredo por ninguém conhecido, o que vai ser de mim daqui a alguns anos, nem sequer imagino, ou desejo saber…

Deixe uma resposta