“Quanto o senhor vorrta”?

Sô Mané, sujeito de linguajar bem amineirado, pra lá de estropiado, como ficou a mula manca depois que torceu a pata de trás num mata-burro onde morreu sua égua, era tido esperto pra sabugo de milho novo. Não havia catira, não a tal dancinha bem dita mineirizada, também chamada de cateretê, onde o ritmo é marcado pela batida dos pês e mãos, e sim, para os não afeitos à linguagem da roça, onde não tenho o umbigo enterrado e sim o órgão pulsátil que faz às vezes de bomba motora do sangue aos demais órgãos do corpo humano, tem como sinonímias escambo, troca, permuta, toma-lá-deixa-cá, que meu amigo roceiro verdadeiro, por inteiro, desde as mãos caludas ao pés cheios de brotoejas, dizem ser mestre na tal arte de trocar, ou vender, passar manta ou levar no fiofó, quando a vaca, dita de boa lactação, uma vez mudada de pasto, com fama de dar trinta litros de leite frio, em verdade ficou mais de uma semana sem alguém a espremer-lhe as tetas, muito bem alimentada, comendo todo o conteúdo do cocho cheio de cana picada e silagem de milho graúdo, uma vez trocada de dono, um tal médico-fazendeiro-de-fim-semana, por pura falta de tempo, já que estava no auge das suas operações tidas milagreiras, ele era médico de fazer o toque sem retoque, no fiofó dos que se apresentavam de viva vontade ao seu consultório, onde estou agorinha mesmo a escrever, quando o doutor das próstatas e pedras nos rins, e coisas afins, pediu ao retireiro que ordenhasse a tal vacona lindona recém-comprada por um preço alto, mais alto que um pé de milho de mais de três metros de altura, a danada da Braúna apenas deixou o leite descer com o bezerrinho ao pé, mal medidos numa latinha de leite miudinha, dentro dela apenas foi visto três míseros litrinhos de leite, assim mesmo amarelinho, já que a vaca ruim era portadora de mastite até nas últimas duas tetas que acabaram virando uma só, depois de rasgar a derradeira na cerca de arame farpado enferrujado, feito à meia, dada a boa vontade do mesmo catireiro Sô Mané.

Um dia propus uma troca que me gerou alguns e muitos infortúnios.

Estava deveras insatisfeito com o arrendamento, tanto das minhas terras, a sede da fazendola não entrou no negócio, com um vizinho de pasto, tido arreliento, de nome enfezado, Sô Nicanor.

O contrato, não foi assinado em nenhum papel, apenas de mãos atadas, muito menos com firma reconhecida no cartório, ainda se estenderia por mais quatro longos anos.

O que ficou estabelecido na nossa prosa curta foi que Sô Nicanor teria de cuidar com todo capricho das minhas terras, roçar as pragas a cada ano, caso contrário aquilo viraria um sarandi infernal, usaria o leite das minhas vacas impuras, verdadeiras tatus com cobra mansa, o retiro seria no dele próprio, as crias que nasceriam a partir do contrato seriam repartidas irmãmente, uma pra mim, a segunda para ele.

Mas, o que observei um mês depois de então, foi que as minhas bezerrinhas logo iam ao céu das vacas. As deles, ao revés, cresciam fortes e robustas. E a minha pastaria acabou naquilo no que não foi acertado: um sarandi danado.

A cada sábado, ao seu pedaço de chão limpinho comparecia com minha melhor fatiota, bota e chapéu de peão, calça rancheira, camisa engomadinha, listrada como a toalha de uma tia falecida a qual era cuidadosamente estendida sobre a mesa ampla com as melhores iguarias que seu fogão a lenha produzia.

Com Sô Nicanor folgava, contava piadas de fazendeiro que mal sabia o motivo de o leite ser branco e a vaca sendo preta, se por acauso ele sabia se vaca de três tetas dava a mesma quantidade de leite da de quatro perfeitos, e por aí íamos até o sol dobrar a lua com sua conversa mole pra boi tirar um cochilo profundo.

Num péssimo dia, pra mim foi melhor que ótimo, ao chegar montado numa égua castanha a casa do Sô Nicanor, que hoje mora no céu dos equinos, era boa de sela e de puxar carroça, ele, nem sua não formosa mulher, mais feia que belzebu com caxumba brava, estavam em lugar algum.

Até que descobri a dupla de dois nos fundos da casa espaçosa, numa moita de capim seco, cortando os tais com um podão enorme, a fim de dar picado às suas vacas, que em verdade metade eram minhas.

Na mais ingênua intenção de elogiar-lhe a esposa, numa atitude infantil, num galanteio sem maldade nenhuma, fiz a ele uma proposta pra mim nada indecente.

“Sô Nicanor. O senhor quer trocar de muié”?

No que ele saiu bufando do capinzal enorme, com o podão afiado, com ele em punho, e me respondeu malcriado: “dotor Paulo, se minha muié tivesse à venda na venda, mesmo vendada, ou na intenção de uma catira- troca, estaria noticiada no jorná”.

Foi neste exato átimo de minuto, ao descobrir que o home da roça estava de fato brabo, apeei da égua saudosa, não me recordo qual mesmo era o nome dela, talvez tenha sido mesmo Saudosa, respondi-lhe à altura da baixaria em que me meti: “Sô Nicanor. Eu me considerava seu amigo. A partir de agorinha mesmo não piso mais aqui. E tchau e bença”!

Já no lombo arreado da Saudade, a égua que não gostava de cupim, pois dava coice na hora H e no lugar errado, falei irado. Ou melhor, foi Sô Nicanor quem falou: “Qué sabe duma cousa? Nosso contrato bocudo acaba de ser desfeito o malfeito”.

Saí no arreio mofado da égua rindo que nem seriema ao ver o macho no alto do morro agudo. Era aquilo mesmo o que desejava, no âmago de minhalma impura.

Negócio desfeito dono da vacada e da roça bem satisfeito. Caso o Sô Nicanor tivesse aceitado a oferta da troca dizem, nos arrabaldes, sem balde ou com balde, eu, com certeza, levaria uma manta danada. Não é dona linda Rosa?

No caso do Sô Mané, o do começo da prosa boa, que gente saborosa de visitar e jogar conversa fora, são os dois, ele e sua muié, dona Maria, onde tem festa lá estão os dois. Eles viajam juntinhos, numa Variante avariada, que de tanto enguiçar, e tanto empurrar aquela lata-velha, motor fundido e fudido, todos os vizinhos já sabem que se vão não voltam, se voltam, não irão.

Hoje passei pelo sítio Paraiso. Onde vivem, como namoradinhos, os dois pombinhos arrulhantes.

Fui em minha Pratinha Valente. O único carro que tenho, mesmo assim comprado à prestação, num consórcio de veículos cujas prestações acabaram de fechar os olhos. Mesmo assim ela, a caminhonetinha prateada, tá registrada em nome da Rosa, não o romance do italiano Umberto Eco (O Nome da Rosa), já falecido, cujo livro não consegui chegar ao seu final.

Na hora completei a catira com Sô Mané e a dona dele, a simpaticíssima Dona Maria.

Precisava de uma sacola- saco- grande onde agasalhar do sol, e da chuva, meu bote inflável. Ele tinha o que almejava, segundo me disse o amigo Roberto, quem arrendou, por prazo indeterminado, a minha rocinha antes prejuizenta. A qual amo tanto, quase como amo a minha Rosa.

Em troca da enorme sacola, onde estava secando um feijão quase seco, em vias de ser escolhido para ir à panela, no sítio do Sô Mané ficou meu derradeiro livro – Mugido de Vaca e Cheiro de Curral.

Quando, da vez primeira que os visitei, ao chegar a tronqueira quase trôpega, montado no potrinho Theo, ao bater palmas para me anunciar, já que lá não tem interfone ou campainha para chamar, dona Maria do Sô Mané, com aquela fala brejeira, olhando –me de viés com aquele par de óculos de fundo de garrafa de pinga da boa, assim me recebeu, quando a ela perguntei se tudo ia bem: “Fora a veice e os defeito, vai tudo de mar a pior”.

Ao lhe perguntar a idade, isso é pergunta que se faça a uma senhora dama, ela assim arrespondeu: “Tô do meio dia pra tarde e do meio dia pras onze. Não tão veia nem tão nova”.

Antes de deixar os dois, em meio às suas felicidades, que têm a cor do singelo, ainda botei os beiço e o resto da dentadura num pedaço de goiabada com queijo fresco.

Foi com mais isso que saí da linha dos óio dos dois amigos antigos.

“Sô Mané: qué trocar de muié”?

“Quanto o senhor vorrta”?

No caso atual não sei quem leva manta. Tomara não seja nenhum de nós dois. Deve ser uma catira justa.

 

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