Toda carência de Tiãozinho Sofrência

Desde quando comecei a escrever, penso que o primeiro texto aconteceu na noite em que meu pai faleceu, um bem pequeno, de nome “Réquiem a um pai sem limites”, que consta do meu primeiro livro, nomeado de À Sombra dos Ipês Contestações e Devaneios, a seguir sucedeu uma trilogia de mesmos nomes: um, dois e três, foi que, naquele dia ao mesmo tempo esperado, confesso que se não desejado pelo menos foi acolhido como um bálsamo aos nossos sentimentos, motivado pelo sofrimento que acabou por ceifar os derradeiros dias terrenos do meu pai, tanto da minha querida mãe, não sei o que sentiu a Rosinha, meu irmão Fred, ausente no momento, deve ter notado a falta do nosso progenitor com imensa dor, foi que aprendi o sentido verdadeiro de uma palavra escrita por inteiro, no dicionário ela se mostra na letra s, a tal pouco experimentada sensibilidade, uma coisa que finca dentro da gente, pode nos fazer chorar, entranha-nos ao cerne como se um punhal nos fosse ensartado no peito com sua lâmina afiada, faz arder a nossa lembrança, coça-nos a cabeça, antes oca, agora, depois do falecimento do meu pai, o primeiro ente querido que nos deixou, a seguir, cinco anos depois foi a vez de minha mãe Rute, a mesma cabeça não esvazia nunca das lembranças de ambos.

Ontem, dia 13 de junho, mês das festas juninas, para a sua família as festas serão adiadas sine die, um amigo caro me faltou. Mais ainda a sua família, filho e filha, esposa e aparentados, a todos que consideravam o advogado, amigo do meu pai, e de tantos outros apreciadores dos esportes praticados na altura dos ares, o Otto Marcelo Penido nos deixou órfãos não apenas da sua saudade assim como da sua eterna mocidade.

Desde quando aprendi a sentir, cada vez mais, desde quanto mais idoso fico, a tal carência tem tomado conta de mim. Fico com a pele irritada, por ela mostram-se sinais de pelos hipertrofiados como se uma sensação de frio, de calor, inexplicáveis, fizessem parte de meu corpo andado em anos. Esse fato se deve a mesma palavra tão rica, coisa de poetas e escrevinhadores, de apaixonados e apaixonantes, sentimento que tanto pode ser exacerbado ou fracote, pode desaparecer numa fração de instante, ou ficar na gente para sempre. De nada adianta lutar contra a sensível sensibilidade. Ela pode tomar conta da gente mesmo que não permitamos a sua posse sem ser permitida a sua entrada forte em nosso âmago carente, de gestos de afeto, ou simplesmente de olhares vazios.

Foi por este motivo que resolvi tomar como personagem dessa crônica de hoje cedo, dia quando ontem choveram lágrimas do céu, gotas salinas talvez devidas ao falecimento do amigo Otto Penido.

Tiãozinho Sofrência era a cara sem tirar nem as rugas, muito menos os pés- de- galinha, daquela carinha de cão sem dono, abandonado depois de ser filhote, e sem querer, ou desejar, acabou crescendo demasiado, junto a ele as fezes foram ficando enormes, por este motivo baldio seus donos o abandonaram à beira da estrada, depois de o levarem a um passeio, e o Toquinho, nome do tal cãozinho, foi todo feliz abanando o rabinho, até perceber, orelhas murchas, que seria aquela a última viagem que faria com a família a qual pensava ser sua.

Desde então o pobre desinfeliz Tiãozinho passou a sofrer mais ainda sem a presença que o alegrava tanto, do ex-amigo de uma raça qualquer, poder-se-ia dizer que o cão viralatou-se pelas ruas da vida, cavoucando sacos de lixo, esparramando-lhes o conteúdo, deixando o continente sujando os passeios dando um ar de desmazelo à cidade, nem as moças da limpeza urbana eram capazes de limpar toda aquela podriqueira que nos faz virar o nariz a tanta sujeira junta.

Desde o abandono do seu cãozinho de estimação, ao qual batizaram com o nome do dono – Tião Orelhudo, dado por um motivo que saltava aos olhos: o Tiãozinho Sofrência nasceu com um enorme par de orelhas de abano, por isso na escola o epitetaram de Dumbo. E pelo SUS nenhum cirurgião plástico teve a coragem de operar-lhe a orelha enorme, virada pro lado de fora, por essa razão incômoda o nosso pobre e infeliz Tiãozinho nunca era visto sem boné de abas largas, na intenção de lhe tapar a forma elefantisica do disforme apêndice auditivo.

E assim cresceu o infeliz, não menos carente, e tristonho, sofredor de toda a sorte de bullying, por onde quer que pusesse os pés pequenos, ao apelido de Tião Dumbo Sofrência Carência outro jocoso apelido entrou na dança dos nomes esquisitos: Tiãozinho Dumbo, Sofrência, Carência, Pé Malformado, Sapatinho de Cinderela, Não de Cristal, e sim uma Botina de Sola Furada, etc. e tal.

Aos quinze anos incompletos naquele mês de junho chuviscoso, numa manhã molhada pela chuva da noite passada, deram falta do pobre jovem com tantos apelidos engraçados, mas o dono deles não achava graça nenhures.

Procuram por toda parte. Debaixo da ponde do rio seco. Por cima do viaduto derrubado pelo trem desgovernado. Atrás da bananeira que nunca deu cacho. A frente da gente, que atrás vem gente.

Nada de o Tiãozinho Carência Sofrência encontrar.

Dois dias após, já desesperançosos de o meninote ser achado, afinal, o encontraram mortinho da silva, com uma corda atada ao pescoço fino, já azulinho por falta de oxigênio, numa atitude sabidamente suicida, o nosso, sem amigos, Tiãozinho Sofrência, e outros apelidos mais, foi sepultado em cova rasinha, tendo flores do campo a enfeitar-lhe o sepulcro, numa cova feita para receber indigente, coisa que o pobre Tião (vamos, em respeito a sua alma vagante, à procura da tal felicidade, esquecer os demais apelidos) em absoluto não era.

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