Um dia Ícaro tentou voar. Mas suas asas eram frágeis demais. Derreteram-se aos raios de sol, e acabou morrendo na melhor idade, inesperadamente, antes que pudesse dizer não

A história, não sei se lenda, ou verdade, segundo minhas fantasias pueris, ditadas pelo que a história conta, Ícaro era filho de Dédalo, e de uma escrava de Perséfone, deusa das flores, frutos e perfumes. Dédalo descende do próprio Zeus. Por ter matado seu sobrinho Talo refugiou-se na ilha de Creta, junto ao rei Minos que construiu junto ao filho Ícaro o labirinto do monstro Minotauro, no qual foi aprisionado. Que a seguir foi morto por Teseu. Depois, tempos após, Ícaro construiu a si mesmo asas artificiais feitas de cera de mel de abelha e pena de gaivota. O pai alertou ao filho, pioneiro na arte de voar sozinho, que não se aproximasse tanto do mar quanto do sol, para não correr o risco de ver-se jogado ao chão. Mas, como todo sonhador não perde a chance de se arriscar, Ícaro contrariou os ditames do pai, voou perto das ondas do mar Egeu, viu as asas macias se derreterem pelo calor do sol, e acabou onde todos previam. Morto, sem vida, boiando tranquilo, com suas asas derretidas, na superfície das ondas do mar.

Já esse Ícaro de família lavrense, vanguardista, pioneiro em esportes radicais, foi ele o primeiro a se deixar levar, salvo engano, de quem nunca voou a não ser nas asas seguras de um avião, por asas modernas, nomeadas de asas deltas, ou parapentes, piloto experiente, foi um dos primeiros brevês de que se têm notícia por aqui, na Santana das Lavras do funil, esquiador competente, esportista nato, de boa figura, afável no trato, advogado com tantos predicados, de família renomeada, mãe artista dos teclados e das sapatilhas que permitem formar um pas-des-deux, progenitor de ascendência alemã, do mesmo nome de tanto seu filho, quanto seu neto, Marcelo, hoje veio a nos deixar o seu lugar vazio, depois de morte súbita, em seu lar doce lar.

Ainda me lembro de tempos não tão longevos de quando fui salvo de afogamento por sua presteza em me deixar numa prainha perto da sua casa de Camargos.

Acontece que eu, um tanto afoito, inexperiente, não tão bom nadador como nos dias de agora, montado num Jet Sky, sem estar preparado para o que desse e viesse, e o que não deveria dar de fato aconteceu.

Um amigo caro, enfermeiro da prateleira de cima, na minha garupa, acabávamos de retornar de um barzinho distante, na Capela do Saco, onde ainda hoje existe um barzinho simpático, de nome Pinguinha. Bem longe da minha casa de Camargos, no bairro Simone, o tal barco veloz emborcou. A represa estava marolada, águas agitadas por um vento assoprante, que não serenou.

Fomos cuspidos os dois dentro da água fria. Quanto mais nadávamos mais a tal lanchinha de dois lugares se afastava da gente. Tanto as marolas brejeiras, quanto as ondas ululantes, impediam a nossa volta ao tal barco que ora virava, ora voltava à posição de dantes.

Foi quando esse Ícaro navegador, corajoso, veio até nós, colocou-nos em sua lancha, e nos rebocou a salvo das ondas mais e mais conflitantes com a nossa canseira imensa.

Dizem as más línguas que meu amigo enfermeiro, na Santa Casa todos conhecem o Zé Maria, vulgo Dedé, até nos dias de hoje ele moureja por lá, fez em mim um boca-a-boca salvador. Do que eu não me lembre, sim senhores e senhorios.

O fato é que devo parte da minha vida sonhadora aos dois amigos. De longos e saudosos carnavais. O Oto Penido e o José Maria, Dedé para os mais chegados.

Imaginem o quanto sofreu o pai do Ícaro número um! O de asas de penas de gaivota untadas de cera de abelha, o qual contrariou os conselhos sábios do pai e veio a naufragar em águas profundas, vindo a falecer pouco depois.

E o quanto ainda padece a família unida, tanto a esposa, a pequenina e querida Verinha, que, mesmo adoentada, o amava tanto quanto a si mesma. E os filhos, bem conheço outro Ícaro menor, que tem o mesmo prazer do pai de se alçar aos ares, num voo de beija-flor. É o advogado voador, amigo alado de um sobrinho, o Pablo Rodarte, do cartório do primo Luiz Carlos.

Hoje soube da partida, rumo ao céu, na azulice que hoje se manifesta, do amigo de asas icarianas, um vanguardista nos esportes radicais. Fui ao campo santo para me despedir dele. O corpo ainda não havia chegado ao velório. Não tive tempo, muito menos a coragem de dele me despedir.

Oto Marcelo Penido se foi. Suas cinzas, por certo, serão jogadas de alguma serra, bem do alto, de onde ele amava saltar.

Oto se foi para sempre, num átimo de instante. Como passou, de repente um vento norte, essencial para que suas asas de Ícaro bem mais modernas do que as do outro Ícaro, filho de Dédalo e da escrava de Perséfone, pudessem, não apenas voar, como aterrissar tranquilamente.

Mas aqui em sua Lavras querida ficamos nós, seus múltiplos e incontáveis amigos. A derramarem um pranto só. Unidos como as asas avoantes de aves voadoras. Como você foi em vida, uma vida plena de carinho que tanto nós sentíamos por você, assim como você sentia por nós.

O personagem do outro Ícaro, o da mitologia grega, dizem ter passado ao além nas águas do mar Egeu.

Acontece que você, Ícaro Oto Penido, advogado de fino trato, acabou de nos deixar órfãos não apenas de suas asas voadoras. Bem como da sua cativante pessoa, da sua face bonita, aos apenas setenta e cinco anos, mas parecia menos.

 

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