Hoje aconteceu um novo reencontro entre nós três. Foi na mesma manhã, um dia depois, bem antes das sete do dia de hoje, um dia após a celebração do dia dos namorados, confesso ter sido um tanto omisso na comemoração desta data importante no que tange a minha querida eterna enamorada, há tantos e tantos anos juntos que acabei perdendo a conta de quantos foram, meu filho mais longevo conta com trinta e oito anos de idade, a mais jovem, já mãe de primeira viagem agora coleciona menos cinco que seu irmão Stenio, já que meu netinho de nome Theo faz um aninho no próximo vinte de julho, meio do ano inexato, já na descida, ela, a jovem mãe de uma meninazinha enrolada em cueiros, com a cabecinha tampada como a de um filhote de passarinho agasalhado ao ninho, ávido por receber do bico da mãe o alimento trazido de perto, uma minhoquinha já parcialmente digerida, um grãozinho de qualquer semente colhida inda pouco, qualquer regalo que lhe forraria o estômago faminto, já que em poucos dias o tal filhote de passarinho, seria uma rolinha ainda por empenar? Um sabiá que ainda não sabia trinar? Ou um canarinho da terra desgarrado da sua rocinha querida de onde saiu por engano, depois de preso por um menino da cidade, na intenção não louvável de engaiolá-lo numa masmorra de arame duro e ser condenado, sem crime algum, a passar o resto dos seus dias numa prisão imerecida, sem poder voar livremente como se acostumou onde nasceu, de onde o trouxeram sem o aceite dos seus pais canários adultos, a mãe zelosa botou os dois ovinhos, o pai canário cabecinha de fogo passou horas e horas cuidando do produto fecundado por seus próprios genes, até o dia feliz quando a casca frágil do primeiro ovo deixou a descoberto primeiro a cabecinha ainda pouco emplumada, a seguir emergiu da casca rota o restinho do corpo, da mesma forma pelado, para um pouquinho depois aparecer das entranhas do ninho, mais tarde vai ser nada mais do que um ninho vazio, logo outro vai ser construído numa folha de uma planta qualquer, onde a mãe passarinha vai se sentir segura, recomeçando um novo ciclo lindo do qual apenas a mãe natureza é capaz.
Pela segunda vez passei pela mãe jovem da bebezinha Manuela. As primeira passada de olhos rápidos, não queria incomodar mais que um singelo minuto, percebi, debaixo da mantinha desfraldada a frente da cabecinha linda da recém- nascida uns olhinhos claros, uma pele branquinha, ainda sem muitas penugens cobrindo-lhe a carequinha mais ancha que a minha.
Numa atitude fruto da minha curiosidade de avô escritor parei a mãe da criança com todo cuidado para não assustar as duas. Perguntei a progenitora para onde ela ia tão cedo. Pela idade da filhinha não poderia saber de ela mesma o que iria fazer na parte alta da cidade. Para não assustá-las expliquei ser médico não pediatra, e sim de outra especialidade das tantas que a medicina mutante dos tempos de hoje se transforma a cada dia em mais e mais nuances de entender cada vez mais de menores setores do corpo humano, do especialista cuida, um dele do olho esquerdo, outro do ventrículo direito, o terceiro de uma parte ínfima das vias urinárias, a Urologia não cuida da hemorroida, assim como o experto em outra especialidade afim, a procto tem a seu encargo outro detalhe contíguo tocado pelo mesmo canal retal, daí a confusão estabelecida no meu consultório por confundirem a próstata com as tais doenças que nada mais são do dilatações varicosas das veias malformadas chamadas de hemorroidas e termos afins.
Voltando à pequena Manuela, de cuja mãe jovenzinha desconheço o nome do pai, nem o dela mesmo, se por acaso ele reconheceu a filha novinha, como aquele filhotinho de passarinho nascido num ninho nos fundos da minha casa jamais vai ser abandonado pelos pais, a não ser em adulto, voando pelas suas próprias asas em condições de atingir o céu azul, pousar num galho fino de uma árvore qualquer, ter mais filhotes nascidos de outros ovos , formar nova família que um dia mal irá reconhecer, deixei ambas, mãe e filha, irem em busca de um pediatra, num bairro distante, num posto de saúde fincado num bairro de má fama de nome Novo Horizonte, sem condução de levar a pequena Manuela em carro próprio, a levava nos bracos frágeis, como gostaria de votar atrás, deixar as duas no banco da frente da minha pratinha valente, e ir junto as duas a tal unidade de saúde, ainda bem distante de onde me cruzei com elas.
Não mais soube notícias tanto da mãe da pequena Manuela quando da filha novinha, ainda enrolada em cueiros e fraldas pequenas.
Tomara seja uma consulta de rotina. Apenas para medir o peso e a altura, já que a saúde da pequena criança, recém-nata, parece ir de bem a melhor. Tomara a mãe da Manuela, não sei se em verdade é o nome dela, pode ser Mariazinha ou até mesmo Zaninha. Encontre uma boa e capaz médica de crianças, e ela cresça saudável como os filhotes de passarinhos, que inda pouco deixaram o ninho maternidade, e hoje voam livres como eu nunca fui capaz, embora tenha tido sempre o desejo de Ícaro de voar sem asas, mesmo depois de tantas tentativas de me tornar ou libélula ou helicóptero, voando pelos céus, sem ainda me transformar em anjos ou querubins, a vida me impediu de voar, embora me lanço aos ares sem o concurso de asas fortes, preparadas para o primeiro voo solo. Apenas viajando teclando o teclado negro de um dos meus computadores, um defronte ao ouro, em paz entre eles dois.
Ainda ignoro como foi atendida a pequena linda meninazinha de nome Manuelazinha. Tomara com a presteza com que, tanto a sua mãe e ela mesma mereçam.
Mesmo à distância segura desejo a ambas todo o porvir sorridente do mundo ao derredor. Mesmo que ele se mostre hostil, de dentes perfilados, prontos a morder, quando tudo parece conspirar contra nós mesmos. Num dia ele se mostra assim. Já no seguinte, ao ver o sol arreganhar-nos dentes não tão brancos quanto a pele clarinha da meninazinha Manuela, naquela mesma manhã de um junho que entra em sua exata metade, tomara que, na próxima vez que vier a me cruzar com mãe e filha, caso puder ser útil em alguma coisa, oxalá o possa, a fim de amenizar a vida que espera ansiosa por dias melhores, colocar mais cor e vida, as mesmas das cores das rosas vivas, de tanto a mãe de Manuela, a ambas, desejo o melhor, tomara…