Hoje desci a rua pelas próprias pernas. Ontem corri mais de doze quilômetros, no entanto sou capaz de muitos mais. Trasanteontem nadei cinquenta metros a menos de vinte e cinco segundos. Não sou nadador de longas distâncias como adoro correr mais que uma maratona inteira. Sei pedalar com proficiência, apesar de a minha bike ter custado quinhentos reais, ao revés das usadas por ciclistas verdadeiros podem chegar à cifra astronômica do preço de um carro de boa qualidade. Penso ainda com certa clarividência. Embora não aprecie dirigir, sei fazê-lo bem. Minha carta de motorista foi renovada recentemente para mais três anos ainda. Escrevo bem cedo, antes que o urologista tome conta de mim, a partir das oito das manhãs. Todos os dias, inclusive aos sábados e domingos. Domino a quase perfeição cinco idiomas além do meu. O lindo português, tão maltratado, vilipendiado, pouco lido, mesmo entre os profissionais de saúde. Os esculápios, salvo honrosas exceções, deixam no papel garranchos ilegíveis, fora os senões tão comuns em nossa classe, hoje tão pouco valorizada, difamada pela mídia, na maior parte das vezes oriundas de queixas infundadas, por culpa de um sistema de saúde falho, que nos joga às costas culpas que não são nossas. No entanto, por nos posicionarmos na linha de frente, os pobres médicos que atendem nas unidades de saúde públicas levam a fama de atenderem sem cuidado, quando lhes faltam recursos mínimos para um perfeito diagnóstico. Pior ainda quando o desassistido paciente tem a infelicidade de ser vítima de doença complicada, o tratamento escorreito não avança, ao contrário, empaca em esperas demoradas demais, que por vezes põem em risco não apenas a saúde quanto a vida do mesmo.
Deixando os reclames inerentes de lado, a crônica dessa manhã, doze de junho, dia dos namorados, quando deveria falar de amor comenta sobre outras coisas. Bem tristonhas, apesar de em conformidade com a dura realidade referente à idade provecta, ao envelhecimento inevitável, as doenças próprias dos de mais idade.
Ontem fui em visita a dois amigos em especial. Um da minha exata idade. Minto, um ano mais velho. O segundo, aos oitenta e cinco, mais parecia um irmão mais idoso, um professor emérito, aposentado da arte de ensinar, embora me ensine muito, menos do que eu, mau aluno, aprendo com sua vasta cultura e lúcida postura. A parceira, ainda bem ciente de quem era ela, passava dias inteiros exercitando-lhe a paciência, no jogo do mesmo nome, num computador que quase só lhe servia para aquele joguinho meio tolo.
Já o primeiro visitado, por quem tenho enorme estima, luta estoicamente contra pertinaz enfermidade, um câncer já bem avançado. Propagado a vários órgãos daquele organismo mais e mais frágil, tentando toda a sorte de terapias, muitas vezes apenas paliativas.
Como disse no começo do meu texto, no qual não pretendo me estender muito, como desejo, de coração aberto, que minha vida se estenda, desde que com saúde mediana, sem os recursos de que a moderna medicina hoje lança mão, sou capaz de tantas e tamanhas coisas e loisas que poucos garotos de idade para serem meus netos não são capazes. Posso testemunhar o escrito numa corrida recente, quando cheguei a frente de jovens atletas da metade da metade da minha idade, que hoje conta com sessenta e sete exatos janeiros, embora amanhã, ou escrevendo melhor, em dezembro, vão ser contados mais um ano na folhinha do meu calendário.
Na visita fugaz de ontem a tarde encontrei a porta do meu amigo, o que luta contra um câncer metastático, fechada. Mas bem sabia do estado debilitado em que ele se achava: com várias maneiras de prolongar-lhe a vida, usando alimentação parenteral, submetido a dietas especiais, com a urina solta, em uso de fraldões, sendo muito bem cuidado tanto pela esposa dedicada, assim como alguns cuidadores bem treinados, usando a quimioterapia como último recurso, vendo, sem poder fazer nada para impedir a vida se esvair como as águas de um rio caudaloso que correm em direção ao mar.
Na próxima vez em que o visitar tomara o encontre melhor. Tomara…
Já na segunda visita, numa casa logo acima, numa ruinha estreita, do querido professor, leitor voraz, achei-o, aos mais de oitenta de cinco anos, bem vividos, em excelente estado. Tanto no quesito lucidez quanto na parte física, não como a minha, bem explicado, já que me considero atleta, não apenas das pernas como das letras e das palavras juntas.
Acontece que sua amada esposa, a que passa o tempo todo naquele joguinho de tirar e colocar cartas do mesmo naipe uma ao lado da equivalente, confesso não saber jogar, muito menos ter paciência para ficar horas baldias naquele joguinho bobo, em uso de incontáveis medicamentos para atenuar-lhe doenças infinitas.
Deixei os dois, marido e mulher, depois de desejar-lhes um feliz dia dos namorados, que cai no dia de hoje, começou friozinho, mas agora o sol já mostra a face risonha, logo deve esquentar mais e mais. Uma chuva de verão, mesmo sendo quase inverno, deu as caras em pingos fortes, e de repente parou.
Um dia depois da visita de ontem, pensando na vida, no quão ela é risonha quando em saúde plena, quando não puder mais pelo menos andar, sem estar abengalado, correr pelas estradas, numa velocidade compatível com minha perda da mocidade, pensar com lucidez, escrever mesmo uma croniquinha de algumas linhas apenas; amar, pensar ser correspondido, ter um teto onde me proteger não apenas dos inimigos, penso tê-los poucos, bem como das intempéries as quais a mesma vida nos oferece, sonhar utopicamente, sem sonhar não se vive, pensar que o amanhã vai ser como o de hoje, rico em inspiração, vendo a família unida, transpirar de felicidade e saúde, o mesmo desejo aos demais, sejam amigos ou não, não poder mais testemunhar o sorriso do sol e as lágrimas da chuva, caso me for privado de tudo isso, ou ínfima parcela, quando estiver decrépito, condenado a viver num leito macio, ou sobre aquele colchãozinho indicado para prevenir escaras, tendo de lutar bravamente contra um cancro mortal, como meu amigo querido o qual estive em visita no dia de ontem, ou, como uma pessoa, a qual considero muito, uma tia que vive artificialmente, ora num hospital, quando ela melhora volta a sua casa, onde é mantida viva quando sei que sua vontade é partir de aqui para lá, onde o azul do céu predomina, por favor, fica aqui minha súplica, minha carta testamento.
Caso não puder desfrutar da vida com a qualidade que eu exijo, me deixem partir, rumo a um lugar que nem sei se ele existe.