Aquele meninozinho, nascido num ermo sertão, fim de linha, onde a estradas de terra batida se dividiam em dois caminhos: o nada e o fim do mundo.
Quem ali chegava, por certo perdido, geralmente desacompanhado, tendo apenas a si mesmo como companhia, e lhe bastava, dava com as vacas n’água, de um brejo seco, por falta de chuva que ali não caía desde quando o avozinho do tal menino, um caboclinho poeta, que não se dava entre os bichos mansos, temia tanto as vacas bem como os outros animais domésticos, mesmo um cãozinho que a ele abanava o rabinho lhe fazia encher as calças de urina, pior quando estava prestes a ir à fossa quase vomitando pela boca estreita o subproduto dos seus intestinos quase sempre vazios, por falta de comida no fogão, ao invés de amar as vacas torcia-lhes o rabo, não por maldade, e sim para se safar dos seus chifres que foram mochados desde quando elas eram bezerrinhas.
Tiãozinho nasceu do tamainho exato de um dedal. Aquele instrumento usado na costura para proteger a ponta dos dedos da agulha de ponta fina. Mal cresceu no tamainho diminutivo. Por falta de altura na escola o apelidaram de pintor- de- rodapé. Ou alguma coisa equivalente, já que valente Tiãozinho não era, ao contrário, ao menor sinal de briga sumia na braquiária baixa, bastante sacrificada pelo pisoteio do gado de um tio torto, que acabou engravidando-lhe a mãe própria, por isso considerava-o como filho que não era.
Tião pequeno, quase anão, só que não tinha o cabeção dos anões acromegálicos, muito menos o pezinho de número de calçado menos de vinte e dois, adorava fazer versos poéticos, era considerado por aquelas bandas uma versão piorada de Mario Quintana, aquele maiúsculo poetaço gaúcho, de menor altura. São deles estas pérolas brancas, crescidas e nutridas no mais íntimo aconchego de uma ostra pura: Do amoroso esquecimento. “E agora, que desfecho! Já nem penso mais em ti… Mas será que nunca deixo. De lembrar que te esqueci”? E outro: Relógio – “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede. Conheço um que devorou três gerações da minha família”. Mais um, o derradeiro, embora ele tenha tantos lindos, tão lindos, que resumi copiar apenas esses três: Tic-tac. “Esse tic-tac dos relógios é a máquina de costura do tempo. A fábrica de mortalhas”.
Tião Sofrência, tido portador de sensibilidade explícita, maldizia a tal doença, por muitos confundida com depressão. Mas a tal maldita sensibilidade mórbida nele meteu os olhos mortiços e nunca mais o deixou em paz.
Um dia, feio para ele, feliz e risonho para outros, naquele dia irradiava uma luz linda vinda do alto, sendo o sol o responsável, o poetinha Tiãozinho, um Quintaninha caboclo, quando subia o morro agudo da roça onde morava, lugar que renegava, por vários motivos, entre os quais a falta de tempo e de se lerem poesias, já que a lida no campo não deixava muito tempo para devaneios sofredores, muito menos para curtir amarguras mal curadas, avistou, no meio de um capão de mato denso, uma linda rapariga, olhinhos puxados, pele morena, cintura da cor do pecado, que, ao simples avistar do jovenzinho poeta desviou-se do seu caminho, e desapareceu num átimo como fazem as seriemas assim que a gente passa perto delas.
De nada adiantou a procura ensandecida que o pobre infeliz Tiãozinho empenhou-se tanto em sua captura. Embora elazinha não fosse uma saracura de três potes, como se costuma dizer das tais avezinhas ariscas quando mais graúdas.
Dois, três, quatro longos meses se passaram. E nada de a moleca faceira dar as caras no alto do morro topetudo.
Dois anos depois, quase de mudanças para a cidade perto, de mala e maleta cheias com as poucas roupas que tinha, já desesperançoso de novo reencontro, eis que, num mês de junho frio, mês das festas juninas, no mesmo lugar de dantes, eis que surge no alto da colina a mesma menina, já moça feita.
Foi esta a primeira e única vez que o já rapaz Tião Sofrência pôde dar um dedo de prosa com ela. Foi este o rápido entrevero entre os dois: “A senhorita tem um minuto para me escutar? Não precisa ter medo de mim. Sou manso, sem maldade, nunca tive uma mulher no matel do mato, sou ainda virgem, tanto no signo quanto no sexo”.
A não tanto arisca moça, já não mais moça, havia perdido o melhor que tinha, não a ingenuidade, muito menos a formosura pura, que já era impura, quase uma mulher rameira, a ele respondeu sem tratos na língua gordurosa: “quer saber de uma coisa? Nunca o vi com bons olhos. Dizem, na redondeza redonda, que você é meio boyola, e vive a fazer versos, adora poetar e neca de dar no coro. Nem com uma égua cupinzeira, muito menos com uma novilha já entrada no cio. Pra mim você não passa de um sujeitinho nanico, um eunuco, um transviado, quase um leitãozinho capado, prestes a enfeitar a bandeja das festas natalinas com uma maçã na boca aberta. Escafeda-se do meu caminho! Amanhã mesmo parto rumo à cidade. Já sou prostituta de carteira assinada e papel passado. Tudo registrado no cartório dos defuntos vivos”.
A partir de então a vida do infeliz Tião Sofrência Sensibilidade Explícita mudou de vez. Nunca mais se ouviu falar dele, ou nele.
Até quando, diz o anedotário necrológico, que Tiãozinho foi visto estático no ponto da lotação vazia, toda enferrujada, que não ia a lugar nenhum. Sem saber se morto estava, quem lhe testemunhou os resquícios de vida, um velho urubu zarolho, que nem aguentava mais caçar carniça podre, atestou num papel encardido, os seguintes dizeres: “o pobre Tião Sofrência morreu de verdade. Morreu sem verter nenhuma lágrima. Secou tudinho em seu corpicho desprovido de carne. Neca de água dentro dele”.
Na frase lapidar do pobre poetinha Tião, via-se escrito: “por mulher alguma deve-se derramar lágrimas. Elas, salvo as mães, minhas e de vocês, e algumas exceções à regra, algumas poucas esposas, deveras, talvez sejam merecedoras de tais choros cheios de angústia e melancolia salina”.
Foi por este exato motivo que o poetinha Tiãozinho Sofrência tenha morrido sequinho da silva, embora seu sobrenome seja aquele que encima o título. Não vou repeti-lo de novo…