Sol e céu azul fazem parte do cenário deste final de outono que antecede o inverno.
Enquanto no sul faz frio, aqui, meio do país, um friozinho com pouco sabor de inverno apenas nos obriga a tirar do armário um reles agasalhinho de nada, uma blusa meio da estação, um moletom na parte da manhã, temos de desvesti-lo por volta do meio dia, ao descer de novo a rua em direção ao trabalho. Na cadeira que me olha sem me ver, do canto da enorme sala- consultório, onde um lindo aquário borbulhante, do lado esquerdo do meu computador, de costas para o notebook onde os romances são escritos, serve como cabide dos agasalhos variados, que ali esperam outro dia, para serem de novo levados ao mesmo local de onde foram retirados, os dois armários brancos, embutidos na parede do lado oposto da cama onde passo poucas horas durante a noite, pois, como disse antes, tenho receio das noites escuras, tempo perdido, não preciso de tantas horas de descanso, já que não me canso da vida. Ao revés, na quase aurora da minha existência, aos sessenta e sete anos, exatos, quase, em mais seis meses troco de novo a idade, embora ainda me sinta um jovenzinho menino.
Sol a pino, céu azul, andando fora dos ambientes fechados, fora das quatro paredes que em absoluto não me atraem a não ser para escrever, quer dizer uma coisa: sol brilhante, que nos ofusca os olhos, e a gente correndo, ou caminhando, tão somente, sob aquele brilho destemperado, ao mirar os olhos pra trás, quem nos acompanha? A sombra escura, velha e fiel companheira, a exemplo de outra sombrinha rasteira, a qual, ou o que, ou quem, recentemente comprei, pela bagatela de trezentos reais, mais as vacinas que um veterinário renomeado nele aplicou.
O meu novo companheirinho, digo “inho” agora, já que em poucos meses o tal “inho” vai se transformar em um “ão”. Sobre aumentativos e diminutivos já fiz uma crônica anteriormente. Ela versou sobre um peixinho do meu aquário de água doce, ele era de fato um doce, bonzinho, nadava como a si mesmo, e era da espécie Pacu. Como ele era ainda quase um alevino acabei por batizá-lo no diminutivo, já que quando ele ficasse grandão, o nome no aumentativo seria feio, para chuchu. Não preciso lembrar a vocês qual nome, terminado em “ão”, se fica feio ou não.
Hoje, sábado, dois dias antes do dia dos namorados, já que o dia doze cai na segunda-feira, muitos casais vão aos motéis amanhã mesmo, no máximo qualquer dia é dia de namorar, no escurinho do cinema melhor ainda, foi dia de ir à roça.
Fui mais tarde que o costume. Todos os sábados tomo café com o amigo que toma conta do meu pedaço de sonho por concretizar. Aliás, quem botou no nome de Fazenda em Fazenda o fez com notável acerto. Fazenda ou roça dá no mesmo. O prejuízo é equivalente. Como valentes são quem se dedica integralmente aquele negócio complicado. Levanta ao nascer da aurora. Que por sorte não é boreal. Toca as vacas pro curral. Enche o cocho que vaza o capim ou cana picada, todo remendado como a colcha de retalhos em que se transformou a barriga do sofrido compadre Januário, que, uma vez todo cortado, incisões enormes listravam-lhe o abdome em todos os sentidos. De norte a sul, de leste a noroeste, ou coisas e loisas gerais. A seguir, sem descanso, sem dormir direito por causa do pulo do gato que comeu todas as iguarias palatáveis na despensa, o rato mesmo salvou-se, tomado o café requentado da noite passada em branco, a melhor vaca do curral atolou até os chifres mochos no açudinho esconderijo da saracurinha esperta, que foge como a seriema do bicho papão que só existe nas cabecinhas pueris das criancinhas. As mesmas que acreditam que foi mesmo o lobo mau que comeu Chapeuzinho Vermelho. Nem pensem que fui eu.
Vou parar, para não engordar demais a crônica de agora de tarde. Caso fosse detalhar tudo que o homem do campo faz, não haveria tanto papel para imprimir tanta besteira.
Onde quero chegar, quando digo que hoje pela manhã acabei perdendo-me da própria sombra, acreditem se quiserem.
A sombra que me acompanhou na curta caminhada, desde a casinha onde meu cãozinho, da raça pastor alemão capa preta, ou policial, caso preferirem, à casa beira lago da represa do Funil, onde outra linda morada está prestes a me receber e aos amigos que quiserem. Não são obrigados a dizerem “muito obrigado”, desde que levem pelo menos o que consumirem. Ou a cerveja, que seja um bom vinho, pinga não, caipirinha sim, foi o tal “sombrinha andante”, batizado de Del Rey, em honra e glória a um amigo do LTC, consta na certidão de nascimento dele o nome verdadeiro Vladmir, filho do amigo das pernas tortas, notável professor de física da ex- Esal, hoje UFLA, Oliveiro, muito conhecido em todas as cercanias, por inspiração de outro sujeito gozador, o tal Guerra, que me apelidou de Iron Man, como se eu fosse capaz de correr uma maratona, pedalar mais de cem quilômetros, nadar no mar quatro longos outros, sem parar, sem direito a descanso, num tempo variável, que, caso eu fosse deveras um Iron Man gastaria um ano inteiro para percorrer tudo isso.
Fomos, Del Rey cãozinho pastor, eu na frente e ele atrás, ganindo, olhando-me com aqueles olhinhos negros, quase iguais aos do meu netinho Theo, só que os do meu neto são meio azuis. Na parte plana da estradinha curta a minha sombrinha canina, podem chamá-lo de Del Rey mesmo que o outro não se importa, o cãozinho filhote dava conta de me seguir, como uma sombra de verdade. Quando olhava pra cima o sol brilhava com sua amarelice trigueira, nenhuminha nuvenzinha branca no alto, apenas o azul predominava na sua azulice tagarela. E a minha sombra, a verdadeira, não o sombrinha cãozinho, de nome Del Rey, desaparecia na beira da estrada.
Assim fomos nós. Ora o sol brilhava, de vez em sempre o sombrinha Del Rey sumia no capim braquiária.
Ao final da manhã, por volta da volta da hora do almoço, a roça estava vazia, fora as vacas, porcos, galinhas, patos, dois perus, boi zebu, bichos do mato: seriema, paca, tatu, cotia não, demos de voltar a casa de nós dois. Deixei o sombrinha, batizado em honra da amizade que sinto pelo Vladmir Del Rey, amigo do Guerra do LTC e de tanta gente da prateleira de cima que malha por lá, na sua casinha improvisada, ao fundo da casa do pedreiro- verdureiro- faz- tudo, apelidado de Tião Canivete, marido da dona Bela, a sós na sua solidão, apenas atenuada por uma galinha recém feita mãe de dez pintinhos amarelinhos, que esbaforida protegia a sua ninhada com medo do cachorrinho filhote, não precisa repetir todo seu nome – Del Rey Sombrinha Rastejante Que Não Dava Conta de Me Acompanhar, ( DRSRQNDCDMA).
Depois, de volta à cidade, onde amanhã, depois de depois de amanhã, todos os dias da minha vida vou celebrar, com minha eterna namorada, a linda estilista Rosa, mais e mais formosa a cada ano que passa, agora, já quase seis horas da tarde, o sol desapareceu quase por completo, apenas uma nesguinha dele persiste no alto, acabei por perder por completo a minha sombra escura.
Mas nunca irei perder, tanto a companhia da minha Rosa mulher, nem dos meus filhos queridos, e dos filhos dos meus filhos, muito menos o meu amiguinho de apenas um mês e meio, cujo nome foi escrito por inteiro no parágrafo acima.