O segredo da namoradinha do Zé Bambuzinho

Há tempos idos mora, do meu lado direito, na mesa onde escrevo, do meu consultório, ao lado de objetos vários, tais como: canetas diversas, anteparo onde se guardam as mesmas, um porta-retrato onde está estampada a fotografia de uma linda garota, mulher feita, que há inexatos dez meses deu-me de presente, a ela e seu marido, um lindo pimpolho lourinho, meu amado netinho de nome Theo. Além de ali ficarem debruçados ao tampo da mesa de madeira nobre folhas de receituário, blocos brancos de papel, carimbo com meu nome e o número de um CRMMG bem antigo- 7711, um aparelhinho no qual se pode assistir a DVDs, que jamais foi usado, dois livros de autores recentes, um deles de minha autoria, o décimo quinto, (Mugido de Vaca e Cheiro de Curral) e o segundo escrito a quatro mãos por um jogador do Clube Atlético Mineiro, o grande ídolo dos atleticanos, Reinaldo, de nome “Punho Cerrado”, uma mostra em material plástico de como acontece o crescimento da próstata, dois enfeites antigos, desde quando me transferi de ali para cá, e, afinal, parece que a tal mesa está por demais entulhada de coisas e loisas, um notebook de boa índole e qualidade, onde escrevo romances e crônicas, quando em viagem para outros lugares longe de aqui.

Creio, com imensa credulidade, que o enfeite mais longevo que faz parte da decoração, um tanto de baixa inspiração, para os entendidos, trata-se de uma moita de bambus nanicos, bem verdinhos, trazidos de Washington DC, há inexatos tanto tempo, que acabei perdendo a conta de quantos anos foram. Eles estão frouxamente inseridos a um elefantinho de tromba empinada, feito em louça branca, tinta na cor da pastaria ao receber as chuvas de verão na face ressequida pela estiagem alongada.  O tal vasinho, obra de pessoas de olhinhos puxados e pele amarela, creio que chineses, mora num dos lados do enorme tampo da mesa há anos e anos vistos ao revés do calendário.  Alguns entendidos em decoração, com ou desprovidos dele, dito, coração, dizem ser de mau gosto tal coisa, verde por cima, colocados no âmago de um elefantinho da mesma cor.

São mais de trinta toquinhos de bambus, a maior parte cresce vertiginosamente rumo ao céu. Já os demais se contentam em ficar da mesma maneira com que foram comprados quando daquela visita à capital da América do Norte, numa esquina de pouco movimento, creio ter sido pertinho da Casa Branca, onde ainda vivia Obama.

Nunca precisei aparar-lhes tanto as folhas quanto os tais toquinhos de bambuzinhos naniquinhos. Quem entende de miniaturizar coisas verdes chamam a pequena moita de bambu de bonsai.

A conservação do verde redivivo das suas folhas e caules fortes reside em deixar a moita de bambu, ora a sombra, ora ao sol. E banhar as suas radicelas que teimam em querer sair de dentro do oco da barriga pouco profunda do elefantinho, com água fresca, tirada, melhor se fora da chuva, mas, como não cai chuva dentro do meu consultório a água da torneira, mesmo clorada, tem servido de alimento às raízes da linda moitinha de bambu pequeno, tornando-a sempre verde e saudável.

Um dos segredos assaz conhecidos do velho bambu, não apenas a capacidade deles de se vergarem, resistirem às inclemências do clima, como, a exemplo da minha moita de bambu, unidos como soldados de um batalhão, em ordem unida, naquela marcha como na parada de Sete de Setembro, para que ela sobreviva quase eternamente, embora nada conteste que a eternidade não dura para sempre, trata-se do fato de todos aqueles cotos verdinhos ficarem continuadamente atados por uma fita amarela, desde quando trouxe o vaso vivo da América.

Quanto ao garoto, o qual saiu do meu consultório inda pouco, depois de uma cirurgia de fimose no dia de ontem, na finalidade de retirar o curativo recente, ele estava muito bem de saúde, acompanhavam-lhe duas presenças ilustres.  A amável mãe, e uma linda morena, cabelos cacheados, lábios abatonzados em cores rutilantes que lembram o vermelho coração apaixonado, como em verdade se sentiam os dois jovenzinhos.

Na segunda vindoura, dia doze de junho, namorados, enamorados, amantes, maridos e esposas que não apenas toleram a presença um do outro bem como se amam apesar da idade, comemoram e o comércio lhes faz coro, o dia dos namorados. Que, na minha imodesta opinião, assim como o dia das mães, deveria ser lembrado em ações e carinhos todos os dias do ano. Não apenas na próxima segunda-feira, lembrada com jantares à luz de velas, beijos apertados, não aqueles feitos para ilustrarem cenas de cinema ou na televisão, com presentes, não precisam ser custosos, um simples cartão mal ou bem escrito cultiva ainda o carinho, já que a paixão terminou, o amor feneceu, o prazer de estar na cama, fazendo sexo, não mais sucedeu, nem com estimulantes sexuais. A ereção e o orgasmo ficaram apenas nas lembranças, de um tempo bom que se foi nas asas do vento e não volta mais.

Assim que os dois jovens deixaram o consultório, na véspera da hora do almoço, ainda refém da dor da operação recente, vi o sorriso do agora amigo depauperado, ao qual apelidei de Zé Bambuzinho, dar um longo e apaixonado beijo bem atado na boca manchada de um batom de cor indefinidamente linda da sua namoradinha, sob os olhares complacentes da mãe, e como ela amava os dois pombinhos!

Uma vez à porta do elevador, a tal máquina que sobe e desce sem nenhum reclame, foi que me passou pelas ideias o porquê, qual o segredo dos dois apaixonados namoradinhos?

Foi ela mesma quem me disse o dito, o qual passo adiante: “o senhor quer mesmo saber? Olha para a sua moita de bambuzinhos. Eles, tanto tempo vivendo atados, poder-se-ia dizer apaixonados, ao lado um do outro, como dois e dois são quatro, irão viver quase uma eternidade amando-se, em verdade. O segredo deles é a união. Estarem juntos para todos os toquinhos de bambus verdes é a razão da sua saúde plena. Caso o senhor vier a separá-los, desatar a fita amarela que os liga sempre, eles sucumbirão, sem nada que o senhor possa fazer, mesmo sendo um bom médico. Assim é a minha vida feliz ao lado do meu querido Zé Bambuzinho. Eu e ele, ele e eu, somos completamente enamorados um pelo outro. Caso alguém vier a nos separar, não sei o que vai ser de nós”.

 

 

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