Há males que vêm pra bem. Depois da tempestade vem a bonança. A seguir da chuva clareia o sol. Quando tudo vai mal nem sempre melhora. Nem sempre um adeus indica até breve. Quando a chuva cai quase sempre dentro de casa a goteira molha. Quando um amor termina a dor de cotovelo incomoda. A moda muda como a muda emudece quando deseja falar.
São citações muitas delas de minha autoria. Outras são copias das que já existem.
Mal se torna necessário quando não temos opção de fazer melhor. Diga-se de passagem: algo indesejável, desagradável ou prejudicial, que precisa ser aceito goela abaixo para evitar um resultado pior ou alcançar um beneficio maior. É um a escolha baseada na idéia de mal menor.
Música interpretada por Ney Matogrosso que começa desse jeito: “sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher. Sou a mesa e as cadeiras deste cabaré. E termina assim: “sou o certo sou o errado, sou o que divide. O que não tem duas partes, na verdade existe. Então esquece o que lhe fazem, nos bares, na lama, nos lares. E termina repetindo na cama, e não sei se ele acaba dormindo.
Seu Aristeu da dona Juliana, e de tantas outras fulanas. Tinha uma rocinha mal cuidada aqui pertinho, distante alguns quilômetros apenas da minha terrinha amada.
Ele, de mais idade, vendo a mocidade perto desde que fosse olhada pelas lentes eloquentes de um binóculo. Não tinha como zelar pelo seu pedaço de pasto sujo. Tudo aquilo, legado do seu pai que recebeu de seu avô. Se não carpisse o mato por certo seria um sarandi ou um matagal indevassável. Morada de onças e sucuris.
Seu Aristeu de repente se viu em um emaranhado de pepinos. Palavra também conhecida por problemas. E quem não os tem as dúzias?
Ele procurava a solução contra a dissolução e acabou soluçando soluços engasgados na sua garganta.
Não encontrava quem iria cuidar da sua gleba de terras desnudas.
Até que lhe foi indicada uma pessoinha esquisita e meia que morava um par de léguas da sua rocinha erma.
Não tinha outros nos arrabaldes. Era o único que talvez servisse.
Bateu na porteira do Benedito. Bendita hora foi aquela.
Benedito, mal dito nas cercanias, não acostumado a pegar pesado no cabo da enxada nem da foice. Atendeu seu Aristeu proferindo palavrões cabeludos. Entre eles pqp, vam, vtnfiofó, dentre outros sonoros iguais.
Enfim foi acertado o valor do pago por aquele trabalho das seis e meia até antes da hora do almoço. Mais que um salário mínimo por meio dia de serviço.
Na roça do Aristeu as tarefas se resumiam nisso tudo.
Tratar dos cachorros e limpar a casinha deles. Podar a grama antes que virasse um cipoal. Plantar e cuidar de uma horta de verduras. Formar um abobral que desse não somente abóboras e morangas. Zelar pelas árvores em crescimento e não cimentar seus troncos. Tratar da égua marchadeira e não e não levá-la ao cupim na intenção de fazer amor com ela. Limpar a piscina e não permitir que outros nadem em suas águas límpidas. Lavar a varanda avarandada ao redor da casa do patrão. Não matar passarinhos e sim retirar seus ninhos do telhado do alpendre que circunda a morada. Chegar bem cedinho e não sair antes da hora. E não fazer hora e trabalhar sem jogar conversa fora.
No primeiro mês Benedito fazia tudo certinho. Depois foi relaxando. Chegando tarde. Deixando os cães passando fome. A grama crescia tanto que acabou virando um matagal de esconder a Gal. E, não bastasse tanto, assim que seu patrão pisasse no recinto, Benedito falava tanto que Aristeu acabava em prantos.
Não tinha solução para resolver o pepino. Não havia outros pra cuidar daquele recinto. E ele tinha de tolerar o Benedito. Com suas imprecauções ditas de sua boca suja. Com seus maus costumes de trocar de mulher e de carro a cada ano. Sempre levando manta e catiras maus feitas. Dando desfeitas ao seu patrão que lhe dava tudo e mais algumas coisinhas.
Foi na tarde, quase noite de ontem, que nos encontramos. Bem conhecia seu Aristeu, meu vizinho de cerca.
Achei-o meio amuado. Preocupado a quem entregar seu refúgio beira lago.
Seu Aristeu não tinha mais paciência com seu meio empregado Benedito. Ele só lhe dava problemas cabeludos e barbudos.
“E ai meu velho amigo? Tá tudo como era dantes no quartel de Abrantes? Aquele Benedito que lhe indiquei tá dando certo no cuidar do seu recinto? Tá fazendo como combinado? Sei que você a ele paga mais que ele merece. Mas ele está cumprindo o prometido”?
Seu Aristeu, coçando a cabeça, por certo não seria por conta dos piolhos. Respondeu-me meio encabulado.
“Ah! Tenho de engolir sapos com suas rãs em companhia. Tenho de tolerar as esquisitices do Benedito. Ele é um mal necessário dentro das minhas necessidades.”
Verdade verdadeira. Caso ele dispense o Benedito não serei eu quem vai cuidar de sua morada.