A idade tem me ensinado

A vida é um eterno aprender.

Aos cinco fui levado ao jardim da infância. Uma escolinha pertinho de onde morava. De nomezinho nada parecido ao meu nariz. Que nada tem de arrebitado, pois minhas narinas enxergam pelos dois orifícios meu lábio superior.  Que serve de marquise a minha boca de pequeno porte. Felizmente não a tenho grande, pois se fosse, como sou um comilão. mais comida entraria e seria mastigada pelos meus dentões.  E seria fatalmente jogada ao andar de baixo. Não creio que meu estômago seja muito grande. Em contraste ao tamanho de minha barriga espichada.

Tanto escrevinhatório, em linguagem símile encheção de linguiça, para deixar escrito que o nome do meu jardim da infância era Narizinho Arrebitado.

Aos sete comecei a minha escalada, sem cordas para subir a montanha da vida. Sendo levado pela minha mãezinha querida, de merendeira às costas, a um colégio por onde agora passo ao cair das tardes. Dizem, com muita propriedade, aqueles que o conhecem e nele estudaram: “que a gente sai do Gammon mas ele não sai da gente”.

Foi nele que aprendi a ser gente. Uma gentinha meninote gentil. Atento aos ensinamentos dos mestres.  Que não tirava os olhinhos castanhos, tanto das pernocas roliças e moreninhas de uma coleguinha lindinha que assentava ao meu lado.  E quando elazinha cruzava as suas perninhas e mostrava que nada usava por debaixo da saia. Euzinho quase caía da minha carteira. Mas elazinha não me dava bola. Talvez por um singelo detalhe. Eu, quando jogava futebol era um verdadeiro perna de pau.  A bola redonda corria prum lado e eu ia direto ao lado contrário. Felizmente, voltando ao hoje e o agora. Troquei aquela bola de capotão por uma menorzinha a qual é jogada não com os pés e sim impulsionada pela raquete de tênis.

Continuei meu aprendizado vida afora sem levar desaforo pra casa. Não que fosse brigão ou valentão.  Sempre fui pequenininho.  Não um pintorzinho de rodapé que não carecia de escada para amarrar cadarço de tênis. Hoje meço metro e mucado. Não passo de metro e setenta se tanto.

Deixei o cientifico sem nunca pensar em ser cientista, no mesmo colégio hoje chamado pomposamente Instituto Presbiteriano Gammon.  Deixando pra trás lembranças e saudades.

Já morando na capital, foi pra mim de capital importância estudar no Colégio Universitário pertinho da reitoria da Universidade Federal das Minas Gerais.  Não tive sucesso no primeiro vestibular.  Não passei de prima mas não desisti de ser médico.  E nem sonhava ainda ser escritor (será que sou mesmo?)

Continuei meu aprender, depois de feito doutor sem a titulação devida pois não tenho doutorado nem mestrado. Mas me tornei especialista em urologia.

Uma vez médico continuei a aprender. Menos com os livros de medicina e mais com a lida e com os pacientes.

Aprendi, agora, mais experiente e quem sabe com mais sabedoria. Que não se deve tratar a doença propriamente dita e sim o paciente que vem com ela ao nosso consultório.

Aprendi mais a ouvir que abrir a boca e falar besteira. A não dar um diagnóstico sombrio que pode abreviar a vida do consultante. Sem antes saber o que seria melhor pra ele.

Aprendi a ter mais paciência embora a impaciência possa me dominar. A contar até mais de mil não parando nos dez segundos.

Aprendi a me dar bem com os jovens sem deixar os da minha idade falando de saudades e lembranças sem participar daquela prosa boa e amistosa.

Aprendi a não me ofender se falam bem ou mal de minha pessoa. Falem de mim pela frente, não pelas costas.

A idade tem me ensinado muitas coisas boas. As ruins eu deleto (palavra da moda, mas prefiro apago).

Espero que o tempo que me resta continue aprendendo. E possa ensinar aos mais jovens a nos respeitar, pois ainda temos muito a passar adiante.

 

Deixe uma resposta