Antes e depois

Verdade inquestionável essa.

Tudo nessa vida tem o seu antes e o que vem depois.

Antes, anos escorridos atrás, éramos criancinhas apenas. Depois de certo tempo nos tornamos gente grande.  Alguns mais naniquinhos.  Outros mais crescidinhos. Já eu parei pela metade.  Não cresci tanto como uma girafa. Nem ao menos fiquei da altura de um anãozinho que, com os seus pezinhos esticados. Pescocinho arqueado. Tronquinho espichado tentando alongar seu tamainho mal chegava a metro e mucado.

Mas pra mim não importa o tamanho.

Deixou um dito. Um inesquecível professor erudito: “a verdadeira altura de um homem se mede de cima dos sobrolhos até onde começam os cabelos. Um frontispício grande indica, na maior parte das vezes, uma grande estatura intelectual. O que deveria distinguir entre nós, seres ditos pensantes, embora muitos não pensem tanto, do resto dos animais tidos irracionais.

E eu acrescento ainda ao seu pensamento.

Se for desse jeito faço um parêntesis.

No meu caso. Que minha cabeça mais se assemelha a uma bola de sinuca. Com alguns pelinhos apenas nas minhas têmporas grisalhas. A minha testa é tão ampla como um campo onde pousam e repousam os aviões. Se for assim, como me ensinou o saudoso professor Sinval Silva. Eu teria a altura de um poste de estatura infinita, quase tocando o céu.

Chega de lero lero que eu também quero continuar esse texto de agora cedo.

Pertinho da minha rocinha, que agora cedo deve estar alegrinha devido à chuva que caiu durante a noite. Morava o Seu Arruda. Arruda é aquela planta arbustiva perene. Conhecida pelo seu forte aroma e usos medicinais ornamentais e culturais. Sendo também associada à proteção contra energias negativas.

Seu Arruda recebeu esse nome não devido ao seu odor característico. E nem ao menos dado ao seu porte magnífico.  E nem que ele tivesse efeitos medicinais e inspirasse proteção contra energias negativas. Ele sim, era negativo a tudo que lhe pediam. Era baixinho e obeso mórbido. E ainda por baixo do sovaco exalava um odor fétido de porco morto sem ser sepultado. Evitado até pelos urubus famintos que voavam por cima e não bicavam a carniça.

Seu Arruda era persona não grata. Era um ingrato que, quando seus pais envelheceram.  E ao seu filho deixaram como legado uma fortuna enorme. Quando eles dois estavam bem velhinhos. Quando mais precisavam de carinho e cuidados. Sabem o que Arruda fez?

Ao revés de deixar os pais morarem na própria casa. A qual edificaram com todo carinho. O ingrato filho único vendeu a morada dos pais e os levou a viver o resto dos seus dias numa casa de idosos onde morreram sozinhos.

Hoje o Arrudinha se transformou no Seu Arruda. Um sujeito de maus bofes que vivia a achincalhar as pessoas. Metido a besta que de fato era. Orgulhoso, pretensioso, vivia com seu olho gordo a cobiçar os bens alheios.

Desde cedinho Arruda ainda moço. Nutria por dentro uma ambição que se manifestava nos sonhos. Sonhava e ressonava fazer carreira na política.

Aos vinte e cadinho candidatou-se a vereador. Dizem por lá que ele comprou votos e foi eleito.

Mas não foi comprovada sua desonestidade e por isso Arruda não perdeu a vereança.

Tempos idos Arruda, mais velho e rico. Ladrão consumado e consumido pelo poder.

Queria avoar mais alto e se candidatou a prefeito da sua cidadezinha perdida no interior do interiorzão do Ceará.

Cafundó do Judas se chamava aquela cidade onde Arruda passou a mocidade e deixou o umbigo enterrado.

Às vésperas da eleição o candidato Arruda vivia afundando as botinas pelas ruas da sua amada Cafundó.  Permitam-me fazer um adendo. Antes ele nunca andava a pé. Sempre de carro alugado pois não tinha um.

Solícito e gentil Arrudinha subia num caixotinho e fazia discursos ocos atrás de um toco.

Prometia que, se eleito fosse. Iria tirar a taxa de luz e água de quem nele votasse. Que iria ainda asfaltar as estradas vicinais que já eram asfaltadas. As ruas da cidade seriam cobertas de pedrinhas de brilhantes para o amor dos seus concidadãos passarem. Se não chovesse na hora certa ele mandaria chover só na sua horta. E que iria distribuir picanha de graça e que nunca mais iria fazer trapaça.

Antes do pleito o candidato Arruda era um amor de pessoinha pura de igreja.

Passou a eleição.  Fecharam a boca das urnas pois elas comiam de montão e tiveram indigestão de votos nulos e brancos.

Imaginem quem venceu o pleito? Eu num votei nele não.

No dia seguinte à apuração não deu outra senão Seu Arrudão. Que saiu vencedor por um voto de um devoto da Santa Terezinha .

Antes, quando candidato ao cargo majoritário da sua amada e idolatrada salve salve-se quem puder e quiser Cafundós de onde Judas perdeu as botinas.

Arrudinha era só sorrisos. Prometia consertar a ponde que não carecia de conserto.  Jurava não afanar nada que não lhe pertencesse. Era pura amizade e solicitude.

Depois de eleito a prefeito imperfeito virou a casaca.

Assentado ao seu trono não atendia a ninguém. Não pagou a conta do telefone para não ter de falar com qualquer que fosse.  Na rua só andava de carro da prefeitura cercado de seguranças. Incomunicável até a próxima eleição.

Não é assim que acontece entre nós? Aproveitem o antes antes que venha o depois.

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