Hoje vi as minas chorarem

Vivemos em tempos de paradoxos.

Ao mesmo tempo em que veiculam na mídia a morte ou agressão a uma capivara. Noticiando esse infausto ocorrido como se fosse o assassinato de uma criancinha inocente.

Roedor funesto que na roça é tido persona não grata. Animal que se reproduz como coelho vendo a capivara fêmea parir cerca de quatro filhotes em média a cada cinco a seis meses. Para o qual não tem cerca divisória nem água que o segure. Bicho que mais se parece a uma ratazana de grande porte. Cujo carrapato que o parasita faz um mal danado à espécie humana. Tenho por mim que, quando se quer ofender a uma pessoa num momento de raiva ou desconforto. Não se deve xingá-la de vaca. Pois, pra meu entendimento as ruminantes não incomodam a ninguém. Pastejam bucolicamente a pastaria verde nesses tempos chuvosos.  Oferecem apenas amizade ao retireiro e leite branco mesmo saindo de uma vaca preta. Delas tudo se aproveita.  Do couro, depois de mortas, se fazem calçados.  Do berro sai o lindo som do berrante. E o chifre do touro enfeita a testa dos cornutos.

Outro paradoxo que considero dos mais graves é quando. Há tempos idos. Em visita a antiga cadeia aqui da minha cidade.  Graças ao bom direito que meu filho Stenio exerce ainda não fui preso ainda embora minha pena seja pesada quando a ocasião enseja.

No meu livro O Mundo das Sombras, que foi lançado em tempos idos na área da cadeia onde os detentos tomavam seu banho de sol. Cujo livro tive a honra de ser prefaciado pela excelentíssima doutora juíza que faz direito o direito. De nome Zilda qualquer sobre ilustre.

Naquele lugar lúgubre onde o sol entra e escapa por entre grades. Aprendi que colarinhos brancos e engomadinhos não esquentam cadeia mais que um ou dois dias. Conquanto ladrõezinhos de galinha amargam o gosto amaro do fel experimentando nos costados a dor da borduna do guarda.

Tanto por aqui, como por acolá, paradoxos são vistos ao lume dos dias ou na escuridão das noites sem lua.

Mas não é bem sobre isso que gostaria de deixar escrito.

Em boa hora foi bom me desabafar.

Estava com o grunhido das capivaras e a azáfama das maritacas entalados na garganta. E com tanta bandalheira que pensando bem pra mim não é besteira e pros outros pode ser.

Sábado é dia de ir pra roça. Já fui correndo até lá e agora vou de carro.

A minha rocinha prejuizenta nunca deu lucro. Foram mais de trintanos levando pra lá sacos e outros de ração a dar as vacas.  Era um retireiro a cada ano. Cada um mais enganador que eu mesmo.

Levava manta dos meus vizinhos. Fazia cada catira danosa que minha mulher se punha em polvorosa. Quando a ela dizia: “Rosinha querida. Comprei a melhor vaca do Geraldo da dona Nega. Segundo ele me disse a tal Braúna da trinta litros de leite frio gelado na primeira ordenha. Na segunda ela chuta e derrama o leite do balde do compadre Garibaldi”.

A minha Rosinha bravinha já sabe de supetão que eu não entendo nadica de nada de vacas nem de bois. E acaba sustando o cheque que dei ao Geraldo na maior boa fé.

Agora, nessa visita de hoje a minha rocinha querida. O arrendador das minhas terras se mudou pra outras terras.

Assim que cheguei ao meu lugar ao qual chamo de paraíso. Mais liso que bunda de nenê depois do banho e receber na poupança um talquinho cheiroso.

Fui andando, lucubrando, quase ficando insano. Levando nas mãos uma sacolinha de ração a dar aos meus cavalos.  Deixando meus amiguinhos Clo e Robson presos no canil para não incomodarem os equinos.

Antes passei pela casinha do meu ex retireiro Custodio Noticia Ruim.  As boas ele não me dava. O que me incomodava muito.

Depois de dar ração à Felicidade, minha égua pampa de pura marcha trotona. E vigiar para que meu cavalinho Malhado não se atreva a comer a dela.

Dei uma passadinha na casinha singela do Custódio e outros que nela moraram.

Afundei minha botina numa aguinha que merejava de uma mina morta.

Aquele charco alagadiço mais parecia um brejo da esperança morta.

Dantes ali não brotava água da mina. Talvez seja por que pertinho dali furei um poço artesiano.  E o danadinho do água sugador tenha bebido toda água ao derredor.

Há tempos idos as minas d’águas secaram.

Já hoje, durante a minha visita a casinha do amigo Custódio. Graças ao bom paizinho do céu hoje não tive nenhuma noticia ruim.

Hoje cedo vi as minas chorarem água límpida e cristalina.

E dos meus olhos eclodiram gotas d’águas salinas.

Pode parecer um paradoxo. Nas não é. Foi choro de verdade…

 

 

 

 

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