E como dói…
Até hoje não me acostumei a esse ir e vir. Bem me lembro da minha pequena jornalista, hoje mãe dos meus dois netinhos. Quando ela ia ao Rio de Janeiro, cidade que até hoje ela ama tanto, a fim de completar sua formação jornalística. E ela me dizia: “meu pai, não chore. Logo estarei de volta.” Mas assim que aquele busão, que eu chamava de ladrão de meninas, partia da rodoviária e via elazinha abanar as mãos daquela janela que mal se podia ver a sua pessoinha, não continha as lágrimas, que escorriam em cascata pelo canto dos olhos.
Aquela despedida me doía muito. Mas o tempo me mostrou que outras aconteceriam.
Tempos antes, quando meu pai fechou os olhos, para sempre, não para acordar no dia seguinte. Doeu-me muito a sua partida. Sei agora que ele está junto a minha mãezinha no céu a orar pelos seus filhos. E sempre que deles preciso eles não se furtam a me ajudar.
Despedidas me causam não apenas constrangimento. Assim com me faz doer por dentro. Uma dor como se um punhal de lâminas afiadas ensartasse-me meu coração pulsante.
Tempos se vão desde que nos conhecemos. Fui seu padrinho de casamento. Vi seus filhos crescerem como se fossem meus. Fui testemunha presente desde quando ele trabalhava numa fazenda fronteiriça a minha. Vi o quanto ele sofria os efeitos dos venenos usados no cafezal. Conheci de perto a sua idoneidade moral e sua capacidade laboral. Quantas vezes ele me ajudou nas dificuldades. Ele nunca se omitiu quando mais precisava de ajuda.
Hoje faz doze anos que ele, meu amigo de todas as horas, nas boas e nas piores, enfim a ele arrendei as minhas terras. Ainda me lembro de quando meu amigo me pagou um preço justo pelas minhas vacas. E delas viveu até os dias de agora. Ele sempre me dizia, quando pagava o aluguel de minha propriedade: “não me importa o lucro. Dando pra comer é o que me basta”.
Tempos se foram, infelizmente ele conspira contra mim.
O que foi bom enfim está por terminar. Meu amigo Betão, o Roberto da dona Lúcia, progenitor de quatro filhotes parrudos: Lucilene, Lucimara, Carlinhos e Binho, parece que se cansou da atividade leiteira. Se alguém merece descanso ninguém melhor do que ele.
Hoje, pela manhã, recebi a infausta noticia de sua despedida. Ele e família vão se mudar.
Ainda bem que sua mudança não vai ser pro céu como meus pais. Ela vai ser sentida. Com o mesmo sentimento de quando minha pequena jornalista ia ao Rio de Janeiro. Dizendo, com sua carinha de tristeza, da janela daquele ladrão de meninas, partindo da estação rodoviária prometendo voltar em breve.
Nessa manhã não contive a emoção. Fui às lágrimas incontidas. Parece que ele também chorava por dentro.
Despedidas doem muito. Não consigo suportar tanto sentimento.
Ainda melhor que meu amigo Betão vai se mudar pra pertinho. Dos meus olhos e mais perto ainda do meu coração…