Vocação pra santo

Inúmeras vocações existem.

Assim como diversas profissões pululam por ai.

Somos vocacionados para tantas coisas inclusive para nada fazer.

A palavra titulo vocação quer dizer chamamento, inclinação para um propósito na vida, carreira ou missão, uma aptidão nascida desde a infância. Quando aquele menino tem entre seus folguedos preferidos brincar de médico com a vizinha. Devestindo-a todinha, examinando-a da cabeça aos pezinhos, não deixando de fora o primeiro sutiã dependurado no cabide. Dessa maneira nasce um médico, que por certo não vai ser ginecologista e nem urologista, por já conhecer desde cedinho os órgãos a serem examinados. E se sentir enfarado de tanto mexer nessas áreas insalubres.

Uma nobre vocação, na minha estulta opinião, quando um jovem decide por sua própria conveniência e propósito abraçar a carreira eclesiástica. Tornando-se padre com um futuro religioso subindo degraus acima até se tornar bispo e mais além quem sabe se mudar pra Roma onde o papa reina soberano no mundo cristão.

Não restam dúvidas que vocação é um chamado de Deus a uma determinada pessoa. Assim creio eu.

Ontem tive de dar uma passadinha, a fim de provar que ainda estou vivo, numa unidade de atendimento integrado, instituição meritória do nosso Estado.

Local aprazível e bem situado fronteiriço a uma pracinha que abriga uma igrejinha.

A esse UAI já havia ido antes a fim de fazer a mesma coisinha.

Fui tão bem atendido que me forçaram a voltar.

Essa tal prova de vida tem pra mim um sabor amaro. Se a gente está morto não temos de provar. O nosso defunto ai está pra comprovar.

Tive de fazer um agendamento prévio antes de comprovar a minha permanência entre os vivos. Se estivesse mortinho da silva não teria um sobre Rodarte de Abreu.

Como sempre tive de esperar a espertinha mocinha que cutucava o computador a fim de agendar os atendimentos.

A minha frente uma fila de mais ou menos uns vinte eram atendidos cordialmente por uma quase meninazinha de óculos e uniformizada lindamente.

O primeiro da fila queria renovar sua carteira de motorista. E ela educadamente explicava ao pretendente à carteira de habilitação que deveria ficar assentado confortavelmente a uma cadeira logo à frente.

O segundo repetiu a mesma ladainha. Só que não sabia falar português, pois era de outro país. Tive de entrar na prosa, com meu italiano mafioso, a fim de ajudar a mocinha a ajudar o freguês.

O terceiro, um pobrezinho que por ali passava, não queria outra coisa senão uma ajudinha para tomar seu cafezinho. Fui eu, mais uma vez que lhe deu uma moedinha para satisfazer seu gosto.

O quarto foi mais ou menos assim. Ele pediu a mocinha de óculos para ajudá-lo a encontrar seu caminho. Já que ele estava perdido e não sabia que rumo tomar. Elazinha, coitadinha, com um mapa na mão saiu do recinto e lhe mostrou pra onde ir.

A partir do quinto ela quase os mandou pros quinto dos infernos.  Já estava descabelada e descalça de tantos pentelhos azucrinarem-lhe a paciência que acabou perdendo seus poucos cabelos.

Por fim dos finalmente chegou a minha vez. Só queria agendar minha prova de vida e mais nada.

A diligente e inteligente mocinha vestidinha com o uniforme do UAI respirou fundo com sua bombinha de inalação. E me deu permissão de subir ao segundo andar. Tive sucesso em provar que ainda estou vivo. E saí dando os parabéns àquela quase menina, que ainda de pé ajudava a um monte de pessoas no seu agendamento.

Agora aqui estou como de rotina costumeira. Pensando naquela mocinha de óculos, sempre de pé, enfrentando uma fila enorme a cata de agendamento naquela instituição estadual.

Certamente ela tem uma vocação especial. Além de boa funcionária do UAI ela é vocacionada para santinha protetora dos sujeitos pretendentes a alguma coisa, que no meu caso foi provar que ainda vivo.

 

 

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