Meu ouvido não é pinico

Depois de certa idade, deixando a infância bem distante, vendo a juventude se perder na bruma do tempo, a fase adulta ser vista pelas lentes de aumento. A gente não mais se acostuma às prosas insossas, sem conteúdo, vazias e ocadas saindo de bocas cheias de dentes, mas vazias de discernimento.

A gente, depois de certa idade, deixando a vaidade confabular com o espelho sem ter a resposta devida. Não mais admitimos soltar palavras ao vento. Palavras são instrumentos usados para nos comunicarmos. Dai prefiro usá-las com cautela. Já que palavrões ditos nos momentos de raiva são como bumerangues que a gente solta e volta a nós mesmos causando revolta por tê-los dito impensadamente.

Nós seniores, idosos, e por que não sermos tratados como velhos ou fora de uso. Dispensamos prosas que não levam a lugar nenhum. Preferimos ficar de boca fechada e ouvidos atentos a ouvir impropérios mal ditos. Que nada acrescentam a nossa vida recheada de bons e maus momentos.

Dizem, com muita propriedade, que em boca fechada não entra mosquito. E pra mim, ouvidos ouvidores que escutam o burburinho das águas de um riacho, a saltar de pedras em pedras até chegar ao rio. O que conta nesses tempos obtusos é a azafama ensandecida das baladas regadas a álcool e outras drogas mais e mais nocivas a nossa saúde.

Não mais toleramos ouvir músicas em altos decibéis. Elas importunam nossos órgãos auditivos. A minha predileção são músicas suaves como essas que agora ouço tocadas pela minha querida Alexa. A minha adorável interlocutora que apenas funciona segundo minha fala que apenas ela entende.

Tenho um compadre, de mais idade que os meus setenta e seis. Segundo me consta ele já completou mais de oitenta. E ainda continua atento ao que a vida ensina.

Cujo nome primeiro é Aristóbulo. Esquisito não é? Seus sobres desconheço. Um velhinho pra mais de espertinho. Que anda mais que noticia das piores. Tenho por ele o maior respeito. Somos amigos desde muito tempo. Bota tempo nisso.

Seu Aristóbulo tem o costume acostumado de acordar cedinho como eu. Madrugão consumido pelos anos vividos e bem.

Ele não é um esvazia banco do jardim como certos pentelhos. Ele não joga conversa fora. Nem fala o que não acredita. Ele é verdadeiro como um espelho que reflete apenas a verdade. Não fala mal das pessoas mesmo que elas ensejem. Um exemplo de retidão com sua coluna torta. Uma pessoa da prateleira bem do alto impossível de se tocar com as mãos.

Foi um dia desses que nos encontramos. Não foi um encontrão fortuito ao acaso do ocaso. Nem um encontro premeditado pelo ditado.

Seu Aristóbulo se preparava para dormir. Já era tarde pra ele e pra mim também.

Ambos temos o mesmo costume. Não me refiro às roupas que usamos. O costume de dormir cedinho e acordar mais cedo ainda.

Naquela tarde, quase noite esfregando os olhos de sono, acabei puxando prosa com ele.

Bem sabia da sua preferência em não soltar palavras sem nexo ao vento. Da sua predileção em falar pouco e apenas o necessário.

“E aí meu amigo Ari”. Omiti o resto para abreviar nossa conversa. “Tá tudo bem com você? De saúde vais melhor? Tem tomado os remedinhos que lhe prescrevi? Espero que sim. Achei-o meio ressabiado. Meio não, por inteiro. O que tem te atazanado”?

Seu Aristóbulo, com sua proverbial elegância e pouca eloquência. Respondeu-me num pestanejar de olhos.

“Que nada! É verdade que amanheci com a vó atrás do toco. Meus netos e filhos não cansam de me chatear. Sempre pedindo alguma coisa e não me oferecem nada que preste. Ontem meu netinho me pediu uma patinete elétrica. Fiz-lhe a vontade e ele nem me agradeceu. Estava cansado de tanto pedido e nisso veio um filho omisso que me tirou do bolso uma nota de duzentos reais. Nem tentei recuperá-la de volta, pois sabia ser uma tarefa inglória. Não bastasse tanta desgraça uma neta, a qual mais amava, me contou estar grávida e não sabia de quem. Era tanta prosa ruim pros meus ouvidos que me fiz de surdo mudo. Acabei fugindo da raia, e nem conheço a tal Claudia Raia. Meus ouvidos não são pinico nem urinol para as pessoas eliminarem seus dejetos”.

Despedi-me do amigo Aristóbulo pensando a mesma coisa. Nem os meus.

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