E se eu fosse…

A gente, quando criança, deseja e sonha com tantas coisas.

Qual caminho seguir ainda não nos passa pelas ideias. Longe está de escolhermos qual profissão nos encaminharmos.

Uma vez jovenzinhos, imberbes impuros, só nos preocupávamos em conquistar aquela linda garotinha de cabelos cacheados, de pernas grossas e sorriso açucarado. Que, ao cruzar as pernas provocava um pandemônio na turma toda. E elazinha não se apoquentava em mostrar que não usava calcinha. Já que de pudica ela não tinha nadica de nadinha. Mais rodada na cama que gato escaldado n’água quente.

Já no mais tardar dos anos. Profissão já escolhida, família constituída, filhos ainda nos costados fortes do zeloso pai. Não devemos nos esquecer da mãe coruja. Que acha os filhos os mais lindos desse mundão enorme os quais somente ela imagina na sua fértil imaginação.

Depois de muitos anos de escravidão ao trabalho. Sem ganhar o suficiente para ter uma aposentadoria condizente ao seu valor.

Eis que chega àquela hora de mandar tudo à merda. E tentar mudar de vida já que tudo aquilo que conquistamos foi engolido pelos anos. E, em nossa profissão somos substituídos pelos mais jovens que pensam saber tudo e desconhecem o mais importante. A nossa experiência ajuntada no escorrer dos anos. As pessoas que ajudamos. E a beleza dos nossos cabelos brancos.

Jamais pensei ser tão conhecido em nossa cidade.

Não somente pelo médico que sou e ainda penso ser por muitos anos mais.

E também pelas letras que ajudei a formar palavras. E pelos tantos livros que já publiquei.

Se contar ainda as crônicas escritas elas juntas perfazem mais de vinte mil.

Foi num dia desses o acontecido. Estava na minha casa beira lago cercado de pessoas muitas desconhecidas.

De repente chega uma senhora com seus dois filhotes. Simpática e sorridente nos demos de mãos. Não a conhecia e somente agora fomos apresentados.

Apresentei-me com meu nome seguido de um sobre.

Sou o Paulo Rodarte. Soneguei o Expedito e o Abreu.

Ela, efusivamente apertou-me a mão e disse: “quem nessa cidade não conhece o doutor Paulo Rodarte”?

Eu mesmo não me conhecia bem. Já que tenho dúvidas sobre qual dos dois Paulos ela se refere. Se ao médico ou ao escritor.

Nos meus setenta e seis anos completos em dezembro perto nunca pensei em ser candidato a um cargo eletivo.

Política nunca foi meu prato predileto. Sou avesso a politicagens. Voto por ser obrigatório. Nunca me omiti em deixar meu voto nas urnas. Se votei na pessoa certa acertei. Se errei me penitencio.

Penso ser um tanto tarde para me lançar candidato. Não sou filiado a nenhum partido. Sou filho sim de Paulo José de Abreu e dona Rute Rodarte de Abreu. Ambos hoje moram no céu.

Se tivesse de escolher uma sigla partidária qual seria? Das tantas que existem não seria nenhuma delas.

Daria um nome a ela. Partido dos médicos jubilados (PMJ). Ou melhor ainda. Partido dos escritores sem leitores (PESL). Ou então: partido dos desafetos com o regime (PDDCOR) nome muito longo e difícil de guardar. Melhor seria: partido daqueles que não gostam de política (PDQNGDP) mais um inapropriado.

Se eu fosse candidato não teria partido. Ficaria aqui mesmo na minha cidade e não me candidataria a deputado.

Se fosse candidato a vereador pensaria não apenas no meu bolso. E sim no bem estar dos meus concidadãos.

Se fosse candidato a prefeito seria imperfeito no cargo. Não sou de dar tapinhas nas costas e nem dar bons dias com chapéus alheios.

Se me candidatasse a governador não iria morar num palácio. E sim num apartamento modesto pago com meu próprio salário.

Se fosse candidato a senador o senado seria uma anarquia.  Como presidente da casa não iria dar a palavra a quem maltratasse nosso escorreito português.

Se porventura de uma desventura fosse candidato a presidente não iria viajar tanto. Viagens dão despesas ao nosso amado e empobrecido pais.

Depois de tantas conjecturas imaturas acabei declinando do meu desejo de me candidatar.

Não sei se meus leitores poderiam se tornar meus eleitores.

E eu lhes peço: “por favor, encarecidamente. Não votem em mim. Prefiro continuar assim mesmo. Um médico escritor que jamais pensou em ser candidato. E sim alguém que escreve o que pensa e não desejo que pensem igual a mim”.

 

 

 

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