Petronildo da Ojeriza Qualquer Coisa.
Para simplificar esse nomão assaz complicado. Que poucos entendem e confunde o entendimento dos menos letrados. Resolvi renomeá-lo de Ainda Bem.
Expressão que denota uma sensação de alivio, de estar de bem consigo mesmo, felizmente, que bom, não poderia ser melhor, graças a Deus, usada e bem como gratidão por ter conseguido uma graça e não uma desgraça. E por aí vamos seguindo adiante, para não esticar tanto o meu verbete. A essa estória que no dia de hoje, terça feira de carnaval. Feriado nacional. Aqui deixando escrito nessas bem traçadas linhas. O quanto me incomoda ficar na minha cidade amada, nomeada Lavras, como me faltam palavras para descrever o quanto tenho ojeriza pela folia momesca de então. Tão distinta dos bons tempos idos. Quando a gente brincava cheirando lança perfume. No máximo um pilequinho tomava conta de nós. Que bem acompanhados de nossa namoradinha. Ao chegarmos a casa delazinha. Meio encabulados por ser tarde da hora. O pai da moçoila nos recebia de mal grado. E não bastante tanta desfeita de nossa parte, ainda vomitávamos no tapete novo da sala. E éramos intimados a dormir ali mesmo sentindo o odor nauseabundo de nosso fedor vomitado.
Ainda bem que estamos quase no ocaso do descaso do carnaval que fecha as baterias na quarta feira de cinzas.
Melhor pra mim e não sei se pra vocês ocorre o mesmo.
No carnaval prefiro me esconder no mato mesmo tendo carrapatos para coçar.
O meu amigo Ainda Bem pensa o mesmo.
De mais idade, ele não esconde a idade. Já completou quase um centenário.
Foi-se o tempo da sua juventude. Da infância ele perdeu a conta e não conta mais.
Ainda Bem se encontra isolado na sua rocinha erma. Ali quem chega não tem de fechar a porteira, pois ela sempre está aberta.
Foi no sábado passado que nos encontramos. Já era bem tarde, quase noite baixa.
Ainda Bem me recebeu com um apetitoso cafezinho coado na hora. Fiz que não quisesse, mas mesmo assim entrei porta adentro.
Chovia mansinho naquela tarde cinzenta.
Já era hora passada da hora de Seu Ainda Bem se recolher ao seu leito.
Entrei pela porta da cozinha. Naquele dia faltou luz nos arrabaldes.
Uma lamparina alumiava o ambiente. Do lado de fora da casinha tosca pirilampos ajudavam a iluminar o entorno.
Seu Ainda Bem me pareceu muito bem. Melhor que eu com meus setenta e seis.
Nossa prosa foi curta. Seu Ainda Bem não era de jogar conversa pela janela.
“Como tá tu”? Murmurou entre dentes que não tinha Seu Ainda Bem.
“Eu num pudia tá mior”. Falei numa linguagem linguaruda que ele entendia.
“Ah, tá tudo nos cunformes como tatu gosta. E voismecê? Ainda tem voiz pra cantar no carnaval? Eu tô aqui quetinho esperando a poeira assentar. Não no meu assento onde minha bunda fica. Tô doidinho pra fulia caba. Rezo pra amoitar quarta feira de cinzas na parte da tarde. A partir das quintas o ano parece que vai cumeçá. O que tu acha”?
O seu Ainda Bem terminou com essa.
“Ainda bem que o carnaval tá quase no fim, num é”?
Não carece dizer que penso iguarzinho a ele.
Mió num pudia ser.