A seca castiga com sua enorme língua de fogo todas as cercanias onde morava um bando de gente nascida e criada na roça, nos sertões do norte das Minas Gerais. Desde os tempos dos ancestrais mais longevos não se assistiam a tal desgraca. A última queda de água em pingos nascidos no céu, formados em nuvens cinzentas, deu as caras chorosas há tanto tempo, longos anos se avistaram pela folhinha do calendário, que, os mais vividos, nascidos naquelas plagas apenas visitadas por gente conhecedora daquelas estradinhas esburacadas, quando chovia em verdade tornava-se um atoleiro verdadeiro, onde até mesmos os carros de bois atolavam, as carroças puxadas por mulas acostumadas às lidas duras do campo, conceptos fetais nascidos com problemas de personalidade, crias da concepção de égua com jumento, seres de espécies distintas, bastante procuradas por quem precisa de cavalo de tração fortes e facilmente adestrados à lida, cada mula nova, já preparada para a monta, muitas são boas de montaria, melhores com o arado puxado por elas mesmas, não se abatem frente ao trabalho duro, a exemplo de muita gente que se diz boa de enxada ou de foice, no entanto, assim que o patrão lhes põe a mão tais coisas afeitas às lidas do campo, logo simulam carpir, um reles ato de encenação, quando o outro, no entando, entretanto, assim que o chefe vira as costas tais instrumentos em desuso se tornam peças de museus, e acabam por se verem eternamente encostados num canto qualquer, a salvo das mãos caludas dos verdadeiros homens da roça, mais e mais em extinção. Entre tais fósseis antediluvianos incluo o personagem dos retireiros, os quais, quando experientes no espremer as tetas das vacas pedem como salário mais de mil litros de leite ao dia, uma vez que a produção total do retiro mal chega aos míseros duzentos, mesmo assim, quanto todo o plantel traz o bezerro ao pé, na máxima produção do rebanho de apenas trinta animais. Fora os que esperam impacientes a chegada da cria nova, saída de repente de uma matinha singela, pois vaca quando pare deposita a cria, quando ela não entala, num recôndito abrigo de uma sombra fresca de uma árvore, seja amoreira velhusca, fosse um lindo jacarandá abatido à moto- serra, às escondidas da polícia ambiental, sempre de olhos abertos nos lenhadores desavisados, sem a devida licença para retirar paus de tanta serventia nos ares da roça.
Esse molequezinho nascido e criado e bem, naquele pedaço de pasto sujo, cheio de pragas, as quais, uma vez removidas à roçadeira que dá um trabalhão danado a sua manutenção, quantas e incontáveis vezes teve de ir parar na oficina da cidade longe, fazendo perder um tempo precioso ao dono do curral cheinho de ruminantes incapazes de não apenas tratar das vacas, deixar nascer um reles gabiruzinho, como seria bom se ele fosse elazinha, uma linda bezerrinha filha de pais de proveta, e essa cria nascida numa malfadada madrugada, num bosque distante do curral, onde a mãe vaca tenta proteger a cria dos predadores naturais, entre eles os gaviões comem pintos, os urubus à espera de a carne fresca cheirar podre, e, o mais vil dentre todos, o homem que se diz dono dos animais, quando no entanto ainda não sei qual o dono de quem. Se a vaca é propriedade do dono da vacada ou se acontece em verdade o revés.
O estoico e valente jovenzinho, clarinho como nuvem sem sinal de chuva, ao ver a roça de milho plantada há exatos três meses sentindo a falta de chuva, via, de olhos desconsolados os pezinhos de milho enrolarem as folhinhas ainda verdinhas, dento em pouco, caso a chuva não desse as caras pinguentas todos correrão o risco de verem a safrinha se perder completamente, tudo aquilo, fruto de não apenas muito trabalho,assim como de não conseguir pagar o empréstimo ao banco perdulário, e ter seu pedaço de chão com muito a fazer ser tomado pelas dívidas não pagas no tempo certo e o tempo ruge como um leão faminto ao ver a caça tão cobiçada escapar-lhe das presas afiadas, quando quem faz o serviço é a rabugenta leoa, que ataca em bandos pelas savanas africanas, depois de uma perseguição implacável quando entre vencedores e vencidos passa a ser um jogo de xadrez sem reis, peões , cavalos, e rainhas ou reis.
Esse jovem rapaz, aos cinco apenas soube-lhe o mominho, que era Paulinho, como apelido, na escolinha rural, depois transferida a uma cidade perto, de Piupiuzinho, dado ao tamanho pouco avantajado de seu instrumento que dava um trabalhão para verter urina, já que exibia na parte final do pênis uma pele comprida, conhecida por bico de lamparina apertada, o orifício uretral mal se deixava ver, precisava ser operado com certa urgência urgentíssima, e o sistema único de saúde não lhe deixava perspectivas para que tal acontecesse. Afinal, assim que o novo alcaide municipal mudou o secretário de saúde para um entendedor do assunto, sabia bem diferenciar entre hemorroida, para o proctologista e a próstata para o especialista o qual ainda sou, e vou continuar até meu forte coração ao invés de bater passar a apanhar, de eu tiver de morrer, o garoto Paulinho se viu livre do incômodo bico de lamparina, a sua fimose apertada pela vez primeira permitiu à sua glande ver a luz do sol.
Como a entressafra acabou durando mais do que as previsões mais otimistas, a garota moreninha escura do tempo dizia, no jornal Nacional, que, segundo as previsões da errática meteorologia o final de semana seria de chuvadonhas grandonas, que os rios iriam se repovoar de águas barrentas, se tornariam outras vezes piscosos. Mas, depois que a família desesperançosa do Paulinho Piupiuzinho pouco desenvolvido, mesmo após a pseudo – salvadora operação de fimose, realizada via SUS, percebeu que das nuvens cinzentas não desceria água do céu cinza, apenas e tão somente alguns pinguinhos trôpegos iriam ao chão seco da rocinha de milho carente de chuva, mansa seria uma panaceia às suas agruras sedentas, o que teve a infeliz ideia de deixar acontecer.
Durante uma tarde quente, era final de outono, começo de inverno, nenhum indício de pingos de chuva davam o ar de sua desgraça, Paulinho do Piu-Piu do jeito que estava, não mais cresceria nem com reza macia, assim que alguns deles se desprenderam das nuvens não mais da cor de algodão branquinho, o jovenzinho começou a juntá-los, um a um, dois a dois, passou dia e noite naquela tarefa inglória, até conseguir, com os pingos caídos, abastecer três carros pipas, os quais, gotejantemente acabaram por inserir vida nova à safrinha de milho quase perdida.
E, foi graças a enorme bacia de latão esmaltado, onde costumava se banhar, uma vez de banho tomado, não foi feito uso e muito menos desuso de qualquer sabão, na sábia intenção de macular a safrinha de milho novo com os restos de sabonete, daí a menos de dois curtos meses o milho picado seria transformado em rica silagem, enfiado e amassado num buracão em forma de retângulo, a ser servido, meses depois como comida às vacas baldeiras, cada vacona a qual fornecia ao tanque de expansão mais de quarenta litros frios, que, somados aos mais de mil, davam conta de engrossar a renda da família do garotinho de nome Paulinho, em mais de dois mil reais após o mês fechar os dois olhos de cansaço, depois de exaustivos trinta dias, que se desdobravam em muitos mais.
A bacia onde o menino Paulinho ajuntava os pingos da chuva existe ainda hoje, não somente na roça da família dos da Silva, bem como espalhadas por este país afora, o qual denominaram Brasil. Pena serem os pingos, tão somente eles, os mais rarefeitos. Melhor seria se assim o fosse a corrupção desenfreada, as politiquices do toma lá volta ao mesmo lugar, as propinas sem hora de serem julgadas ou terem um fim. Tomara breve, em boa hora…