Debalde

Um sol frio tenta aquecer a manhã do dia de hoje. Ao deixar a casa fazia cerca de doze graus Celsius. Que agora, quase nove da mesma manhã, o tal termômetro, que de onde estou não se deixa ver, deve estar apontando quase ou mais de vinte graus.

Estamos em pleno outono. O inverno ainda não mostrou a cara fria. Deve esfriar ainda mais a partir de 21 de junho. Mês das festas juninas, dos chapéus de palha, como se a cidade se tornasse roça, as vaquinhas mansas aqui pastassem o capim brotado no asfalto duro, como se fosse possível tamanha sandice do autor que lhes escreve um tanto tarde para os padrões normais. Como de costume, assim que adentro ao meu consultório, por volta de bem antes das sete, ligo os dois computadores, um defronte ao outro, no qual escrevo agora nascem e renascem crônicas, noutro, mais antigo e portátil, ficam gravados os romances longos demais para terminá-los em apenas menos de uma hora fugaz. Como seria bom lançar um livro a cada dia!, pena não existirem compradores, muito menos leitores para tantas palavras, letras perfiladas, páginas e mais delas enumeradas uma a uma, terminadas em capas lindas, estas não sei deixá-las prontinhas a fecharem a boca do livro novo, esse encargo deixo às editoras, aqui na minha cidade moram algumas maternidades onde se nascem livros e não meninozinhos e meninazinhas chorões e choronas, e, seu eu pudesse, a exemplo do que minha mãe fazia, ela comprava dez ou mais livros meus, como se fossem adquiridos por pessoas estranhas, e os repassava adiante, presenteando amigas com livros meus. Eu, caso rico fosse, um milionário de posses infinitas, construiria em cada esquina da cidade, não apenas na minha, milhares e incontáveis gráficas, e obrigaria a todas as crianças, adultos, anciãos, que de vez em quando passassem os olhos desacostumados em livros vários, não seriam obrigados a lerem todos eles, mas que pelo menos a metade fosse vista, que felicidade caso conseguisse ver meu sonho realizado, neste país tão grande, imenso, continental, onde os iletrados ainda são esmagadora maioria, um dia esse fato vai mudar, e com ele a minha ex-tristeza vai se tornar, com certeza em alvissareira alegria.

Hoje recebi um e-mail que dizia respeito a como enfrentar os anos, e a idade velha que os mesmos anos trazem de carona em sua carroça manquitola. Tirei dele algumas frases as quais julguei, ao revés de impertinentes, a mesma palavra sem as duas primeiras letras da frente. A tal missiva recebida era escrita em espanhol e foi traduzida dessa maneira, espero estar tal e qual: “a água parada se perde e a máquina tocada por ela acaba não apenas enferrujando bem como para de girar. Tornando-se imóvel e obsoleta. Contra a inércia a diligência. Não seja uma rama desgarrada voluntariamente da árvore da vida. Em sendo assim, sentindo-se gasto, parado a um canto, assistindo impassível às suas porcas e arruelas enferrujarem, o mofo e a fuligem dos anos montarem-se-lhe à cacunda vergada sobre uma coluna descalcificada, cheia de espaços intervertebrais sem movimentos, artríticos, enrijecidos, enmohece (em espanhol, deixar em desuso, ou coisa que o valha).

A receita contra este estado de calamidade não pública e sim de natureza pessoal sua, de outros iguais, é, não apenas azeitar as juntas, exercitar-se cada vez mais como se fosse você um iron man, não ao exagero de correr cinquenta quilômetros, nadar no mar mais quatro deles, e pedalar mais de cem quilômetros, procurar se aculturar sempre, ou lendo livros de um médico urologista de nome Paulo Expedito Rodarte de Abreu, mais conhecido por Paulo Rodarte, ou se não apreciar alguns dos quinze já editados, procure outros mais famosos, não indico os de um de mesmo primeiro nome do tal médico lavrense, o que assina Coelho como sobrenome, Paulo é seu primeiro, deixem o carro na garage, ou à sombra de um árvore de rica copa. Ande, caminhe homem, ou, em se tratando de mulher, vão a luta, combatam a preguiça que o impeçam de deixar a cama ainda cedo, nestes tempos frios, que de agora em diante mais e mais frios irão ficar. Alimentem-se não frugalmente como uma taturaninha lenta, que custa a atravessar o asfalto arrastando as perninhas rés do chão, comam a cada três horas, se mais vezes ainda melhor, trabalhem com denodo e afinco, não se esparramem num banco de uma praça qualquer, não fiquem observando os mico- estrelas nos seus vão e vêem frenéticos como se fossem equilibristas circenses, não se acomodem jamais, invistam e ao mesmo tempo se vistam de acordo com a moda atual, permitam que um suspensório combinando a cor da camisa que fica por baixo de um elegante blazer da mesma cor da calça, não muito justa nos fundilhos, nem ancha demais no lugar confinado entre as pernas, leiam, releiam, recorram ao professor Google assim que não compreenderem o que está aos seus olhos, e, afinal, para não cansar a vocês, idosos, velhos, seniores, experientes (prefiro me chamar assim), não gastos pelos anos como a sola de um sapato velho, sapato velho é sua mãe!, depois de tentar seguir todos estes ensinamentos sábios, soberbos, ao me ver no espelho, percebi, e ele não mente, que minha cara estava atapetada  de rugas profundas, as cãs enxovalhavam-me as têmporas, um queixo duplo, como o de um porco prestes a ser abatido ainda vivo, por um punhalada certeira no coração, uma calva luzidia brilhava à luz da lua cheia, a testa, pobre dela, era enfeitada por mais e mais sulcos, cada um mais largo que aquele que o arado sulcador da terra faz e desfaz,  e quantos detalhes mais e mais indicadores da presença já comprovada da maior idade. Dentro em pouco não mais poderei sequer andar. Correr? Nem tentar. Se não vou parar na cama ortopédica de um hospital qualquer, todo engessado, ligado, sem poder sequer movimentar um dedinho de qualquer das duas mãos, se ainda as tiver no lugar.

Ainda bem que tenho tentado deslindar os segredos bem guardados da eterna juventude. Quantas e quantas vezes fui à procura da tal logradouro que dizem ter sido achado por Ponce de León. Mas, mais uma vez, ao final do texto de agora cedo, quase hora de ir ao posto de saúde das dez, todas as minhas tentativas foram debaldes.

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