Aquele menino sonhador, vivo e esperto para a idade pouca que tinha, nascido num sitiozinho isolado, que mal dava para o sustento da família, trabalhadora, comedida nos gastos, aos cinco anos ajudava ao pai, doente da sanidade, portador há anos passados de uma doença mental, usuário de mais de dez medicamentos de tarja negra, ofertados depois de longa espera num posto de saúde de uma cidade perto, na maior parte das vezes o tal desaparecia das prateleiras, e noutro ano chegava, já tarde demais para devolver-lhe resquícios de boas ideias, quando Tonico, o tal meninozinho poeta, que escrevia versos por toda parte, nas cascas das árvores de ricas sombras, nas tábuas das porteiras caindo de velhas, na parede da sua casinha feita pelo avô, também escritor de poesias, uma vez nascido foi batizado com o nome do maior poeta gaúcho nascido naqueles pampas, de Manoel Quintana, como derradeiro sobrepunha-se o da Silva, desde noviço, imberbe e impúbere, costumava passar horas baldias à espreita de passarinhos cantores, olhando-os tanto esvoaçando alto, ou assentados em galhos finos das árvores, deixando-se ouvir suas cantigas lindas, emitidas por seus trinados em agradáveis musicais da natureza passarinha, espetáculos aos quais era desnecessário pagar ingresso. Era só ficar atento à pastaria, ciscando o esterco do curral, ou voando em bandos ou até mesmo pousados nos mourões de cerca que fazem a linha divisória entre a casa onde Tonico morava e a estradinha torta por onde passava o caminhão de leite, em suas idas e voltas rápidas desde o laticínio às propriedades rurais, uma aqui, outra mais a lá, aqui e acolá.
Passavam os anos e os inevitáveis desenganos mais e mais povoavam a vidinha insossa do pobre Toniquinho. Ele, cada vez mais, nem um mais ou menos foram inseridos a sua vidinha ao dissabor de nada de novo. A única alegria que lhe passarinhava pela cabecinha avoante, sempre lucubrando sobre o tema da poesia da manhã seguinte, de vez em quando indo à escola longe, de carona na garupa de uma égua com a qual teve o primeiro e único caso de amor, que não deu em nada, apenas um coice em local dolorido, que resultou numa perca de um dos testículos, já o outro restante foi perdido depois de uma caxumba ida ao andar de baixo, a qual danada redundou numa atrofia inesperada do seu órgão reprodutor, daí a esterilidade definitiva que uma vez senhor o Tonico tornou-se portador, até que, cansado de viver assaltou-lhe a imaginação tentar dar cabo da própria vida.
Não mais gostaria de ir adiante. Ter nascido em outro berço, em outras plagas, mais uma utopia devaneante, das tantas com as quais sonhava em seus sonhos delirantes.
Um feio e cinzento dia, era uma segunda-feira, igual a que nasceu no dia de hoje, o pobre e infeliz Tonico se preparou para o pior.
Deixou a casa antes de o pai doente se levantar. De regra ele acordava raivoso, a boca espumante, gestos tresloucados dele partiam ao menor momento, sem causa aparente.
Toniquinho, à época contava com treze aninhos tão poucos face aos mais anos que a vida futura a ele reservava, foi ao curral, tentou puxar conversa com uma vaca a qual viu nascer, foi ele mesmo quem trouxe o gabiruzinho ao bezerreiro, ainda lambuzado de placenta, no entanto a vaca malhada a ele virou os chifres recém mochados, nem lhe deu trela.
Apanhou uma corda resistente, feita de couro curtido de boi bravo, e foi com ela disposto a enfiar o pescoço num laço apertado, uma vez dependurado numa forquilha de um galho de jabuticabeira idosa, subir numa escadinha manquitola, e, após fechar os olhos, suplicar ao bom Deus das jabuticabas maduras, por elas nutria verdadeira paixão, coisa de criança, como eu fui, um dia longe, e, no exato instante em que iria se desvestir da vida eis que surgiu, do nada, um compadre de sua mãe que abandonou o pai assim que viu o filho sair-lhe das entranhas. Foi ele, outro poeta caboclo, homem bom, de nome Gonçalves Dias, lembram-se de outro poetaço maranhense que a história registrou em suas páginas doiradas como um dos grandes da poesia brasileira? Se não recorram ao sabe tudo de nome Google, e imediatamente irão descobrir quem foi o autor de I- Juca Pirama e Canção do Exílio, uma vez morando em Coimbra, na linda Portugal.
Exatamente foi outro poeta quem salvou da forca o pobre e desinfeliz Toniquinho, que não partiu da vida naquele dia por sorte dele, e nossa, idem.
Mas o infeliz poetinha da roça não desistiu do seu intento de se ver livre dele mesmo. Foram outras tentativas malogradas. Na primeira foi salvo do afogamento em uma represa de águas rasas por um lambari de rabo vermelho, que se tornou amigo do peito do tristonho Toniquinho, que, uma vez aliado ao peixinho que era nadador excepcional, tornou-se campeão de natação.
Dos dez anos em diante parece que a vida iria se transformar de feia pupa bocuda, envolta em seu casulo de milhares de fios imbricados um a um, numa linda e saltitante borboleta amarela e azul.
Mas, contrariando os mases da vida, como o pobre Tonico era bipolar, ora se achava em alta, ora descia ao rés do chão, a ideia de suicídio de quando em quando lhe martirizava os pensamentos vazios.
O que o salvou da morte certa, quantas vezes ele a perseguiu, foi num lindo dia de primavera, fores mil o perseguiam colorindo sua vidinha tormentosa, lúgubre e cinzenta, ao ver um lindo passarinho cantor, não sei se um trinca-ferro, um azulão lindo de viver, ou mesmo um canarinho belga, pelo qual caí de amores num dia perto, numa feira de canários no shopping, no dia de ontem a tarde, o qual vou levar a minha casa assim que subir à hora do almoço, o quase suicida consumado e consumido Tonico, ao ver um dos tais passarinhos cantar feliz num galho fino da copa de uma árvore, acho que era um ipê amarelinho, sentiu em seu corpicho uma estranha metamorfose.
Dos seus braços longos nasceram penas finas. De suas pernas antes angulosas e estreitas se transformaram em canelas finas como as dos passarinhos cantores. Foi quando, num átimo, o pobre Tonico infeliz, sempre acabrunhado e mal amado, que sofria bullying na escola por ser gordinho e poeta, acabou a sua melancolia, e virou passarinho, azulando-se com suas asinhas miúdas, foi ter ao céu onde moram os anjos, que, uma vez feitos passarinhos, trinando com seus cantos maviosos, acabaram por terminar com a tristeza do jovenzinho Tonico, graças ao trinado cântico dos pássaros canoros.
Fim de papo, acabou-se o sabor amargo da história, que de triste alegre se tornou.