Lucubrações do arguto Zezinho da porteira sempre aberta a novas ideias geniais, juntadas às minhas

A tal criança nascida no dia da esperança viva, talvez o calendário ainda não tenha em sua agenda profícua em datas tal dia ditado no começo do texto de hoje cedo, não tanto quanto nos dias normais, quando deixo minha casa antes das seis da manhã na intenção de pedir ajuda aos dois computares que me olham de olhos assustados, teclas arregaladas pelo meu digitar furibundo, mais de dez palavras em menos de dez míseros segundos, nada mais foi do que mais um fruto de minha mente criativa, nascida a inspiração quando subia a rua, depois de passar a noite num sofá- cama de um hospital, aqui pertinho de onde estou agora, como médico urologista e acompanhante de minha heroína, a primeira em ordem de sucessão depois da perda da minha mãe. Durante aquela noite mal dormida, ao lado da parede, espremido num sofá cama que tolhe não apenas meu sono, da mesma forma faz retorcer as minhas pernas curtas as quais passaram quase quatro horas dobradas sobre elas mesmas, acordei com uma baita câimbra, e como custei a me livrar dela, alongando-me a frente do espelho, e vendo de dali a imagem de um velho sênior, olheiras hospitalares conferiam aos meus dois instrumentos de visão um aspecto de vampiro anemiado.

Este mesmo jovial menino, nascido numa rocinha singela há seis anos atrás, numa casa Amarelazul velha conhecida minha, além de prestativo e engenhoso, foi ele mesmo que inventou uma engenhoca de moer cana madura. Sabem quem movia a alavanca que fazia girar os dentes cheios de idas e vindas de ferros ranhudos? Uma roda d’água achada num lixão, um ferro velho sem serventia nenhuma a nãos ser aos imaginosos cientistas sem titulação em nenhuma faculdade onde nascem inventores, ao mesmo tempo ali se forjam pessoas inventivas, quem sabe dali emergiu algum Leonardo da Vince ou o tal Edson da lâmpada antiga que nos dias de hoje virou peça de museu, sendo que as tais foram trocadas por mais modernas, as ditas lâmpadas de Led, que prometem, de luz acesa, iluminar ainda mais o ambiente escuro, assim com a um preço mais acessível, tornando a conta de luz mais em conformidade aos nossos bolsos vazios. Não imagino quando a crise vai fechar ou abrir o novo ano com melhores perspectivas de crescimento, proporcionando-nos mais qualidade de vida bem como tonar a despensa, de uma cavidade vazia, num celeiro repleto de gêneros alimentícios.

Foi durante a subida pela rua principal, depois de deixar a Santa Casa entregue às suas memórias, tantas que são, ao ver algumas unidades do velho nosocômio batizadas com nomes de médicos notáveis, alguns ainda vivos e ativos, a exemplo cito a linda unidade de tratamento intensivo de bebês de alto risco, o nome dela foi pedido como empréstimo ao colega pioneiro na pediatria aqui na cidade minha e de todos os felizardos que aqui vivem, o Doutor José Carlos Loyola, que inda hoje cuida com notável desvelo das criancinhas que o procuram no consultório ou quando ele se desdobra nos plantões da pediatria na cada vez mais atenta às modernidades, um hospital mais e mais em conformidade com os recentes avanços e retrocessos da medicina. Na minha noite passada no quarto andar da Santa Casa, como médico internador, especialista em cálculos renas, eita! pedrinhas doídas  no seu deslocar rumo à saída pela uretra, percebi outros colegas que emprestaram seu nome a algumas dependências do velho hospital. Ao raio xis foi dado o nome do doutor Calhau, homenagem mais do que justa, merecida, pois ele, ainda vivo e saudável, emprestou seu nome àquela unidade onde a fotografia de um colega que hoje mora onde ele queria, ao lado de anjas lindas, como ela gostava de moças formosas, e penso, onde ele agora reside, ao lado de querubins de corpos perfeitos, como aquelas que junto a mim malham na academia situada ao fim da Rua Costa Pereira, a Rua dos Rodartes e personagem amigos de um passado do qual jamais pretendo me apartar, nem por um dia apenas

Mais abaixo, descendo pelas escadas suaves da Santa Casa, deixo o elevador, no meu tempo era velho e cheio de defeitos, além de dele exalar um odor de esgoto no pavimento do andar térreo, aos mais debilitados, ainda me conheço em perfeito estado de conservação, salvo algumas pequenas avarias pertinentes à idade mais alta,  deparei-me com mais salas onde se liam nomes de antigos e novos colegas muitos deles mostram-se em fotografias logo ao lado esquerdo de quem sai, são eles os ex-provedores do meu querido hospital que traz em sua memória velhusca, tantos causos para contar e recontar aos seus netos e bis.

Doutor Célio de Oliveira, emérito decano, cirurgião faz-tudo, creio ter perdido a conta de quantas pessoas deixou a salvo das suas dores, dos seus rancores talvez não. Ele empresta seu nome a um prédio ainda em obras logo a frente de uma das saídas e entradas do hospital, edifício de cor azul, o qual abriga um dos setores mais importantes da Santa Casa, a parte que cuida do faturamento e da administração bem feita, em mãos daqueles que adoram os números, apesar de minha seara interminável sejam as letas. Elas permeiam livres e soltas em mais de quinze unidades livrescas, cada um deles nascidos em tempos líricos na tal gráfica maternidade.

Uma vez deixado a Santa Casa, após uma noite mal dormida no leito ao lado repousava a minha querida amada Rosa, minha não apenas mulher, dedicada mãe, avó comprometida no cuidado do meu querido neto Theo, vi outras homenagens em forma de nomes emprestados a alguns dos setores daquele hospital magnífico. Não vou decliná-los a todos, pois caso me esquecesse de alguns dos meus colegas estaria cometendo um sonora injustiça.

Uma vez na porta da rua, indo em direção acima, foi que me ecoou nos pensamentos a qual dependência emprestar meu nome, não apenas quando eu vier a me ausentar do intranquilo mundo do seres viventes. Tomara, caso eu mereça tal distinção que seja feita antes do meu sepulcro se abrir. E me levar a escuridão da mãe terra, observando, sem poder olhar, o capim se mostrar pelas raízes.

Doutor Silvio Menicucci, não apenas grande médico, como também político renomeado, vindo a faltar quando discursava num palanque deixou suas  letras gravadas por todas as partes da Santa Casa, assim como por toda a cidade de Lavras. Seu genro, outro grande cirurgião, ainda atuante na cirurgia plástica, como dito deu nome a um prédio na parte direita de quem passa defronte ao pronto socorro. O grande pediatra   Loyola emprestou o nome, bem a propósito, a uma unidade de tratamento de bebês prematuros ou de alto risco de vida. E assim caminham as homenagens, póstumas ou não, pelas dependências em acordo com a últimas conquistas da arte de curar ou pelo menos tentar salvar vidas. De algumas a Santa Casa consegue. Já outras a morte chega primeiro, neste caso os urubus não prestam serviço à morte dos humanos, como o fazem no caso de outros animais sem vida.

Agora, afinal a minha amada esposa já está em alta, no conforto do nosso lar, foi que me passou pela imaginação, à minha falta, ou mesmo durante o meu viver, onde serei lembrado?

Nalguma sala de pediatria penso não ser o melhor espaço. Na tranquilidade de uma sala de cirurgia, onde passei e espero passar muitos anos mais, como operador, não operado, tomara seja o local eleito. Na sala de estudos do velho hospital, local pouco visitado, ou cortejado, onde moram alguns dos meus livros, ignoro se foram ou não lidos, quem sabe seria o local ideal?

Não importa. Sei que um dia não mais estarei por aqui. Ou escrevendo tanto, correndo que nem um casal de seriemas presas fáceis de caçadores, emitindo seus gritinhos estridentes.

Caso quiserem dar meu nome a alguma coisa, ou lugar, que seja num local beira- lago. Fosse na represa de Camargos, onde moram o Pirunguinha  e sua nova namoradinha, a border collie batizada de pouco de Laika Rosa, ou, melhor ainda: na minha roça em Ijaci, da qual cidade próspera onde ainda não recebi o título de cidadão honorário,  exemplo doutro que às minhas costas se mostram, fincados na parede atrás de mim.

Não precisa deixar meu nome escrito em nenhum ponto perdido dentro ou fora da Santa Casa ou doutro hospital qualquer. Pessoas, colegas, muito mais seletas e notórias merecem e muito, bem mais.

Voltando ao arguto Zezinho, o da porteira sempre aberta, de ideias imaginosas e fecundas, creio que este garoto seja, nada mais, nada menos, do que eu anos antes, bem antes, ao chegar pertinho de onde moro , onde fui buscar o carro para trazer de volta da Santa Casa ao nosso ninho de amor, a minha Rosa, deparei-me com um cena incomum.

Uma grande máquina, um guindaste imenso, acabara de fechar uma das artérias mais importantes da minha Lavras, a que vem da Fernão Dias, seja de São Paulo ou da capital das Minas Gerais.

Pessoas admiradas se posicionavam a metros seguros da tal máquina chamada de guincho. A intenção dela era levar uma pesada caixa d’água ao alto do elevado edifício, em sua fase quase finda. O que por certo já deveria ter acontecido.

Foi quando o menino Zezinho, talvez seja ela meu irmãozinho de rica criatividade imaginosa, sugeriu, sem intenção de ofender aos operários que manejavam a enorme máquina, um guindaste antes nunca visto por mim, que, para diminuir o custo final da empreitada meticulosa e dispendiosa, por que eles, pensando no avozinho falecido dias antes, dono de uma junta de bois de carro parrudos e chifrudos, caso fosse necessário Seu Tonico, avozinho do menino espertinho, conseguiria dez ou mais deles.

A ideia engenhosa, até certo ponto utópica e não claustrofóbica, seria dar asas à boiada. Bem treinados que eram todos eles, os tais levariam a grande caixa d’água ao lugar a ela reservada, ao alto do prédio, com mesma segurança com que o enorme guindaste o faria, sem os transtornos vistos quando do fechamento daquela rua artéria  fundamental ao ir a vir da cidade da Santana das Lavras do Funil, que a represa do mesmo nome engoliu em águas profundas.

Acabei por misturar duas ideias crônicas em uma só. Se gostaram ou não, tomara o sim prevaleça. Pois para mim, que escreve tanto, seus conceitos sobre a minha pessoa e sobre as sandices que saem do meu computador, contam e muito.

 

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