Respiros de liberdade

Só quem já foi encarcerado conhece, em detalhes, o doce gostinho de se ver livre, correndo, com o vento fustigando-lhe os cabelos, colocando-os em desalinho, exatamente como eu me sinto durante as corridas longas nos domingos tempranos.

De tempos pra cá quase apenas me exercito na academia. A esteira pede que corra devagar, embora o meu devagar só chega depois de mais de uma hora de movimentar frenético das pernas, tendo os pés como coadjuvantes, os dois juntos percorrem, sem irem adiante, mais de dez quilômetros à velocidade dez a hora. Após o deslizar pela passarela rolante da esteira, sem sentir o tempo passear, fico mais ou menos meia hora malhando com pouca intensidade, em pouco mais de oito aparelhos dos quais não sei declinar os nomes, até deixar exaurir-se hora e meia. A seguir, dia sim, dia não, nado por uns trinta minutos alternando dois estilos – o nado livre e o de peito, mais lento, e mais relaxante.

Ainda sobre suspiros de liberdade, como é maravilhoso experimentá-lo, quero aqui deixar, nesta crônica de hoje cedo a história curtinha de uma cadelinha de um ano apenas, predominantemente negra, salvo um tufo de pelos brancos como se fosse uma coleira, da mesma raça de um amigo querido, que foi batizado com o nome de outro amigo – Pirunguinha. Esse é mais um domingo lindo, que começou nublado, as águas plácidas da represa de Camargos, dia vinte e oito de maio, precisamente fazem trinta e oito anos que meu filho mais velho nasceu, acordaram totalmente encobertas por uma névoa densa, que mal permitia ver um patinho que madrugou, da mesma forma acontecida comigo, como de costume sói acontecer.

Ela me foi feita presente por um desconhecido. Amigo da irmã de minha querida enfermeira, a simpática e cordial Zaninha.

A negociação foi feita pelo marido da Betel. O nome do motorista de caminhão, assaz educado e ao mesmo tempo gentil, atende pelo primeiro nome de Luis. Os outros sobres ignoro.

Tão logo a “menina” que pouco late, um tanto desconfiada pela mudança radical de vida, logo nos demos muito bem. A pobrezinha veio até mim com fama de ser um tanto arredia ao convívio com os machos, por motivos ignorados. A informação que dela obtive só pude comprovar depois.

Ontem chegamos aqui. Após uma breve passagem pela roça de Ijaci. Onde deixei mais um amiguinho peludo, um pastor alemão, embora não saiba se o Del Rey fale ou entenda alemão. Conforme consta nas informações passadas pela mulher do Elson, um pedreiro de colher inteira, o pequeno pastorzinho passou a noite a chorar. Afinal foi a primeira passada longe do achego de sua mãe e irmãozinhos da mesma cor e idade. Del Reyzinho só se aquietou ao ter a fome satisfeita com duas colheres de ração própria a filhotes, e um naco gordo de leite tirado na hora.

Como contado de pouco a cadelinha border collie, seis meses mais jovem que o Pirunguinha, aqui aportou depois de uma curta viagem de Ijaci a Itutinga. Seis quilômetros distante dela, em direção à linda cidade das cachoeiras, hoje uma das mecas do turismo das Minas Gerais, de nome Carrancas.

Ela veio presa a uma coleira enforcadeira, alongada por uma guia de curta dimensão, o que me permite conduzi-la à distância, para que a mesma, inexperiente, pela primeira vez saída de entre quatro paredes, e um quintal mínimo, para que a tal não se escafeda de vez por todas.

O nome com que a linda cachorrinha foi batizada foi por obra e inspiração da minha digníssima mulher, um esteio onde amarro minha égua, a famosa estilista Rosa Lasmar, que em verdade deveria se chamar Rosa Lasmar de Abreu, é, e de hoje em diante será – Laika Rosa.

De ontem, sábado, a hoje, domingo, Laika Rosa passou atada a uma corrente, com a liberdade total restrita. Ela só podia andar de um lado a outro, numa distância ainda menor que onde morava antes de vir ter a mim.

Há hoje, um garoto traquinas, que mora aqui, em Camargos, de nome Careca, ou seria Jonatan?, ajudou-me no reconhecimento dos arrabaldes, para que a jovem futura namorada do Pirunguinha não se perca por aqui. Não nos desgrudamos da coleira enforcadeira, nem por um minuto sequer.

Já mais tarde, dia seguinte, tive mais uma das ideias que me assaltam subitamente. Por que não oferecer um sopro de liberdade à querida amiga novata, a intranquila Laika Rosa?

Dito e realizado. Assas e assado.

Por volta das dez e meia libertei Laika Rosa da coleira enforcadeira. À distância insegura fiquei de olhos atentos a aonde ela iria.

De repente ela desapareceu, numa átimo de instante. Percorri o mesmo caminho presumível por onde ela teria passado. Nada de encontrá-la de novo. O pobre e ciumento Pirunguinha nos seguia a metros longe. De repente desatava a correr, como se eu fosse atrás dele. Mas eu ia atrás da inquieta Laika Rosa, aonde quer que ela fosse.

Numa curva sinuosa, a poucos metros da minha casa, de pronto avistei a desaparecida cadelinha. Laika Rosa, mesmo refém da coleira enforcadeira, corria tentando se desvencilhar daquilo, incapaz que era. Parei num certo ponto da procura. Foi quando a vi mergulhando o focinho e o corpicho peludo nas águas límpidas da represa. Com que prazer ela o fazia!

Laika Rosa ora entrava num lote baldio, alternava a corrida perto da superfície do lago de águas verdes com poucas marolas, sempre segura pela presilha da coleira.

Saía do sarandi do matagal da mesma forma com o focinho preto e branco apinhado de carrapichos. Como estava parcialmente molhada sacolejava o lombo freneticamente. Na intenção louvável de se ver seca e aquecer-lhe as entranhas.

Temeroso de perdê-la de vista, já que mais tarde retorno à minha cidade, de novo privei-a da liberdade conquistada tão sofregamente. Foi por poucos instantes. A conta de terminar este escrito.

Agora, texto findo, vou soltar Laika Rosa de sua coleira, presa a corrente que a mantém prisioneira sem culpa nenhuma de sê-lo.

Vai ser maravilhoso ver de novo minha nova amiga, a Laika Rosa, sentir na face peluda outro respiro de liberdade.

 

 

Deixe uma resposta