Um dia, ao assistir a televisão, num jornal qualquer, o assunto versava sempre sobre as mesmas coisas de sempre. Corrupção, propina, compra de votos, levar vantagem em tudo, certo? Todos os telespectadores, em minoria os que têm o saudável costume de ler, de passarinhar os olhos nos jornais impressos, infelizmente, com o aparecimento da internet não sei o que vai ser deles, desaparecerão como a nuvem que de pouco deixou espaço para o sol lindo que no céu sorriu, parecem pensar que o país, antes tido como do carnaval e do futebol, agora eles estão mais e mais apagados, face aos desmandos em todas as esferas, seja na capital federal, nos estados da federação, ou nos cada vez mais sem recurso municípios do norte ao sul da nação, onde só mora a desonestidade como norma de conduta, a roubalheira se tornou moda, a safadeza impera, assentada num trono onde talvez a solução fosse um regime monárquico, onde o rei, a exemplo do que acontece nos países que ainda persistem no regime das coroas têm um rei, figura decorativa, um primeiro ministro de ilibada conduta, caso ele pise fora das normas do bom viver com integridade logo é substituído por outro melhor ainda, pena que no nosso caso quando é despejado um corre-se o risco de em seu lugar entrar outro ainda pior. Daí o sábio dito popular: “dos ruim pros ruim vote no menos pior”.
Daí fica a questão, em forma de pergunta, cada vez mais sem resposta: “por onde anda a tal sumida honestidade”?
Estaria a danada desaparecida do país o qual amamos, e dele fazemos de gato e sapato, sendo coniventes com o status quo, falando mal do governo constituído legal ou de uma forma a qual muitos pensam ser mais um golpe, eu não penso assim, mas, ao descer a rua, quase madrugada, sempre pisando pelo caminho cheio de lixo esparramado, de caca de cachorro solta nos passeios, sendo seus donos, ou os passeadores de cães de madame, omissos, sem levar na mão a tal sacolinha recolhedora dos dejetos, coisa de país desenvolvido, tão somente, onde o cidadão decente tornou-se figurinha impossível de encontrar, como nos saudosos anos verdes da nossa mocidade perdida, que saudade dos tempos do ônibus puxado a cavalo, dos bondes que andavam apenas nos trilhos, de quando a gente ainda perguntava a uma moçoila casadoira “qual a sua graça”, sem que essa postura fosse alguma coisa com intenção de fazer graça, ou se transformar numa cantada fora de tempo, já que a tal moça já era compromissada com um elegante senhor que usava suspensório, não para impedir que a calça azul marinho com risca de giz arriasse, e sim como moda refinada que nos tempos de hoje não mais nos acostumamos, como nos desacostumamos a ser mais humanos e cordiais. Mais éticos e leais, mais fraternos e menos venais.
Estou cansado de levar vantagem em tudo, certo? E vocês? Estariam da mesma forma? Não quero um talvez como resposta e sim um contundente por certo, com certeza!
E sobre o tal homem sem parança? O qual me inspirou a escrever sobre esse tema, que estampa o título da minha crônica de agora cedo.
Era mais do que menos seis e meia quando desci a rua no sentido de cima abaixo. No meio do caminho assisti a duas cenas que me fizeram pensar. Mais acima uma linda mocinha corria a enfeitar a rua semideserta, antes de ir estudar ou trabalhar. Mais abaixo, no leito da rua, quando muita gente ainda dorme noutro leito, um corredor de verdade corria a mil por hora subindo a rua principal. Já o havia visto dias antes. Já a linda moça foi a primeira e espero não ser a derradeira vez.
Ambos eram, como eu, pessoas sem parança.
A primeira vez que ouvi tal palavra, que não sei se já dicionarizada, foi na porta dos fundos de uma casa da roça, quando amarrei meu potrinho, de mesmo nome do meu netinho, batizado pelo pai da linda criança de Theo, na época ainda inteiro, hoje ele perdeu um cadinho a parança por ter sido castrado.
Quem usou a tal palavra sonora, e muito adequada a meu modo de estar e ser, foi um caboclo simpático, mãos caludas, criado e nascido na roça, pena, segundo seu próprio depoimento hoje passou a morar na cidade, por não ter na roça como ganhar o seu pão dele e da sua família de cada dia.
Em verdade não tenho parança. Sou tão irrequieto e indomável como meu cavalinho ainda com os hormônios em alta, a testosterona borbulhando sôfrega em sua corrente sanguínea, quando o querido Theo Horse ainda não havia sido castrado. Hoje ele aquietou um pouco o facho. Menos mal, pois assim não mais corro o risco de ser ejetado da sela nas correrias que ele fazia comigo por cima.
Foi ao descer a rua, em direção ao lugar onde escrevo e exerço a Urologia, quando vi os dois corredores subindo a rua, que pensei sobre parança.
Ao mesmo tempo me vieram às ideias o estado atual da nação brasileira, nestes tempos conturbados da vida nacional.
Parança enseja não parar. Não ficar sossegado, de papo pro ar. Ao mesmo tempo ser indomável como o vento que assopra sibilantemente nos pampas argentinos e alguns lugares desse nosso Brasil.
Ao assistir aos jornais noticiosos, estando plugado a internet, depois que ela chegou não há como nos alijarmos dela, apenas na roça, onde a tal não entra, sem ela posso ficar, vejo, e constato, infelizmente percebo, olhos desesperançosos de que vai melhorar, não vai haver parança na bandalheira verde e amarela não apenas em Brasília, como nos quatro cantos do país, que vicejam como ervas daninhas não no meu jardim. Lá, num pequeno trecho de grama e algumas plantas ornamentais, quando as pragas retornam logo cuido de arrancá-las. Pena que a raiz fica. E de novo as pragas voltam, com força maior ainda. Que bom se as tais raízes, não apenas das preguinhas verdinhas, mas as pragas verdadeiras das podriqueiras da política que impede que o Brasil siga o admirável exemplo de outros irmãos principalmente os localizados mais ao norte do planeta, a exemplo cito a Noruega, a Alemanha, o Japão, e outros coirmãos, da mesma forma onde a honestidade é praticada da mesma forma que o valente e tinhoso caboclo de mãos caludas, aquele que disse que sou como meu cavalinho Theo, sem a tal parança, palavra um tanto quando desconhecida, mas deveria ser mais festejada.
Como a tal honestidade e outras palavras irmãs, como a ética, a decência, a moral, deveriam morar aqui pertinho de nós, no país que num dia bom era tido apenas como do carnaval e do futebol.
Posso ser um homem considerado sem parança mesmo. Em todas as suas nuanças variadas.
Adoro correr. Como me faz bem andar. Como me assalta sempre o desejo voraz de não apenas pensar como deitar no computador minhas lucubrações que despencam da minha mente como as águas de uma cascata cristalina, que cai da rocha com um estardalhaço único e afinado.
Sei que sou um homem sem parança. Quero morrer sem parar. Mas, se por um infeliz acaso, eu tiver de parar, a morte não me permitir ficar sem parar, eu peço, ou melhor, imploro, suplico, que me alijem de mim.