Hoje, sábado, vinte e sete de maio, três dias após entra junho, e aí está, ou há de ficar. O ano de 2017 entra em sua metade. E mais seis meses, miseráveis não sei quantos dias acontecerão, entra em cena dezembro, dia sete, não sei a que horas aconteceu a efeméride, eis que nasci. Não na cidade a qual elegi para viver, crescer, embora a linda Boa Esperança de hoje por ela não cultivo a esperança de nela outra vez passar o resto dos meus dias, não sei quanto serão, ou hão de ser.
Parece que não dei continuidade ao escrito no parágrafo anterior.
Hoje passei metade do dia na minha roça. No município de Ijaci. A outra dela está sendo curtida numa outra casa, em muito semelhante à primeira, que ainda está por ser acabada, tomara em alguns sôfregos meses eu possa desfrutar outra vista linda, mais ainda da que se deixa ver de aqui.
Ao caminhar, lenta e atentamente, da casa amarelazul, onde hoje vive um amigo e família querida, que me arrendou, há imprecisos cinco meses, por tempo indeterminado, vou alargá-lo após meu passamento, não sei dizer se meu fantasma irá vagar por aquelas terras fecundas, onde se avistam vetustas árvores de rica sombra, caso tombadas pelos anos a sua madeira de cerne resistente às pragas vai servir de esteio de cercas divisórias de pasto, como também as suas tábuas cerradas serão usadas no fabrico de currais, da mesma forma seus galhos mais finos poderão servir de escora aos pezinhos de eucaliptinhos novinhos plantados há pouco tempo, algumas mudas não resistirão ao ferrão pontiagudo das formigas ceifadeiras, ou à seca que corrói a vontade que as plantas têm de crescerem, pena que eu, que de menino criança agora tornado ancião, tive de crescer e envelhecer, perder o viço da mocidade, e ver um dia, tomara essa data tarde, vou acabar onde ninguém deseja, embora o desejo de que isso não aconteça não esteja nos planos de ninguém, ver o capim pela raiz, numa sepultura infeliz.
Durante a curta caminhada, por uma estradinha recém refeita, levando pela coleira uma nova amiguinha, que já esta aqui juntinho, a linda border collie, batizada de Laika Rosa, futura noiva do Pirunguinha, tomara deste consórcio nasçam netinhos caninos, fui observando os pezinhos novos de eucaliptos crescerem devagarzinho.
Ao lado deles, servindo de escoras, fatias de bambus, secos, a maioria apodrecidos, já sem serventia.
Fui retirando à mão desarmada as ervas daninhas, para aliviar os eucalptinhos. E ao mesmo tempo, com a outra mão, vazia, a que não segurava a enforcadeira e sua guia, da nova amiga Laika, as tiras de bambu podre, facilmente desinseridas da terra fértil que beirava a estrada que me levava a nova morada beira represa do Funil.
Foi neste exato momento que me passou pela memória as escoras da vida.
Ao nascer, naquele longínquo sete de dezembro de 1949, a minha primeira escora, de onde saí, sentindo nos olhinhos fechados a claridade que não apenas me ofuscava o desejo imenso de viver, embora sabedor, ou não, que sobreviver nesse mundo hostil me causava arrepios, foi o achego do útero de minha mãe Rute. Não sei onde meu pai estava naquele dia e hora. Talvez esfregando nervosamente as mãos, sentido escorrer da sua face lívida um suor frio de pai pela primeira vez.
Experimentei outras escoras vida afora. Um andador, um babador, uma cadeirinha de nenê, onde mais me lambuzava que comia a tal papinha com caretas de não apreciar o sabor daquela melequinha com gosto de comida de hospital.
Uma vez livre do andador, já engatinhando como um gatinho recém novinho, outras escoras me acompanharam, vida adentro e afora.
Meus pais não me levavam à escolinha (Jardim da Infância, de nome Narizinho Arrebitado), pertinho da minha casa, da Rua Costa Pereira, número 152. Eu teimava em ir sozinho, de merendeira às costas, aos cinco anos completos, já na nova cidade, a minha Lavras amada, o pequeno ônibus, onde se lia Escolar, foi outra escora da qual me lembro com olhos rasos de saudades vivas.
Pena que outras escoras notáveis viriam.
Passada a primeira infância sobreveio a segunda. Deixei o curso secundário, na época chamada de curso cientifico, não sei a razão do nome inapropriado. Nestes tempos verdes, no qual usava uniforme verde mata, uma escora da qual me recordo, me acompanha até nos dias de hoje.
Encontrei essa apetitosa escora no rela do jardim. O que quer dizer “rela do jardim”?
Depois da missa das dez, eu, não mais menino, já mocinho namorador, assim que a missa acabava, o padre dizia, com voz solene: “vão em paz que o Senhor os acompanhe”!
E pra onde eu ia? Pro tal rela do jardim. Era um pra cá, outro no sentido inverso.
As moçoilas casadoiras rodavam, com suas saias rodadas, no sentido anti-horário. E nós, os rapazinhos não casadoiros, no sentido do contra.
Foi numa destas voltas e reviravoltas que acabei encontrando outra escora. Ela, menina de pernas grossas, hoje em dia elas afinaram, foi batizada de Rosemirian, mas tem o nome de Rosa, mais fácil de soletrar.
Com essa escora de ontem, a qual se estende aos dias de hoje, amanhã, depois de depois de outro amanhã, espero que nos escoremos de hoje em diante, até um dia, no qual, infelizmente, nossos ombros estarão como aquelas fatias de bambus que foram usados para escorar os eucaliptinhos novinhos, sem serventia para a qual foram retiradas do bambuzal chamado vida, espero viver até o final dos nossos dias, juntos, para o que der e vier acontecer. Embora não acredite no que o padre diz, no seu sermão dominical, na missa de que hora for: “até que a morte os separe”.
De tanto falar em escoras, de tanto andar, de correr, de viver, não obstante não cansado ainda da vida, de certas pessoas confesso certo enfado, nelas nunca pretendo me escorar, fecho o texto um tanto acabrunhado. Não da vida. Muito menos das escoras que me ampararam em tantos momentos difíceis, quase impossíveis de sobreviver.
Caso, um dia, tenha de me escorar em alguém, em algo qualquer, que não seja naquelas achas de bambus podres. E sim em grandes mulheres que me escoraram vida adentro. Com elas compartilhei os melhores momentos da minha vida terrena.
Cito duas grandes e fortes escoras que me mantiveram de pé: minha mãe Rute e minha Rosa querida.