Hoje passei uma vista d’olhos no meu horóscopo

Não é sempre que faço isso. Tal costume não faz parte das minhas manhãs.

O fato é que tenho dormido mal. Uma indisposição intestinal tem me acompanhado desde há quatro dias. Talvez seja uma virose, diagnóstico que os médicos lançam mão quando a doença não se define aos métodos convencionais, os exames de laboratório se mostram dentro dos limites, as imagens saídas de dentro da gente nada ensejam de ruim, muito menos pior.

Cheguei a onde estou, no meu consultório e local onde sempre escrevo, ao contrário dos dias anteriores, como sempre acontece, de carona no carro da minha esposa. Ela carecia de ir ao banco, e precisava de um segurança, não um caboclo parrudo, talhado em força bruta, deixando, dentro da sua essência, a mental, a mesma que não se desgruda de mim, desde que o desde nasceu.

Não tive a chance de movimentar as pernas e o que vai por cima delas na minha caminhada habitual. Caminhar pela manhã, bem cedinho, pelo frio que tem feito ando apressado, deixando tanta gente mais jovem olhar-me pelas costas. Em cinco lépidos minutos me desloco da minha casa até onde estou agora.

O país anda a passos trôpegos, em marcha lenta, sem saber para onde ir. Ou se para de repente, ou se troca de governo, para mim vai ser pior ainda do que está, entregar o ouro a outros bandidos mais ainda levados do que o tal presidente que dizem ter se apossado levianamente do cargo não apenas honorífico e sim de alta responsabilidade ao conduzir os destinos da nação chamada Brasil, mais uma vez não compartilho dessa opinião, o advogado de larga experiência no serviço público ali está legitimamente, depois do impeachment em boa hora de uma senhora pela qual jamais tive simpatia, com seus arroubos de guerrilheira, um dia foi feita prisioneira por participar de atos que a meu entender são contra a cidadania e hoje se repete a anarquia, vândalos depredam e destroem o patrimônio nosso, até onde isso vai dar? Fica aqui não apenas uma indagação. Como também uma sugestão – por que não deixam nosso amado país em mãos que batem continência, aquartelados em quarteis, uma vez fora deles, deixem os generais tomarem o mando de um timão, não o tal Corinthians, desse barco desgovernado que pode vir a soçobrar em águas plácidas, infelizmente nos dias de hoje bastante maroladas.

Hoje, um tanto quanto desconsolado por motivos vários, faz frio do lado de fora da minha janela, quando olhei o relógio ele mostrava antes das sete da manhã, ao abrir o computador, um dos dois que ficam a me olhar com olhares de piedade, como a me dizerem: “por favor, senhor, deixem-nos descansar um cadinho. Estamos exaustos de tanto o seu lado escritor digitar nossos teclados macios, que um dia ficarão enrijecidos como as suas juntas não tanto jovens e macias como nos verdes anos de sua vida de menino artioso e ladino”.

Não lhes fiz caso dos seus pedidos. Sem assunto a escrever, esse dia vinte e seis de maio nasceu vazio de ideias, cheio de indefinições sobre os destinos de nossa pátria amada, tomara uma alma caridosa  a salve salve, duas vezes sim, foi que acabei passando os olhos inquiridores no que dizia meu horóscopo. Sou nascido em sete de dezembro, sagitariano assumido e convicto.

Ali estava escrito, desse mesmo jeito: “ É bom ter experiência e cuidado, contar sempre com a possibilidade de imprevistos ou de problemas e assim tocar a vida adiante. Só que não! Quanto mais cautela, problemas ou medos você apontar hoje, mais gente vai ficar chateada com você. Maneire”.

Na hora de terminada a leitura, rápida destas mal traçadas linhas, quem escreve horóscopo por certo não é escritor, fui matutando, como o matuto da roça faz quando uma vaca vai pro brejo, em meio a cerração ele não a encontra, nem usando a sua lamparina cheia de vagalumes de lanterninhas ao máximo que suas pilhas aguentam, a cada palavra lida ia lucubrando sobre o que elas diziam.

Experiência a tenho de sobra. Se contar os anos que foram passados, sessenta e sete deles, todo o aprendido, bem ou mal, deve dar para a encomenda. Cuidado o deixo do lado. Ter cautela não me faz falta. Contar com os inusitados da vida, o que vai acontecer ou que não vai, podem estar certos que não faz parte dos meus melhores momentos. Eles com certeza aconteceram em três ocasiões importantes: quando nasceram meus filhos, no dia em que o Theo olhou o mundo de fora com olhos de desencanto, do jeito que as coisas caminham nos dias de hoje o Theozinho neném, que um dia vai ser adulto, por certo razões enormes ele as terá, nas ocasiões quando meus livros nascem à escuridão do mundo, há os que os lêem e os que os compram para deixá-los como enfeites no tampo da mesa da sala de visita. Fora estes citados agorinha mesmo, quase não me ocupam a mente melhores momentos do que eles todos juntos. Os percalços, também apelidados de problemas, a maior  parte deles não me farão descabelar. Mesmo por que quase não mais tenho cabelos. Sobre continuar a tocar a vida adiante, um dia, malfadado dia, descobri o porquê da razão de a vara comprida que o condutor de gado usa na sua jornada rumo à fazenda já pertinho de onde a sua vista alcança. Conta a lenda, não sei se de verdade ou não, pura fantasia de alguém, talvez seja minha, foi num belo dia, após uma chuva mansa, a pastaria estava verdinha, as vacas de bucho cheio, com o tal piriri da brota, assim que o garoto, novato na arte de tocar gado, um boizão imenso, sacudo, que se colocava por detrás da boiada teve uma descarga intestinal de bom tamanho. As fezes do touro saíram verdinhas indo de encontro à camisa branquinha do pobre rapazola. Daí pegou o nome daquela vara comprida de “ vara de tocagado”. Que se conserva até nos dias de hoje. Se alguém vai ficar chateado comigo, que se dane o chato. Chato de fato é um carrapatinho pretinho, miudinho, que se chama Micuim, que quando gruda no saco da gente nem com reza veemente não sai nem com saracura deixando o brejo cheio de taboas fugindo do estilingue do garoto levado que eu fui. Quando a maneirar as minhas atitudes, nem com a comida boa da comadre Raimunda vai conseguir tal feito heroico.

Agora são oito e vinte e cinco. O sol acabou de sair do lado de fora da minha janela, parcialmente sepulto pelas duas persianas verde claras.

Cheguei a duas conclusões após ler o horóscopo do dia de hoje. Não vou seguir seus ditames. Vou continuar a minha vidinha insossa tal e qual faço sempre. Burro velho não troca de marcha. Nem as minhas cinzas vão se endireitar. Nem quero. Nem vou mais opinar sobre o que acontece no cenário político do meu caro perdido país.

Nem ao menos vou ler novamente qualquer coisa que o horóscopo de cada dia vai dizer. Ou deixar escrito. Um conselho fica aos que escrevem vaticínios. Façam-no com mais cuidado. A nossa língua é tão bonita, tão linda, mais linda ainda que o que infelizmente se passa na sofrida Brasília.

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