Quem ainda não teve entre dois dedos da mão, direita, para os destros, a outra, para os canhotos, uma vareta, variável em dimensão, com uma ponta coberta por uma coisa que toca na bola, de várias cores, no jogo em questão os números vão de zero, a branca, ao sete, a de maior valor, variando desde a azul, a de número dois, a vermelha, a três, a quatro tem a cor marrom, a cinco, meio rosada, a seis, na minha mesa pequena, aquela que fica na casa de Camargos, é de um verde esverdeado, já a derradeira, a última a ser encaçapada, pode ser enfiada à caçapa desde que seja uma tacada de alto risco, veste uma cor indefinida, já que se trata de uma bola antiga, talvez a melhor cor que a defina seja um cinza, desbotado.
A regra do jogo que empresta o nome à peleja é muito bem conhecida por todos que apreciam jogá-lo desde que se tenha pelo menos um companheiro ao seu lado. Pois jogar sinuca sozinho é chato e aborrecido. Não tem graça ganhar da gente mesma, como quando nado completamente isolado de atletas do nado livre na piscina de águas tépidas do LTC sem nenhum oponente na raia do lado.
Não digo ser imbatível nas mesas de sinuca profissionais, esporte muito cultuado na Inglaterra, agora mais nos países de olhinhos fechados, símbolos de organização e limpeza vista por quem anda pelas ruas do Japão, da mesma forma da China, lugares onde nunca estive, a não ser em sonhos coloridos com os quais sempre devaneio meus sonhos pueris.
Mas lá, na casa beira-lago, município de Itutinga, aposto quem me vence no tal jogo onde se faz pouco exercício, a exemplo das corridas longas as quais prefiro via de sempre.
Está lançado o desafio! Quem se habilita?
Ontem, dias atrás, tenho observado, olhos chocados, a balbúrdia e atos de vandalismo explícitos nas grandes cidades do nosso infeliz Brasil. Brasília mais parecia um campo de guerra onde não houveram vencedores nem vencidos. Os próprios funcionários de ministérios promoveram verdadeiras desordens, queimaram nosso próprio patrimônio, construído pelo nosso suor e trabalho digno, ainda existem milhares de pessoas de boas índoles trafegando por aqui, pena que outros vagabundos tomem os seus lugares, encenando atos e atitudes que chocaram o cenário não apenas verde e amarelo, bem como turvaram os olhos do mundo inteiro, pondo em risco a democracia que antes morava em nossas ruas, em nossos lares, em nossas praças, e em tantos outros logradouros que descarecem menção. Basta ligar a televisão e as imagens falam de per si.
Depois do visto no dia de ontem, dias à frente fatos iguais ainda irão se repetir, não tenho a menor dúvida de qual vai ser a solução contra a dissolução, qual seja a desintegração completa não só da nossa bandeira, assim como as instituições brasileiras, que estão a um passo da anarquia total.
Muitos compatriotas podem não partilhar da minha tacanha e modesta opinião.
A solução contra a dissolução do país, o qual amo tanto, é fechar o congresso nacional, demitir por justa causa todos, sem exceção, os políticos nos quais infelizmente depositamos nosso voto na urna, hoje ela é eletrônica, a mesma deveria eletrocutar a todos os safados depositários dos nossos votos, mandar sair o exército dos quarteis, inserir um general no comando da nação, uma nau a deriva num mar de ondas bravias, ou que seja um marechal, de conduta ilibada, para conduzir, mãos de ferro e aço, nem que seja por um tempo estipulado, até que a poeira desça, e o mal maior não aconteça nos dias tempestuosos por que temos passado.
Ontem foi dia de atendimento numa unidade de saúde da prefeitura de nome AME, sigla indicativa de Ambulatório Médico de Especialidades. Hoje, antes que a manhã se faça tarde, de novo pego o ônibus coletivo na intenção de ir novamente ao mesmo lugar.
Ontem foi um dia diferente dos demais. Eram mais ou menos quinze os consultantes, na área da minha especialidade, a complicada Urologia. Nunca seria demais explicar que ela não cuida das doenças anorretais, tais como fissuras anais, hemorroidas, sangramentos do tubo intestinal, e coisas afins. A Urologia sim trata de doenças do aparelho gênito- urinário, das doenças da próstata, da bolsa escrotal, do pênis, da uretra, dos dois ureteres, dos rins, das glândulas suprarrenais, das inadequações sexuais, da falta de libido, etc. e tal. Muitos pacientes desavisados e mal orientados imaginam que o urologista é médico exclusivo de homem. Mas se esquecem de que a mulher também tem dois rins, quando não lhe tiraram um deles, uma bexiga que sofre mercê das infecções, e outros detalhes pequeninos, que apenas os profissionais da saúde entendem.
Ontem, dos três derradeiros que apareceram tardiamente à consulta, no AME a ordem de entrada segue uma lei estipulada previamente, os mais velhos primeiro, os portadores de qualquer deficiência têm preferência na chamada, foram os que mais deram trabalho.
Todos os três eram jovens e bem situados, aparentemente, nesta nossa vida onde prepondera a crise e a falta de emprego.
O antepenúltimo a ali entrar, na minha sala acanhada, que quando chove goteiras descem pelo telhado, de vez em quando falta luz, sofria de fimose, e dentro daquela pele que recobre a glande algumas verruguinhas davam o ar das suas desgraças. Ao ver o penúltimo e o derradeiro a história era a mesma de dantes. Mais verrugas venéreas, o tal vírus conhecido por HPV, mal acompanhados por fimoses bem fechadinhas.
De nada adiantou propor-lhes um tratamento salvador, que não apenas cuida das verrugas como retira o excesso de prepúcio motivador de tantas doenças do gênero. A cirurgia de fimose e a cauterização das lesões penianas seria o salvo conduto à cura parcial, já que as lesões pertinentes ao HPV poderiam recorrer.
Como dificilmente o Sistema Único de Saúde seria capaz de propiciar-lhes o tratamento ideal, embora houvesse encaminhado a todos eles a outro colega especialista, não sei quem poderia tratar as suas moléstias graciosamente, ao primeiro perguntei qual lhe era a ocupação atual. Ele se disse desempregado total. Ao segundo repeti a indagação impertinente. Da mesma forma ele me respondeu ter sido mandado de pouco para fora da fábrica falida onde passou os últimos dez anos de vida. Ao último dos consultantes, queixoso da mesma patologia, fimose e HPV, angustiadamente me respondeu numa linguagem gemelar. Estava de novo desempregado.
Foi quando pensei no jogo de sinuca, da minha casa de Camargos.
Na última partida ali disputada a bola da vez era a de número três, a vermelha. Com facilidade a encaçapei, e acabei por vencer o jogo, depois de matar todas as vindouras. Em boa hora meu oponente fosse um freguês de caderno, fragorosamente vencido em todas as partidas até então disputadas. Não houve apostas nem respostas nervosas após a minha vitória depois de um tira-teima que durou menos de duas horas. Venci todas as quatro partidas. Como dono da mesa, e da casa, deveria ter lhe dado uma chance de revanche. Mas não o fiz.
A bola da vez do país, a meu entender, é a volta dos generais ao comando da nação verde e amarela. Já a bola da vez no jogo de sinuca, de quando venci dois adversários, foi a de cor cinzenta desbotada, a de número sete.
E, agora, ao final, indago: “qual seria a bola da vez na concepção de vocês? No jogo de sinuca parece fácil. Muito embora, no que tange aos destinos do nosso amado Brasil, a situação se complica, e muito”…