O que seria de mim?

De quando em vez passo, andando pelas ruas a passos lépidos, por pessoas, ainda jovens, amuletadas, cadeirantes, deficientes visuais, curvados sobre as pobres colunas vertebrais, como se olhassem em direção ao chão sem o desejarem, impelidas pelo enorme e doído desvio, que as faz olhar não a frente, desempenadas, como se vida que elas levam fosse como a de um cavalo que anda nas quatro patas, de vez em quando ficam de pé, num empino que pode levar a montaria a uma queda fatal.

Como não posso auxiliar aqueles deficientes em qualquer uma das suas fraquezas passo-lhes do lado. Quando um deles, o tal deficiente visual deseja atravessar a rua pela faixa reservada aos pedestres ofereço-lhe auxílio, que pode ou não ser recusado caso a mesma pessoa não tenha o costume de se deixar ajudar, para se sentir livre de nós, que pensamos ser capazes de dirigir-lhe o destino, quem somos nós para afirmarmos ter a onipotência destinada ao pai de todos nós, o ser especial que tentou nos fazer à imagem e semelhança dele mesmo, e acabou decepcionado por fazer tudo ao contrário: seres imperfeitos com seus múltiplos e loquazes desvios de conduta, dotados de físicos tão díspares como os vistos antes? Somos justamente os antagônicos dos bons exemplos, os desvios do considerado certo, exatas imagens mal acabadas das imperfeições, mesmo as observadas na face transparente do que o espelho enseja se torne perfeita aos nossos olhos que tão mal enxergam a dura e crua realidade cruel que condiz com a verdade. Por esse motivo, ao me olhar no espelho, faço-o por sua face que não mostra como somos, aquela embaçada, do lado oposto da superfície refletora, fiel tradutora do que somos exatamente, mesmo ao sabor de pinturas que tentam sufocar-nos as rugas, apagar os sulcos profundos que não conseguem disfarçar quantos anos o vil calendário nos mostra, quantos anos temos, há quanto tempo a mocidade passou, quantos janeiros se foram, transformados em fevereiros, indo ao final do ano, logo o fim da vida acusa-nos a cor do nosso caixão, das flores que a sua tampa hermética encerra, quem em verdade sorri, quem de fato ressente-nos de nossa ausência terrena?

Ao andar pelas ruas vendo pessoas andando empurradas por amigos, cuidadores, sem poder andar pelas próprias pernas, penso o que vai ser de mim quando dessa maneira estiver?

De novo lucubro, ao correr pelas estradas, ao ver pessoas deficientes visuais guiadas por cães que ajudam cegos nos seus ir e vir, e eu, graças aos bons olhos que possuo, corro pelos caminhos seguros, sem pisar em buracos profundos, evitando, sem a ajuda de terceiros ir adiante, sempre a frente, chegando a locais apenas pertinentes a carros velozes, gastadores de combustível caros, enquanto eu apenas uso dentro do meu motor que um dia irá fraquejar não apenas o feijão nosso de cada dia, como os alimentos ricos com os quais procuro me alimentar.

Sem querer pensar demais, mesmo assim instigo-me em devaneios, ao escrever com tamanha proficuidade, textos enormes, a exemplo deste, caso um dia a visão vier a me deixar, nem por lentes sabiamente receitadas por bons médicos dos olhos, o que vai ser de mim quando meu cérebro irrequieto der ordens aos meus dedos trabalhadores, e não conseguir vislumbrar as letras brancas do teclado negro do meu computador, qualquer um dos dois, como vou continuar vivo depois de tantas perdas das quais serei privado, num momento qualquer da minha vida tão rica e pródiga em habilidades variadas?

E, no momento exato, no qual penso sempre, não sei quando ele irá chegar, quando, refém de alguma deficiência mal amada, não desejada, sei que um dia ela aportará dentro do interior do meu interior, não puder ao menos amarrar o cadarço dos meus tênis, tantos que ainda são, quem vai me ajudar a atar e desatar os nós, não apenas aqueles que ajudam os tênis seguros a vestirem meus pés, ainda dois, da mesma forma os nós que me tolherão não apenas as caminhadas longas, bem como as corridas longuíssimas, as divagações profundas que meu cérebro dita?

O que vai ser de mim quando meus ouvidos agudos não mais perceberem o canto dos passarinhos, o buzinaço das ruas, incomodativos por vezes, o alarido ruidoso das crianças, entre elas cito meu querido neto Theo, que com seus gritinhos, ainda não é capaz de falar vovô, como me sentirei feliz ao escutar, na sua vozinha levada: “vem, meu caro vozinho, brincar comigo de cavalinho, deixe-me montar as suas costas, ainda fortes, irmos longe, bem longe, quiçá na mesma lonjura de quando o senhor tinha a minha idade, mês que vem completo meu primeiro aninho”.

O que vai ser de mim quando eu não mais estiver aqui? Olhando e sentindo o vento frio, olhar pro céu e vislumbrar o azul, que de tão azul faz par com o brilho amarelo do sol, tão em falta nestes dias frios na boca do inverno? Não sei, pois não aqui estarei para constatar tanto a beleza quanto a falta de formosura dos dias que ainda me acolhem na minha caminhada com pernas ágeis, não sei por quanto tempo mais elas estarão assim.

São tantas e tamanhas indagações de hoje cedo, que faço a mim mesmo, que, ao terminar esse texto, com tantas inquirições, são tantas que não contei quantas foram, que acabei me cansando de perguntar o que será de mim.

Deixo a resposta às minhas perguntas aos tantos quantos me sucederem nesse mundo, imenso latifúndio, bem maior do que minha rocinha singela, que quando a vaca deita deixa o rabo inteiro de fora.

O que vai ser de mim? Nem eu mesmo desejo saber a resposta. Deixo essa difícil missão a vocês…

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