Ainda

Hoje, segunda-feira que logo passa a ser terça, maio agoniza sem estar febril, faz parte dos anos caminharem no sentido de trás a frente, em nosso caminhar rumo ao túmulo, aos estertores finais, em sua marcha impávida, inclemente, em direção ao amanhã, nada podemos fazer senão rezar, contritos, não sendo necessário passar por qualquer igreja que seja, na rua mesmo podemos, de olhos abertos, admirando entorno que tantas vezes nos desagrada, pedir a Deus, não sei onde ele se esconde, ao olhar o céu ele não se mostra, pelas ruas madrugadoras não o encontro, nem ao menos me cumprimenta com um amistoso “vou estar com você, só lhe peco que sejas caridoso, afável no trato com desconhecidos, abra-lhes o sorriso mesmo que do outro lado eles não sejam correspondidos, dialogue com seus filhos, não deixe a sua esposa ferida com palavras amargas que a ela foram desferidas num momento de pressa onde lhe faltou a paciência, seja comedido em suas falas que podem atropelar os que o escutam, suplico-lhe seja ponderado em suas observações, para você pertinentes, a outros não, que não fale da vida dos demais, a sua conduta é a que conta, dê exemplos de ética e decência, jamais se comporte como cerros políticos dos quais a mídia ulula raivosa, seja ameno no entrecruzar-se com qualquer um por que passa nas ruas, mesmo naquelas por onde vem e volta do seu consultório, trate como a mesma cordialidade tanto os pacientes de consultório assim como aos que não podem procurá-lo ali, ou aqui, se advindos de unidades de saúde públicas, seja gentil e procure, caso o sistema não lhe forneça instrumentos os quais lhe permitam chegar ao diagnóstico correto, não consiga operá-los via SUS, que pelo menos oriente-os a quem procurar, perca um pouquinho do seu precioso tempo em explicações que para você, médico experimentado, a eles podem parecer complicado, tente se modicar após tantos e tantos anos na prática da sua medicina de vital importância ao bem estar de outrem, se não conseguir se modicar por completo, pelo menos tente.

Sempre que posso, e faço com o que o poder se manifeste sempre, embora considere o sempre fecundo demais, deixo o carro estacionado de frente a casa onde moro. Minhas pernas fortes ainda têm dado conta de me levar onde desejo ir. Já corri mais de quarenta longos quilômetros, penso correr muito mais.

Escrevo todas as manhãs, antes dos enfermos chegarem.  Faço aula de alemão, já o fiz em inglês, francês, italiano, espanhol, nas últimas falo e me faço entender com desembaraço.  Já no alemão espero estar fluente em poucos meses, caso consiga realizar meu sonho de ver o meu romance: “Por quem os sinos não dobram”, todo ambientado na Alemanha a ser transcrito por uma professora com a qual estive ontem a note, filóloga na língua daquelas pessoas organizadas, educadas, corteses, que moram ao norte da Europa, administradas por cidadãos dos  quais nada podem dizer a não ser rasgar elogios em alto e bom tom. Em coro com os demais moradores do mundo todo.

Ainda consigo fazer tudo citado e algo mais.

Hoje desci a rua tentando acompanhar uma linda moçoila com uma pesada mochila às costas frágeis como asas de borboletas. Ao passar por ela, lado a lado, ofereci-lhe meus préstimos para ajudá-la a chegar a sua escola, já que houvera pensado que o tal envoltório seria em verdade pesado demais aos seus singelos anos de vida. Ela, a jovem estudante menina, pelas  minhas contas deveria ter mais ou menos quinze aninhos, se tanto, educadamente, me confidenciou estar acostumada a levar o dobro do que a mochila pesava. E sorriu em agradecimento.

Mais adiante, já que tinha pressa a chegar onde estou, a escrever a primeira crônica de hoje, precisamente tenho pacientes a atender após as oito da mesma manhã, na mesma maratona cotidiana, só na parte da tarde cuido de exercitar-me numa academia perto de onde estou,  ao passar nas imediações de um bar movimentado, repreendi um amigo a que parasse de fumar.

Uma vez aqui, prédio ainda vazio dentro de ele mesmo, apenas o porteiro me deixou à vontade, meu amigo eletricista que cuida da parte elétrica que de quando em vez claudica, penso, pensei, e ainda irei pensar sobre os aindas que me restam.

Ainda hoje posso caminhar, correr, andar, falar, dar prosas a quem gosta, citar  e me fazer entender em mais de seis idiomas, ir à roça quando os sábados permitem, dizer bons dias aos que comigo cruzam, desferir piadinhas aos conhecidos, aos não da mesma forma faço, tratar da melhor maneira que posso velhos nos quais passei os olhos, ou não, amar e ser amado, olhar as lindas moças com olhos de cobiça, embora saiba que uma grande mulher sempre está a minha espera quando dela mais preciso, pilheriar quando o riso pode ser inserido no contexto triste, lançar olhos de pena assim que vejo pedintes esmolando, dormindo enrolados a velhas mantas doadas, ou fumando cachimbos de crack aos olhos sem nada poder fazer os cidadãos normais, acompanhar a féretros, vertendo lágrimas ou não, entrando e saindo lépido da piscina em dias de frio intenso, tomar conta, com que prazer o faço, do meu querido Theo, meu primeiro neto, correr distâncias incríveis em companhia de mim próprio, quando a sombra me acompanha, assim que o sol se apresenta, deixo-a ir atrás de mim,  escrever com tanta veemência, tanto crônicas como romances, ambos são ditados pela ficção, sofismar, exercitar-me não apenas na academia, bem como o cérebro fervilhante de coisas novas, ele não para, como eu, sair desta cadeira de espaldar alto, que gira em suas rodas, olhar o cenário que da minha janela de deixa ver, frestas reminiscências do meu passado, presenteando-me com o presente do qual nunca me apartarei, embora o passado sempre me há de cortejar, quantos aindas ainda me são reservados, num quartinho trancado dentro do meu cérebro refém de tantas lucubrações, muitas delas são transformadas em ações, outras ficam apenas falando de emoções.

Não comentei senão a metade, a quinquagésima parcela dos aindas que me esperam, na minha caminhada vida adentro, ou afora. Se fosse citá-los a todos os aindas, todas as folhas guardadas na impressora por detrás do teclado do meu computador não seriam suficientes para imprimir a todos os escritos, desse dia 22 de maio, de outros dias que a ele seguirão.

São tantos e tantos aindas, que, nesse dia de hoje, final de maio, que começou chuviscoso, agora o céu se torna de cinzento a quase azul, creio que ainda tantos aindas acontecerão, que meu pobre e cansado computador não vai ser conhecedor de quantos aindas serão.

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