Vou me mudar de aqui

Um dia, cansado das vicissitudes da vida, angustiado e desiludido, as duas palavras ensejam o mesmo sentido, embora amando o meu país, aqui nasci e pretendia ser sepultado no meu torrão natal, ou ter minhas cinzas jogadas numa pastaria verdinha, acabei mudando de opinião.

Um tanto poeta que me considero, ao pensar pra onde me mudaria, se para China Comunista, hoje lá o regime da foice e martelo foi desfeito, ou para outro lugar bem longe, mais ainda do que a vista alcança, seguindo a inspiração do grande poeta Manuel Bandeira, nos seus versos prediletos, o antológico “Vou-me embora para Pasárgada”, quem sabe um dia me mude para lá, transformado em uma borboleta em vias de falecer, cansada de tanto esvoaçar de flor em flor, quase perdendo o prazer que sentia pelo pólem retirado do âmago de uma flor, que porventura morreu de amor.  Trocada por outra flor que amava uma praga de jardim, já que ela, uma reles e odiosa madressilva, acabou caindo de pétalas murchas por uma azaleia querubim.

Desde quando na minha cidade cheguei, trazendo nas mãos aquela maleta de médico vinda de longe, d’além mar, das terras de Espanha, sem ver as touradas de Madrid, assim que vi parte dos meus sonhos serem concretizados, trabalhava noite e dia em cirurgias nas quais em pouco tempo fiquei experto, retirando próstatas hipertrofiadas, cálculos renais que, se deixados ali em pouco lesariam irremediavelmente o rim, tumores felizmente operados em hora boa, caso contrário fatalmente levariam o paciente ao óbito; outras patologias mais singelas, que da mesma maneira causam dor e dissabor, como exemplo cito algumas delas: hidrocele, varicocele, cistos intrínsecos ou por fora da bolsa escrotal; fimose – provocadora de câncer de pênis e outros infortúnios mais, nas vias urinárias intervia com magistral competência, abria o lume da uretra, desimpedia o fino ureter dos seus estreitamentos, tratava com ética e denodo as patologias advindas do mau uso do sexo, entre elas as verrugas penianas e moradoras das vizinhanças, assim como também militava nas doenças não cirúrgicas, a exemplo, outras DSTs, são várias, não vou lhes declinar o nome, bem como tentava aliviar a dor da cólica renal, as inflamações não cirúrgicas dos testículos, como dói um trauma e uma orquiepidimite. Paro por aqui, pois essa crônica não tem a ilusão de tentar se transformar em um tratado de medicina, esse costume deixo àqueles colegas que são mestres e doutores escritores nas lidas científicas.

Voltando ao longo parágrafo anterior, que traz em seu bojo algumas informações básicas sobre a urologia, quando cheguei à minha querida Lavras, após longo período de varar dias transformando-os em noites altas, quando consegui juntar algum dinheirinho, já casado com uma pequena grande mulher, fiz o que achava certo. Comprei um palmo de terra, onde tinha uma casinha pequetita, onde o meu amor não nasceu, um curral caindo aos pedaços, uma plantação de café o qual adoro apenas na xícara, mesmo assim o expresso, por esse motivo logo dei cabo dele (do cafezal), transformei a área de três hectares em pastagem, agora quem me arrendou meu pedaço de céu com muita coisa por fazer planta milho para alimentar as vacas e suas crias, e só.

Foram mais de trinta anos dando murro em ponta de cabo de enxada. Perdi a conta dos prejuízos que a tal rocinha prejuizenta me deu de presente.

Não sei quantos retireiros passaram por ali. Quantas vacas morreram. Quantos cães desapareceram. O último, um border collie campeão, de nome Paulo Rosa Dois, foi afanado?, por quem?, até hoje não sei o destino do meu querido cão desaparecido numa madrugada fria do mês que já não mais se mostra no calendário. Se se mandou segundo seu desidério, ou foi levado por um senhor, o qual tinha uma fêmea da mesma raça que gostaria de se casar com ele.

Depois de mais de não sei quantos anos fazendo de conta que era fazendeiro, não faltavam conselhos da minha família para que pusesse a venda aquilo tudo, que era um retumbante nada, passei adiante o bastão de médico sitiante, já que de fazenda- tecido entende minha querida esposa Rosa, que tem a felicidade de transformar o corpo de mulheres fora do peso em Cinderelas lindas, sendo ela mesma uma estilista de rica fama e formosura pura.

Afinal estou perto de ter meu sonho realizado.

Hoje mesmo, depois das dez da manhã, vou dar uma passadinha rápida por lá, no município da linda cidade próxima, Ijaci. São apenas dezessete quilômetros da minha casa à Amarelazul, cenário do romance Madest.

Penso, em pouco mais de dois meses, se o tempo e a vontade dos pedreiros construtores permitirem, meu castelo de sonhos vai estar prontinho da silva, embora meus sobrenomes sejam Rodarte e Abreu. Minha casa beira represa do Funil, de onde se avista uma linda paisagem, são mais de mil metros de frente, não tem fundo o meu lote, já se apresenta na fase de acabamento: cômodos de banho sendo azulejados, piso a ser começado, peças da cozinha e dos banheiros ainda vão ser compradas, são detalhes, coisiquinhas pequeninas, que só minha amada esposa Rosa entende a perfeição. Eu não.

Passamos por tempos tumultuados no país onde não escolhemos para viver.

Os escândalos pipocam como pipoca na panela fumegante, aquecida pela chama do fogão, prestes a se transformar de milho gordo a piruá. As pipoquinhas saudáveis não sobram em nenhuma delas. Nada como comer pipoca com guaraná. Embrulhados numa manta quentinha, nestes dias frios, quase invernais.

Andando pelas ruas, observando de olhos atentos as cercanias, pelas calçadas, nos meio- fios, dormindo nas sarjetas, debaixo de marquises, hoje chove, a gente observa, coração amargurado, o triste cenário dos maus tempos por que o Brasil atravessa. Ontem mesmo vi um casal comendo num marmitex, ofertado como cortesia por um restaurante, sem pelo menos usar um talher, um garfo que fosse, uma faca, uma colher, levando com os dedos, tomara limpos, nacos de arroz e feijão, sem um pedaço de carne sequer, às bocas esfomeadas.

Lojas vazias fazem parte do meio ambiente. Locais onde médicos privados têm consultórios da mesma forma sem nenhum paciente à espera. O comércio ressente-se da crise. Fábricas demitem. O desemprego cresce. Em contrapartida com que a renda decresce.

A crise, de agora em diante, com a bandalheira e a indefinição política que da capital federal se mostra, não mais timidamente, vai se aprofundar mais e mais.

As perspectivas de melhoras escorrem pelo ralo de uma pia furada. E a gente, pessoas de bem, olhamos tudo aquilo com olhares de desesperança morta.

Tenho medo de ligar a televisão, nos noticiários, o assunto não muda, bem como de me plugar a internet, sempre a mesma ladainha.

Ontem, de noite, ao assistir a chuva cair, mansinha, como meu cavalinho de nome Theo, o mesmo do meu netinho querido, até agora o primeiro e único, me deu uma vontade imensa de me mudar de aqui.

Não irei pegar o avião. As minhas economias e o preço do dólar dispararam, bem como aconteceu ao euro.

Bem que gostaria de morar na Alemanha, cenário do meu próximo romance, intitulado “Por quem os sinos não dobram”. Mas a vontade esbarrou no mesmo problema, a falta de capital.

Em Paris, na França, nem pensar. Na Argentina não desejo ficar, embora a carne ótima que é servida por lá. A Noruega é fria demais. Apesar de ser um dos países de maior IDH do mundo inteiro. Na América do Norte, com aquele louco do Donald presidente, nem pensar. Não pretendo, muito menos tenho idade e vontade de me engajar nas forças armadas, para lutar em outra guerra mundial.  Deixem os norte- coreanos com seus canhões atômicos, se é que eles existem mesmo!

Já que para todos esses lugares não posso me mudar, e minha rocinha fica logo ali, no município de Ijaci, por que não me transferir pra lá?

Com certeza, não apenas as vacas que foram minhas, minhas ex- galinhas, meus dois cavalos, a gente boa que mora naquele pedaço de chão bucólico e fim de linha, todos irão se alegrar.

Heureca. Achei, afinal, pra onde vou me mudar. É logo ali, onde a vista descansa. Caso minha pratinha valente (uma caminhonetinha prata, de marca Fiat, que fica sempre encostada à frente da minha casa), não quiser trabalhar, vou correndo mesmo, com estas mesmas pernas que se cansam sim, de ficarem estacionadas sempre no mesmo lugar. Debaixo da cadeira de espaldar alto, pertinho do meu computador, que de pouco tempo pra cá pede para descansar.

 

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