Pra quê?

Dias antes do hoje amanhecer, frio, bom dizer, ao passar os olhos numa gaveta de um móvel negro, desde quando minha casa foi feita serve de apoio à televisão e aparelho de som, além servir de armarinho onde se guardam guardados, variados, ali, entre DVDS onde estão gravados filmes, musicais, achei um antigo, não tanto quanto a serra que daqui se permite ver, agora o tenho na mesma pasta onde sempre levo livros à venda, e contas a pagar, esse CD especial traz na memória imorredouras recordações.

Quando pude assistir-lhe ao conteúdo, na capa nada lhe era especial, meus olhos, já no meio da apresentação, encheram-se de lágrimas escorridas pelo canto dos dois instrumentos desenhados por Deus para que gente pudesse ver coisas lindas e nem tanto.

Meu coração bateu com a força de um tufão. De minha pele clara exalava um suor úmido. Minhas pernas fortes tremeram. Todo meu eu ficou desassossegado, trêmulo, tomado de rica e profunda emoção.

A enorme tela da televisão mostrou cenas fortes demais para que eu me postasse impassível frente às pessoas que ali deixaram seus testemunhos saídos do fundo d’alma, impressões reais, falas vitais pelas quais não consegui segurar a saudade, de muitos deles que não mais estão aqui, ajudando-me a conter a emoção que tomou conta de todo meu ser.

Os depoimentos vindos de pessoas importantes, pra mim, não celebridades as quais a mídia tenta provar o quanto elas desempenham papéis relevantes no contexto atual, uma a uma perfilaram naquele DVD o qual julgava irremediavelmente perdido, para sempre, como um dia acabei perdendo minha paz ao me despedir dos meus pais.

Não em ordem de aparição, muito menos de relevância, deixou sua imagem no DVD um tio querido. Tio Chico Rodarte, poeta, notório causídico de oratória fecunda, meu querido professorAntônio Russi, eterno revisor dos meus textos, antes pouco inspirados, depois, por obra dele mesmo, cresceram não apenas em correção gramatical, assim como em conteúdo intrínseco, surreal. A seguir perfilaram no DVD um colega, poeta, presidente eterno da Academia Lavrense de Letras, ortopedista que falava verdades que nem sempre agradavam aos pacientes, pela credibilidade, decência e honradez, que dentro daquele homenzarrão produziam efeito de uma cachoeira despencada rio abaixo, até se deitar no mar de um oceano de águas tranquilas onde não conseguem surfar os amantes das ondas gigantes. Saudade do doutor Fred. Ainda faltavam alguns depoimentos sobre o escritor que se mostra à luz da manhã, sobre o urologista que ainda milita nessa seara difícil da medicina, sobre o atleta não aconteceu nenhum comentário, em realidade o atleta faz de conta que mora dentro de mim.

Quem ainda deixou seu comentário sobre o escritor, durante o lançamento de livros já antigos, naqueles anos ainda não haviam sido lançados os romances, nem ao menos um livro reportagem sobre o sistema prisional – O Mundo das Sombras, muito menos os mais novos onde tento cronicar o cotidiano, sob suas nuances descoloridas ou cheias de cores, sejam azuis, amarelas, mesmo a marrom, que não agrada a tanta gente, grande parte dos escritos cheiram a curral, e de dentro deles se escutam os mugidos de vacas, outros dizem respeito a saudade e reminiscências, foram meus queridos filhos, são dois.

Stenio, seguidor da carreira do meu pai e de parentes Rodartes, advogou a meu favor em muitas causas, deslindando processos, penso um dia ficar a salvo deles, se Deus me permitir. De seus lábios jovens e sábios, bom leitor, pessoa de fino trato, que dá tudo que tem, o pouco que tem, a favor dos menos aquinhoados pela sorte. Como de costume ele falou muito bem.

Um testemunho que me fez ir às lágrimas foi o de minha pequena jornalista. Bárbara, nome de mulher brava, poetisa, agora mãe dedicada, como meu querido Theo se parece a mim!

Durante o seu comentário, o qual tenho aqui gravado, nesse DVD tão especial, sobre o qual irei fazer cópias inda hoje, minha amada filha, com a qual por vezes tenho destemperos verbais, por nada, nadinha mesmo, verti choros pena não tão lindos quanto os chorinhos nascidos nas cordas da viola, magistralmente executados por quem sabe.

Em certo ponto dos depoimentos aqui eternizados nesse DVD, quando minha Rosa se fez ouvir, confesso, de verdade, não mais uma ficção nascida de minha mente criativa, juro ter sentido um doce perfume de rosa mulher. Foi um odor frágil, ao mesmo tempo audível, mistura de almíscar e jasmim.

Caso tenha faltado algum depoimento, de alguém, não pude assistir novamente ao conteúdo da gravação, feita por ocasião do lançamento de dois ou mais livros, os quais refuto como filhos, que me desculpem o ausente.

O que em verdade gostaria de deixar aqui, nessa crônica de agora cedo, nessa quinta-feira, dezoito de maio, logo mais, ao fim do mês, meu filho Stenio fica um ano mais sábio, são alguns pra quês, que tanto me angustiam.

A manhã de hoje o relógio de parede, talhado em madeira, simulando uma cabeça de cavalo, mostra quase oito da manhã. Aqui cheguei antes das seis e meia. À sala do consultório onde passo horas perdidas tentando me convencer que mais e mais aprendo a difícil arte de escrever.

No momento presente estou estremecido na relação com meus dois amados rebentos. Aos quais amo mais que a mim próprio. A razão, foi pequena. Como um grão de areia numa praia imensa. Sobre o motivo penso não caber aqui a menção. As falas deles dois, seus testemunhos eloquentes, gravados neste DVD, falaram de per si. Muito mais do que nossas rusgas mínimas, que de quando em quando acontecem, saídas de instantes que deveriam perder a legitimidade, no entanto eles continuam a suceder.

Pra quê ficarmos de rostos virados? Por que, morando tão perto, ficamos ao mesmo tempo tão longe, que não posso passar uma vista d’olhos no rostinho lindo do meu neto? Pra que, se temos tanto amor um pelo outro, continuamos a falar em linguagens tão díspares, um não entende o que sai da boca do outro, palavras fortes, melhor se fossem elogios, se ao invés de impressões desairosas, a gente trocasse apenas abraços e afagos carinhosos, sendo a nossa família tão mínima? Por que, mais uma vezinha mais indago? Pra que ficarmos apartados entre nós, se somos uma família que tudo tem para ser feliz, e acabamos trocando ofensas sem muita substância?  Por que ficamos em lados opostos numa peleja contínua, se tudo temos para assetarmos juntos a mesma mesa, orarmos em união fraterna, para que tanto o nosso presente seja em verdade um presente, não uma guerra de onde não saem vencedores e somos todos vencidos, quando tudo ao derredor pede paz? Pra quê? Por quê?

Não pretendo me estender muito nessas lucubrações todas. Fico por aqui. Com um derradeiro pra quê. E um último e desiludido por quê…

 

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