Aquele garoto traquina, nascido na periferia de uma grande cidade, não carece dizer-se brasileira, não tinha onde morar.
Concepto de pais separados, logo que o infeliz veio ao mundo sem saber o que o esperava, tantas desventuras o aguardavam, tantas, que nem sei contar quantas elas foram.
O fato retrato de sua vidinha de garoto de rua, a exemplo de tantos que perambulam por aí, só veio a reforçar as estatísticas insalubres dos números grandões, os quais mostram, per si, o quanto a pobreza influi nos descaminhos do crime, antevendo-se cadeias lotadas, presos sendo cuspidos pelas grades infectas, celas onde cabem quatro espreme-se o dobro, um entra e sai dos presídios por não terem onde ficar lá fora, muito menos conseguir trabalho, uma legião de exemplos dos Tiãozinhos crianças de rua, abandonadas pela vida, que não tiveram a ventura de nascerem no achego de um lar cercados de carinho e bons exemplos de trabalho e honestidade, coisas mais e mais escassas nesse mundo cão onde muitos brasileiros sobrevivem.
Aos cinco, morando num abrigo improvisado, numa praça rica em verde e pessoas usuárias de drogas pesadas e mais levinhas, o menino Tião tentava, retentava, trilhar o caminho do bem.
Foi quando um homem, que pelos arrabaldes caminhava, pessoa boa, de posse, ao ver o jovenzinho, ainda antes de ser chamado jovem, era ainda uma criança, sem infância, diga-se de passagem, apiedou-se dele.
Tiãozinho molhava o corpicho numa fonte luminosa. Não se poderia dizer que aquilo era chamado de banho, quando Seu José, era esse o nome primeiro do senhor que acabou sendo um pai para o menino que apenas conheceu os doadores de semem e óvulo encontrados, por um acaso, numa curva das trompas da mulher, graças a uma fotografia num jornal da capital, com o seguinte título em letras miúdas nas páginas policiais: “casal foi morto durante uma batida da polícia numa favela na localidade tal”.
Foi a primeira e derradeira vez que o menino Tião pousou os olhos lacrimejantes na cara dos pais biológicos, que nunca tiveram a curiosidade de reencontrar o filho perdido.
Seu José acabou adotando, como filho próprio, o garotinho franzino visto pela primeira vez naquela fonte desiluminada.
Levou-o pra casa. Cuidou de todos os trâmites legais para que Tiãozinho fosse, de papel passado , não apenas na conversa, filho legítimo, uma criança já quase criada, se bem que mal, se sentisse bem melhor de quando andava a Deus dará pelas cercanias daquela praça mal afamada, cercada de gente de pior qualidade, salvo os cães vadios que por ali dormiam e faziam a festa para seus donos postiços, os mesmos pedintes drogados, dos quais não se apartavam jamais. Mais uma mostra de quanto mais se conhecem os cães, mais malqueremos os humanos. Que se dizem seus donos.
Aos dez, já na escola particular, aluno razoável, com boas notas em ciências exatas, era péssimo em português, o bem tratado ex-menino de rua passou a assinar o sobrenome do pai postiço. Seu nome todinho, com todas as letras, passou a ser: Sebastião Ananias da Costa Pereira.
No papel a assinatura do jovem Sebastião faltava apenas o segundo nome, o Ananias, pois ele lhe causava estranheza, já que, na escola, sofria bullying, chamavam-lhe de Ananás Azedo.
Aos quinze completos naquele ano de 2017 Tião, tendo completado o segundo grau, com notas medianas, foi trabalhar na loja do pai querido, o Seu José da Costa Pereira.
Era um ano maravilhoso para até então desprotegido pequeno Tião. Tudo lhe parecia sorrir. Tanto na escola, onde continuava sem faltar um dia sequer, quanto no trabalho de caixeiro, onde conferia as mercadorias daquela casa onde se vendia de tudo um pouco. Desde canivetes de lâminas afiadas, a garrafas de bebidas variadas, a utensílios domésticos, roupas do dia após dia, e, quando o pai do Tião ia ao exterior, duas vezes ao ano, da América do Norte trazia eletrônicos a preços tão convenientes que acabava o estoque em apenas uma semana.
Aos vinte de idade o já moço Tião se considerava feliz, e muito. Tinha tudo que gostaria de ter. Até uma coisa que na loja não tinha para comprar: a tal felicidade, desembrulhada ou empacotada num pacote amarelo, que bem poderia ser branco, de outra cor qualquer.
Aos quase vinte e cinco, o jovem e estudioso, e feito honesto pelos embates da vida, acabou de cursar o técnico em contabilidade, numa escola de bom conceito.
Que bom que, a partir do momento quando foi diplomado contador, com louvor, poderia cuidar das finanças da loja do benfeitor que o adotou como filho próprio, mesmo não compartilhando com ele os próprios genes.
Antes do trinta, num dia do qual nunca se esqueceu, na loja do pai apareceu um fiscal da receita federal. Um senhor sisudo, pesado, usando óculos de lentes grossas, e terno azul listrado de banco. Ele trazia na mão um papel em duas laudas. Aquilo era uma intimação para que o proprietário, ou seu representante legal, comparecesse a uma delegacia, graças a uma denúncia de sonegação fiscal e contrabando, coisas e loisas de quem tem a infelicidade de trabalhar com lisura real, num país onde tantas maracutaias são olhadas com pince-nez defeituoso, e nada acontece com o salafrário de colarinho engomado e branco, apenas na fachada.
Foi quando o contador, responsável pelas notas fiscais emitidas aos compradores, leia-se Sebastião Costa Pereira, foi intimado a depor.
Compareceu pontualmente, à hora marcada, de terno escuro e gravata clara, à delegacia para onde fora mandado.
Sebastião foi recomendado a se deixar acompanhar de um bom advogado. Assim o fez.
No dia da audiência, já que o processo foi encaminhado ao Fórum da cidade, na sala ampla estavam, naquele ambiente solene e sossegado, o promotor encarregado do caso, o juiz da vara cível, e o feito réu no processo, que nada tinha com a demanda, o desinfeliz Tião contador. Não de vantagem, coisa que nunca lhe fora imputada como característica de sua personalidade.
Dez minutos antes de entrarem na sala onde se realizaria a audiência, que seria de averiguação do processo, ou coisa de menos valia, o advogado, contratado a peso de um caminhão de banana verde, já que ele era um porta- de- cadeia qualquer, pediu ao Tião, em sigilo absoluto, que ele entrasse mudo e saísse calado. Como uma múmia paralítica, igual aquela encontrada no antigo Egito.
A audiência deu ganho de causa ao denunciante. A loja foi fechada, sob a alegação de irregularidades fiscais e contrabando de mercadorias piratas. Que em verdade não eram.
Não precisa dizer que os honorários advocatícios foram pagos na íntegra. Por sorte, tanto o correto e bondoso pai do Tião Costa Pereira, bem como ele próprio, bom sujeito, garoto que teve a felicidade de ser achado pelo Seu José, naquela dura encruzilhada da praça mal afamada, se não se livraram da multa pesada, pelo menos não foram feitos presidiários, num sistema penal de muitas e incontáveis falhas, como no país de nome Brasil.