A paixão imorredoura do infeliz Tião Madrugada

Amo as ruas vazias, entregues à própria penumbra, salvo nos dias de verão, quando o sol desperta cedo, ao revés dos dias de inverno, frios, cinzentos, emersos num clarume que sói acontece mais tarde.

Tenho paixão pelas madrugadas, amantes e inspiradoras, dentro das quais caminho sempre, mal me cruzando com gatos pingados, sempre em uso de fone de ouvido, escutando músicas sertanejas, adoro quando Roberta Miranda solta seus trinados melancólicos, canções para se dançar de rostos colados. “Vá com Deus, a cada dia que passa, mais distante um rosto tão bonito, se perde na indiferença, é pena que este amor não tem consciência, dos sonhos que sonhamos em segredo. Vá com Deus, vá com Deus, que o amor ainda está aqui, e tente sorrir para mim, amor meu”.

Essa é apenas parte de “Vá com Deus”, da romântica Roberta. As estrofes finais deixo-as irem em paz, na companhia de Deus Pai.

Esse preâmbulo sonâmbulo deixo-o para o começo deste texto. Fui eu quem o fiz, o escrevi, em honra e glória de um peão, boiadeiro, gente da melhor qualidade, simplesinho, sossegado, nascido e crescido numa casinha tosca, feita de pau- a- pique, de telhado tão gasto, furado, que quando a luz das estrelas dançavam vagalúmicas na abóboda estrelada, elas se deixavam ver na cama do Tiãozinho menino, que mal cresceu além da altura pequena de um pezinho de abóbora rasteira, ou de uma espiguinha de milho por pendoar, antes de se converter num enorme pé de milho da altura de uma mexeriqueira onde as mãos, os dedos vão juntos, na ponta dos pés, não dão conta de apanhar uma mexerica madurinha, não da altura do galho mais alto do arbusto de quase dois metros de alto.

Tiãozinho era aluno exemplar.

Naquela escolinha rural, pertinho de um mata-burro de ferros duros e feitos em espaços amplos, maior do que deveriam, foi onde acabou morrendo uma égua de garupa ancha, boa de marcha, melhor ainda de cupim (foi com ela que o garoto Tião se fez macho) quase perdeu um dos tentos devido a um coice que por sorte nele apenas resvalou.

A égua pampa, nascida de mãe castanha, num péssimo dia, quando levava dois latões de leite morro acima numa carroça de pneus carecas, naquela manhã chuviscosa o caminhão leiteiro não desceu até o curral, foi ela, nomeada Cigana, quando teve de atravessar o mata-burro, depois teve nome mudado para mata-égua, casco a casco, com muita cautela, o dono dela colocou duas tábuas podres para que a sua cavalgadura não enfiasse as patas no vão dos ferros do mata-égua, não foi feliz na ideia, pois a égua castanha acabou pisando em falso, teve duas pernas da frente quebradas, depois foi sacrificada com uma letal machadada na cabeça dura. Vindo a falecer de morte matada.

Tiãozinho Madrugada passou tempos longos com olhos rasos d’água. A perda da amante, da raça Mangalarga, boa de cupim, melhor ainda de coice, que prometeu, após o sexo desprotegido dar-lhe um filho equino, misturado aos genes humanos, em verdade quase perdeu o que trazia dentro dela naquele dia fatídico. Soube-se depois que o filhote dos dois era uma linda feminha, boa de coice, pior de cupim, com a garupa de uma fêmea da espécie humana, a qual chamamos bunda, redonda, arrebitada, do jeito que as mulheres formosas, as que frequentam as academias se dão ao desfrute. A aberração nascida da morte da égua Cigana foi poupada por uma cesariana antes que o óbito da mãe fosse anunciado por um bando de urubus reis.

Não sei se o produto do concepto entre Tião Madrugada e a égua morta no mata-égua, tempos mais tarde, teve o mesmo destino dos pais de genéticas distintas. Ninguém soube contar a história, o porvir, mais uma vez fruto de uma invencionice minha, das tantas que minha cabecinha doida inventa cada vez mais.

Foi quando me recomendaram que fosse a um veterinário, ou a um doutor, da mesma raça minha, para apertar as arruelas, com elas os parafusos, que, de tanto correr pelas estradas acabaram perdendo a tarraxa. E me fizeram endoidar de vez por todas.

O fato retrato é que o pobre Tião Madrugada, assim que perdeu a linda namorada no funesto dia da morte no mata-égua, ali hoje está fincada uma cruzinha em forma de ferradura torta, por causa do acidente, e um buquê de flores do campo, além de um monte de feno, capim seco que a linda égua falecida adorava, da mesma maneira que o pobre e desinfeliz Tião amava as madrugadas.

Anos mais tarde, antes tarde do que nunca, ao descer a rua, como o cotidiano indica, as ruas estavam vazias, era plena madrugada, bem antes das cinco da manhã, desse dia dezesseis de maio, passei por uma pessoa enrolada num cobertor em frangalhos.

O pobre, a meu ver um pedinte, um morador de rua, usuário de droga, dormia como podia debaixo de uma marquise furada, melhor do que eu consegui, na noite de ontem para a de hoje.

Não sei bem a razão acabei acordando o tal sonolento sem teto.

Fi-lo com o cuidado que uma mãe dedica ao filho novinho, que carece de ir à escola, pela vez primeira neste semestre que tem começo.

O jovem senhor, o que ressonava debaixo da velha marquise, num cantinho escuro, um falso abrigo de uma chuva inesperada, acabou abrindo os dois olhinhos baços, vermelhos de conjuntivite.

Ele retrucou ao meu bom dia. Acabou virando pro lado, e novamente tentou contar carneiros, inexistentes, apenas os tais berravam em seu sonho mirabolante. Na vida real eram meras quimeras, azuis e desbotadas.

Depois de passados mais de trinta incontáveis minutos, quando me preparava para entrar no prédio onde fica meu consultório de urologista-escritor, eis que, para meu espanto, acorda de vez o dorminhoco.

Foi quando reconheci nele o infeliz Tião Madrugada.  O mesmo amante da égua, pela qual vestiu luto inteiro. E vive pelas ruas, dormindo ao relento, mais um sem alento dos tantos que passam a vida todinha perambulando erraticamente pelas cidades e vilas tantas de nosso amado país.

Tião amava as madrugadas. Com a mesma intensidade com que amava a sua égua falecida no infausto dia quando foi sacrificada, ao cair no vão dos ferros do tal mata-burro, mais tarde rebatizado como mata-égua-cupinzeira.

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