Receita para a decrepitude

Nada contra, e seria impossível remar contra a correnteza dos anos, inevitável e inadiável porvir. Até hoje em dia, a não ser que se torne ficção, mais um devaneio dos tantos que tomam conta das minhas quimeras, a ideia já foi explorada no filme de nome “O curioso caso de Benjamim Buttom”, quando um homem nasceu idoso, foi indo para trás, até voltar de onde veio, às entranhas seguras do aconchego do útero da sua mãe.

Hoje coleciono sessenta e sete anos de vida até sete de dezembro que vem a galope.

A partir de então vou estar sessenta e oito. De aí em diante, caso a saúde ainda me acompanhar, em seu passo manquitola, vou caminhar a frente, não em carreira como me acostumo a fazer aos domingos, num deles a distância percorrida foi tão longa, distante, de uma cidade passando por outra, até receber a bandeirada a cinquenta quilômetros longe, perto das duas horas da tarde, após ter saído antes das cinco da madrugada.

Acredito ser a atividade física, pela qual tenho paixão, a capacidade e o desejo de aprender mais e mais, nos dias atuais me faço entender em seis idiomas, e sempre pratico-os quando a oportunidade me assanha, o hábito do qual me confesso afastado, logo o persigo novamente, a leitura de bons livros, não os que nos tentam ajudar, ledo engano, daqueles de autoajuda quero distância, assim como desdenho dos puxões de orelha e dos conselhos não pedidos. Não mais tenho idade para me transformar de estranha lagarta comedora de folha em uma linda borboleta azul com listras negras.

Um dia me contaram um caso que bem exemplifica a receita para envelhecer. Ou ficar decrépito, caduco, um peso pesado sobre os ombros frágeis dos filhos que não conseguiram vencer por eles mesmos e passam, uma vez adultos, a continuarem ser filhotes cangurus.  Que moram na mesma casa, de onde deveriam ter saído, há anos baldios, comem a comida comprada no supermercado por obra e graça dos pais, vestem roupas ainda novas que moram no armário lotado de vestimentas dos progenitores, vão ao restaurante comemorar o dia das mães, e quem paga a conta? De novo a carteira dos pais.

Zé Fazia Tempo era jovem ainda quando me contaram parte de sua vidinha insossa. Terminada precocemente, no leito da própria casa modesta onde morava, com o corpo cheio na parte de trás de feridas profundas, com várias sondas enfiadas em seu corpicho descarnado, alimentando-se artificialmente, por uma dessas sondas que caminhavam da boca direto ao estomago, usando fraldões, uma bolsa coletora de fezes pastosas grudada ao abdome, uma vida a qual não desejaria para nenhum dos meus amigos, ainda mais para mim.

Em moço não tinha o costume de caminhar. Aos dezoito, de posse de carteira de condutor de veículo, o tal carro não se podia ver na garage. Quando ia à padaria, que ficava na esquina de baixo, a uns vinte metros de onde se abrigava, acordava tarde, dormia mais tarde ainda, tirava o auto do esconderijo, e com ele ia comprar pão quentinho, recém-nascido do forno.

Bem que a mulher que com ele se amasiou, ainda em boa forma, uma panela não tanto velha quanto aquela onde Zé fazia arroz, não comia feijão, verdura nunca lhe passou pelo cardápio pobre em verde, proteínas nunca foram do seu prazer, ovo cozido deixava no fiofó da galinha, ao contrário, tomava potes e potes de vitaminas receitadas por um amigo da onça que veio a morrer antes dos quarenta, fazia exames de laboratório duas vezes de dois em dois meses, e, caso o colesterol subia tomava duas dúzias de medicamentos na intenção de baixar o nível das gorduras insaturadas, desprezava os radicais livres, pois não se sentia livre do peso pesado dos anos. E enchia os chifres, não o que a dona dele plantava-lhe na testa, ela era fiel como a beata que não perdia uma missa sequer, chegava a casa trôpego, fumando o vigésimo cigarro da parte da manhã, a tarde perdia a conta de quantas guimbas amassadas ficavam perto do meio fio, e assim passavam os dias na vida do pobre Zé Fazia Tempo que não andava pelas próprias pernas.

Um feio dia teve de vender o carro. Fê-lo com olhos de tristeza profunda.

A partir da perda da montaria sobre pneus, nunca mais saiu de casa. Passava dias e noites assistindo a televisão, fumando sem parar, sempre mal acompanhado por uma canequinha rasa de cachaça das piores que o alambique produzia.

Parou de fumar cigarro de papel. Recomendado por seu médico, não especialista em doenças do aparelho respiratório. Foi este mesmo esculápio, que também era fumador inveterado, às escondidas dos pacientes, que receitou-lhe passar a fumar um enorme charuto, que, além de caro, a fumaça dos charutos não deve ser tragada, Zé Fazia Tempo agia sempre na contra- mão do receituário, chupava o charuto com tal sofreguidão que tossia a tarde inteira e acabava vomitando o conteúdo gástrico todinho.

Ao fim dos menos de cinquenta anos, pele parecida a um cidadão de quase cem, amarelinho ictérico, mais magro que uma seriema anoréxica, barriga negativa, de inanição mesmo, não resultado de flexões do tronco em horas tantas de academia, por onde nunca passou, e se ali entrou foi para ver uma linda moçoila não casadoira que com ele teve um caso que pouco durou, assim que as notas de cem foram escasseando, a tal garota de programa mudou de rufião.

Aos quase sessenta Zé Fazia Tempo parecia um defunto morto. Dois anos depois fui vê-lo numa mesa de bar. Não para tomar todas com ninguém. Passei ali por um acaso. Era o caminho por onde voltava depois de uma corrida de trinta quilômetros, quase hora do almoço, num domingo, dia das mães de todos nós.

Achei o que sobrou do Zé um arremedo do que ele era aos menos de quinze anos.

Eu tenho sessenta e sete, ainda. Zé Fazia Tempo, cinquenta e cinco.

No entanto Zé parecia ser meu avô, dado a velhice doentia que tomava conta dele.

Deixei o pobre e infeliz adulto, agora velho ficou, decrépito mais ainda, entregue a um copo pela metade cheio de conhaque. E uma canequinha de pinga já vazia, ao lado dos dois.

Uma semana depois soube notícias do infeliz Zé Fazia Tempo.

O que restou dele foi sepultado numa segunda, dia que odiava, por ser começo de semana, e as segundas lhe traziam péssimas lembranças pois era dia de trabalhar. Coisa que esconjurava, como a pobre sogra pobre que a ele sucedeu.

O caso do Zé Fazia Tempo, que não se exercitava, não se alimentava adequadamente, a cada três horas, não comia verdura, fumava e cheirava a fumo, apenas andava, quando possuía um, sempre usando carro, não ia a dez metros de lonjura usando as penas como muletas, fazia tempo que não fazia sexo, da última vez apanhou uma gonorreia que lhe deixou sequelas incapacitantes, a uretra estreitou, retendo-lhe a urina, o pênis entortou, tornando impossível a penetração na cavidade vaginal, e foi nestas condições insalubres que o defunto do Zé Fazia Tempo foi baixado à sepultura, naquele dia de semana que renegava. A segunda-feira que nunca vai se tornar a tão esperada sexta.

Sabem o que foi escrito no epitáfio do túmulo do Zé Fazia Tempo?

“Aqui jazem as exéquias de um homem que sucumbiu ao tempo. Graças a sua vontade de nada fazer nada. A não ser procurar ficar em ócio eterno, numa mesa de bar, sem se exercitar, sem uma dieta adequada, sem procurar aprender sempre mais, nem menos, nem buscar ser feliz, e mais nada” .

A vida passada do Zé Fazia Templo para mim é um exemplo formidável de uma receita para rumar logo à decrepitude, envelhecer sem qualidade, morrer de posse de uma identidade da qual muitos lançam mão, quando querem morrer antes da hora. Apesar de que morrer com saúde é mais um dos meus devaneios vários. Além de ser feliz, se me permitirem, antes que a morte me tome em seus braços esquálidos. E me leve a um lugar desconhecido, se perto dos meus pais, ainda melhor, tomara…

 

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