Hoje pensava em tê-la apenas no descanso de tela do meu computador

Foram tantas as imagens que fazem pano de fundo na tela do meu computador, onde gerencio os pacientes do consultório, arquivando as consultas e escrevo crônicas, que nem sei quantas foram.

Antes havia uma imagem de um verde expressivo, um cena campesina, onde faltavam vacas e seus bezerros. Já ali foi fincada uma fotografia de um arrebitado traseiro de mulher, que, de tanto olhar para ele, e nada poder fazer, a não ser visitar com os olhos aquela beldade, foi trocado. Não me lembro por qual paisagem. Não importa, como hoje conta, e muito, é o dia que amanheceu no dia de hoje, quatorze de maio, um dia especial, como especiais foram elas, as insubstituíveis mães.

Ontem foi sábado. Dia de deixar a cidade entregue à azáfama do seu trânsito pesado, ao burburinho das lojas a espera de compradores, que, dentro do seu orçamento apertado as pessoas deixam ali as sobras do necessário, para levar, a quem ainda as têm, mães, uma lembrancinha singela, um pacote embrulhado com o nome dela, no meu caso seu nome era Rute.

Foi um dia de muito trabalho não apenas para mim como também aos que ali encontrei. Numa propriedade rural, pequena e rica em singeleza, no município vizinho de Ijaci.

O amigo Roberto, sua dedicada esposa, dona Lúcia, mãe extremada, achavam-se enfermos, vítimas de uma virose peçonhenta que ataca principalmente nos tempos de seca, quando a chuva se faz ausente, a poeira levanta-se no ar, tornando este mesmo ar irrespirável, ambiente propício a instalação das enfermidades respiratórias.

Ao ali chegar tinha a intenção de trazer um barco aportado em outro lago um pouco distante do seu amigo mais jovem, a represa do Funil. O motor recuperado já estava a bordo da minha pratinha valente. Quem me ajudou na empreitada foi o filho do meu amigo arrendador do meu pedaço de sonho quase pronto.

Em pouco mais de duas horas já estava com a carreta de molas quebradas, amortecedores avariados, por uma barbeiragem do motorista, na volta de Camargos, sou bom com as pernas, não com os carros, placidamente navegando pelas águas da represa na vizinhança de Ijaci.

Como vai ficar linda a casa por terminar que olha as águas do lago com olhos ricos em admiração! Pena que esse detalhe do quase tarda muito a ser concretizado.

Antes de chegar de Camargos, de onde trouxe o barco, que antes ficava na minha roça, tive uma desagradável notícia. Uma vaca recém-adquirida pelo amigo Roberto quebrou a coluna vertebral ao despencar da carreta do trator, quando vinha de onde pastava, prestes a se tornar mãe de segunda cria. Segundo me consta era boa de leite e melhor ainda de mansidão.

O infeliz amigo Roberto não quis assistir ao sacrifício da Braúna.

Quem teve a ingrata missão foram dois jovens de muito tutano, habilidosos com a colher de pedreiro na mão: o Rafael e aparentado apelidado de Guaxinim, tal lhe era a capacidade de chupar cana e assoviar.

Em pouco tempo ambos estavam com os quartos do animal dependurados num galho forte, a espera do dia de hoje, para comemorarem com suas mães em saboroso churrasco de carne de boi, embora tenha sido uma vaca a pobre assada na brasa.

Por falar em mãe, que saudade sinto da minha!

Ela se foi, sem a minha permissão, no ano triste de 2005. Hoje fazem doze perdidos anos quando a ela acompanhei ao hospital. Dona Rute desceu do carro, apoiada em mim, para vir a se despedir da vida, entrando morte adentro, minutos depois. Foram debaldes as tentativas de restituir a ela um sopro final, fazer seu coração enfermo voltar a pulsar, de novo assistir extasiado aquele sorriso franco, carinhoso, desferido a nós três, seus filhos, quando em sua casa aparecíamos em visitas recheadas de carinho e amor filial.

Foram apenas cinquenta e cinco anos ao lado dela. Talvez ela não se lembre de quantos livros editei antes de sua partida. E quantas crônicas seu nome citavam, quantos parágrafos a ela dedicados, quantas páginas falavam dela. E quantas falavam do seu esposo, meu pai, Paulo José de Abreu.

A sua casa ainda me olha pela janela dos fundos. Aquele quarto dormitório, que daqui se avista, era o meu e do meu irmão Fred. Hoje ele pertence à querida Rosinha, daqui a pouco passo por lá, o que me vai fazer lembrar ainda mais de minha mãe, neste quatorze de maio dedicado à lembrança e saudades das mães ausentes. Às ainda presentes dedico também a elas meus votos de muita alegria e saúde ao lado dos filhos, extensão dos seus genes, caso não do mesmo sangue nada a acrescentar, pois muitas mães ilegítimas dedicam aos filhos postiços o mesmo amor e carinho dedicado aos nascidos das suas entranhas. Do seu ventre fecundo, da cavidade protetora dos seus úteros, ninho acolhedor, santuário ainda de posse apenas da mulher, parideiras ou não, ainda bem que não nos são objetos de conquista a nós, machos, a lírica tarefa da maternidade.

Foram cinquenta e cinco anos ao seu lado. Em criança você cuidava de mim com extremo desvelo. Uma vez jovem preocupada com meu futuro. De outra feita adulto, as preocupações se estendiam a nova família constituída: a minha esposa e a meus dois filhos, agora acrescida de mais um chorinho lindo, dado ao nascimento dos primeiros dentes, do meu querido neto Theo.

Uma vez enferma, o médico-filho não deu conta de prolongar-lhe os anos. Foi duro e angustiante vê-la partir, assim que todos os esforços naquela sala de cirurgia, sob a minha contemplação impávida, incapaz de nada fazer, a não ser orar, se fizeram vãos.

Nesse quatorze de maio, dedicado as mães todas, presentes ou em falta, aqui, no meu consultório, ao olhar a casa onde a senhora morou grande parte da sua existência fecunda em amor, quando desligar o computador, onde escrevo essa crônica, dedicada a senhora e a todas as mães do mundo, na tela, como pano de fundo, passeio os olhos na senhora, em mim, a esquerda, ainda em barba e cabelo presente, do outro lado outra mãe, de rica presença, minha querida Rosa.

Hoje pensava em tê-la apenas na tela de fundo do meu computador a sua imagem, na sua costumeira aparência de onde emanava serenidade, entretanto foi mais um logro meu.

Você, minha querida mãe Rute, não está apenas em fotografia, tantas que são.  Você, minha amada mãe Rute, ainda vive profundamente e em rica memória, não apenas nos anais da minha história, assim como na lembrança de todos que a conheceram e vão, um dia poder vê-la de novo nesse lindo céu azul que do lado de fora da minha janela se mostra.

Abraço e um beijo do filho que jamais a esqueceu – Paulinho.

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