Muitos leitores já sabem que sou Abreu por parte de pai e Rodarte por culpa de minha mãe.
O Rodarte herdei de uma localidade portuguesa, com certeza, comunidade vizinha à Lisboa, de nome Torres Vedras, onde existe uma prima em não sei qual o grau de parentesco. Sei apenas o nome dela: Tereza Rodarte.
Quando passei na linda Portugal, antes que o ano se transformasse em velho, pedi a ela, pelo Face, que, se possível, a gente se encontrasse. Não foi dessa vez, quem sabe na próxima nosso encontro se desse.
Já o Abreu adveio daqui mesmo. Talvez ele tenha algum elo de ligação a nossa avozinha querida, país de dimensões limitadas, mas largo de coração e hospitalidade. Como bem pude comprovar no meu derradeiro passeio por aquelas paragens, terras por onde passaram Luiz de Camões e o grande poeta Fernando Pessoa.
Existem mais de mil Abreus, muitos mais, vivendo tanto na cidade de Lavras quanto no país inteiro. Neste país brasileiro, com tantos sotaques estrangeiros, ótimo local para se viver e conviver, não fossem as enormes desigualdades sociais, a corrupção que aqui encontra eco, a falta de emprego, as enormes distorções a que não nos acostumamos a ver tanto pela televisão quanto pelos jornais impressos. Que infelizmente estão em seus estertores finais.
O meu Abreu é precedido por um “de”. Meu nome completo é Paulo Expedito Rodarte de Abreu. Tenho dois avôs, por parte de pai e mãe, e duas avozinhas queridas por parte deles dois. Ambos os quatro não estão mais aqui. Olham por nós de um lugar no qual acredito. Ao lado de um Deus em cuja pessoa creio em verdade, embora não me acostumo a frequentar o local onde dizem que Deus mora, a igreja, em tantas vestimentas tantas, quanto mais o tempo de crise resmunga, mais templos proliferam, como ervas daninhas num jardim mal cuidado.
Antes, nos bons anos que a idade engoliu, costumava passar as férias, fossem em julho, ou finais de ano, em duas roças bem perto uma da outra.
A primeira era de um tio, da parte dos de Abreu. Já a segunda situava-se no município de Perdões, onde cuidavam dos sobrinhos duas tias, que assinavam Alvarenga, e um tio retireiro, tio Júlio, irmão das duas solteironas.
Tio Zito de Abreu, irmão mais longevo do meu pai, Paulo José de Abreu, ex-gerente do Banco do Brasil, veio a falecer precocemente. Creio ter sido ele quem despertou meu interesse pelas vacas e seus amantes, os felizardos touros reprodutores, que têm a felicidade de possuírem um harém ruminante nos seus currais verdes- mata, que pra mim eram verdadeiros “mateis”, com a vantagem de não precisar pagar por seu uso.
Hoje em dia confesso ter mais afinidade pelos Rodartes. Eles ficam pertinho de onde moro, naquela rua que me olha com olhos rasos de saudade de baixo para cima. A Rua Costa Pereira me persegue, ou seria eu quem a persigo, desde a tenrice da menor idade?
Já os Abreus, meu pai me olha de aqui pertinho, numa fotografia em preto e branco, eu de jaqueta de couro marrom, cabelos negros e bigode preto, olhos atentos em um papel qualquer, ele, com sua calva luzidia, a qual herdei, da mesma forma, um pouco menos, quando eu a ele entregava um diploma numa cerimônia num clube de serviço, o Rotary Clube, creio que quando era presidente da entidade.
Quando passava as férias de dezembro na fazenda do Tio Zito de Abreu, que hoje empresta seu nome a uma rodovia que liga Lavras a Ribeirão Vermelho, sorte minha me fazer acompanhar por lindas primas vindas da cidade de Varginha. Na época o jovem futuro doutor da medicina possuía uma lambreta azul e branca, em cuja garupa ampla ia, agarradinha a minha cintura, uma daquelas mocinhas casadoiras. Que já são avós de não sei quantos netos que assinam de Abreu, em suas certidões de nascimento.
Hoje me sinto apenas ligado aos Abreus por parte de uma querida prima, solteira, embora ainda linda como uma cotovia cantora, que cuida dos pais idosos na cidade carioca de Volta Redonda.
Com ela troco whatsAp, hoje mesmo ela me chamou ao celular.
Acontece que, antes da hora do almoço, ainda cedo, agora a sexta-feira anuncia, cheia de felicidade a chegada do sábado e domingo, parei defronte a uma casa azul, pintura carcomida pelo abandono, residência onde antes morava Tio Zito e sua esposa, a tia Sila. Junto a eles seus quatro filhos: João Batista, Marisa Gláucia, Eneida, e a mais nova, de nome Maria Alice. Todos de Abreu, como eu.
Parei defronte aquela casa, depois de um longo período de ausência. Não por sentir saudade genuína da Maria Alice, única prima de Abreu, em primeiro grau, que em Lavras reside. Mas o fiz.
Interfonei. Esperei minutos tantos que me escapam da lembrança. Foi quando um dos cuidadores daquela moça, um tanto indiferente e ausente, atendeu ao meu chamamento.
Ele já me conhecia de vezes antes. Era meu paciente num posto de saúde.
Entrei por breves instantes naquela casa bastante saudosa do seu passado. Entabulei conversa pouca com a prima que ali reside. Vi o estado de abandono por que passa não apenas a casa onde morou meu tio Zito. Bem como os ocupantes daquela infeliz morada.
Não pude deixar registradas no meu celular as fotografias do íntimo daquela casa. Apenas ficaram, tanto na memória do meu i-phone, selfies de mim e da Maria Alice. E, embora não a tenha podido registrar em nenhuma máquina fotográfica a saudade do Tio Zito de Abreu, irmão querido do meu pai.
Deixei aquela casa, tinta em azul desbotado, em mal estado de conservação, com o coração amargurado de emoção.
Fiz ainda duas fotos da parte de fora daquela casa. As quatro estão gravadas, não apenas na memória do meu celular, bem como no cerne de um baú escuro, que tem o sobrenome dos de Abreu, profundamente arraigado naquele baú onde guardo, dentro das minhas mais ternas lembranças dos dois sobres que trago na minha assinatura, um rabisco pouco entendido por quem lê minhas receitas: doutor Paulo Expedito Rodarte de Abreu.