Hoje dei uma volta no entorno de mim mesmo

Como no dia de ontem a cama me cuspiu cedo. Não tanto quanto os padeiros madrugadores, a exemplo dos retireiros que procuram a vaca extraviada no escuro da cerração, os vigias noturnos que convivem com o clarume das madrugadas frias, como nesse mês de maio, que, mesmo na presença do sol sorrindo, bem antes das seis da manhã a temperatura tem oscilado entre os treze e quatorze graus Celsius.

De tempos recentes pra cá tem ocupado minhas inquirições qual a definição, qual o conceito de bom e ruim, quando se pode afirmar, com resumida margem de erro, que uma pessoa é boa e quando ela veste a roupa de má?

Confesso que essa dúvida, até agora insolúvel, vai me acompanhar por muitos e muitos anos ainda, até quiçá a eternidade, embora considere o conceito de eternidade forte demais para a ele definir.

Como exemplo cito a passagem de uma tia minha. Pessoinha boa, olhos azuis, pele branquinha como algodão doce. Tia Ester, apelidada de Teté, por muitos nomeada de Dona Eternidade, dado aos mais de cem anos que colecionava em sua folhinha, durou até mais de cento de cinquenta anos. Mentira? Perguntem a serra que daqui se avista, que com a minha tia-avó conviveu na tenra juventude, dizem que a serra veio a falecer antes de minha querida Dona Eternidade, que pode ter morrido para o coveiro que a sepultou, mas continua vivinha da silva para seus parentes todos que com ela apreciavam seus quitutes variados, entre eles a tal broa de milho de onde o queijo que ela mesma fazia apontava quentinho de entre os nacos amarelinhos de milho, grãos quase inteiros, tão apetitosos que ela vendia as sobras na feira do mercado que acabou se desfazendo aos olhos nossos depois que a idade provecta montou-nos às costas frágeis que se curvam assim que a velhice chegou. E não mais desapareceu-nos dos olhos saudosos da juventude que não retorna mais, como a jardineira que caiu do galho, deu dois suspiros, e depois morreu.

Dona Ester, Teté, Dona Eternidade, era exemplo maiúsculo de pessoa boa, sempre solidária ao infortúnio dos menos aquinhoados, aqueles sem um tostão furado, pobres de Jó.

Hoje, ao invés de subir a mesma rua por onde sempre passo, assim que deixo minha casa entregue às suas janelas, as suas acomodações amplas e de raro conforto, aos seus cômodos de banho, são cinco, mais do que merecemos, pois ali, nos dias de hoje só moramos nós dois, minha querida esposa e eu, já que meus filhos lá não habitam mais, de quando em vez passam dias apenas entre nós, e quando nos deixam as lacunas das suas presenças queridas sempre provocam a nostalgia de uma imensa saudade, resolvi mudar a direção das minhas pernas andejas.

Resolvi, de chofre, num ímpeto desapetrechado de razão, subir uma rampa longa, a mais comprida do entorno do condomínio, até sair pelo portão sempre afavelmente guardado por um porteiro amistoso e preocupado com a nossa segurança, já que a dele cuida o ronda de boa índole com quem me encontrei na manhã desse doze de maio.

Em menos de dois minutos já estava na boca daquela pracinha enjeitada, recente de grama- mato aparado, mas logo o sarandi em que ela se transforma nos mostra o ar da sua desgraça. Melhor seria se a prefeitura substituísse toda a relva verde por uma grama de boa qualidade. O trabalho de manutenção seria bem mais simples. E de menos custo final à municipalidade.

Ao mudar a rota da minha saída do condomínio fui pensando em duas coisas principais. A primeira das duas era quem seria eu.

Se um médico urologista ainda, se um escritor não reconhecido fora da minha Lavras amada, que apenas vende livros aqui, lá fora os tais encalham como uma nau em águas rasas, se um corredor compulsivo e vagaroso, se um nadador veloz que singra as águas da piscina com o furor de uma lontra faminta, um ciclista aposentado, agora minha bike repousa de pneus murchos na garage, se um idoso que anda de ônibus graciosamente, depois de exibir ao amável motorista a sua carteira de sênior, um velho que ainda pede balas na padaria onde nasceu a heroína musa do romance Madest, um senhor de bom humor que distribui gracejos a desconhecidos, e não se avexa por isso, um mais de sessentão que tenta falar seis línguas, incluindo-se nessa lista a falada na roça, recheada de “uais e trem bão”, um olheiro de garotas bonitas, frequentadoras da mesma academia onde sempre vou ao cair das tardes, um atento observador das coisas e loisas que me causam encanto e desencanto, uma pessoa que se considera feliz, embora vivencie momentos de céus não tão azuis,  um felicíssimo pai de família, filhos criados, trabalho não dobrado, agora mais um motivo de júbilo tem o nome de Theo Neném, com quem canta a “galinha pintadinha” desafinadamente, tantas e tantas pessoas se escondem dentro de mim, que, caso tenha me esquecido uma das quantas sou eu, que este eu, olvidado, não apenas e tão somente me perdoe, como a ele as minhas desculpas de peito e coração aberto.

Durante a volta pelo entorno da rua que abraça as casas todas do meu condomínio, foi que me passou pela cabeça sobre se sou uma boa pessoa ou o seu oposto. Ou bom ou ruim, se preferirem mau, tanto pior. Foi quando me veio à lembrança a figura sempre risonha da querida tia Ester, a epitetada de Dona Eternidade. Ela sim, e outras tantas figuras que a lembrança partiu, não diria pra sempre, pois dizer pra sempre dói, em verdade eram pessoas do melhor quilate possível. Diria melhor, até um dia, frase que sempre falo ao visitar o túmulo onde estão os restos mortais dos meus pais.

Assim que passei pela portaria, naquela hora temprana, quem estava de plantão era o Zé Maria, pessoa ótima, a ele perguntei, quem ele achava que seria eu?

Pela vidraça, parcialmente cerrada da salinha acanhada onde ele vigiava todos que entravam e saíam do meu logradouro rico em verde, dele ouvi a resposta: “ O senhor é uma pessoa boa”.

Hoje, ao dar uma volta pelo entorno de mim mesmo, de entre as inúmeras faces minhas, não importa quem eu seja, ao escutar da boca do amigo Zé, que sou uma pessoa boa, deixei a região sem ainda saber quem eu sou, e o que eu sou. Ainda em dúvida sobre minha verdadeira identidade.

 

 

Deixe uma resposta